Mônaco, Vaticano e Tuvalu são reconhecidos pela ONU como países plenos. Mas tratados assinados com a Itália fascista, acordos seculares com a coroa francesa e um processo de descolonização no Pacífico explicam por que nenhum dos três disputa uma Copa do Mundo.
Existem países soberanos demais pequenos, ou demais peculiares, para caber nas exigências de organizações internacionais. Mônaco, Vaticano e Tuvalu compartilham essa condição. Cada um chegou até ela por um caminho histórico próprio: um tratado de 1929 negociado com Mussolini, séculos de tratados com a coroa francesa e um processo de descolonização britânica inacabado no Pacífico Sul. Entender essas histórias explica por que soberania política, por si só, nunca garantiu lugar à mesa do futebol mundial.
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O Vaticano: um Estado criado para resolver uma disputa com Mussolini
A existência do Vaticano como Estado independente é recente. Até 1870, a Igreja Católica governava os Estados Pontifícios, território que cobria boa parte do centro da Itália. Quando as tropas do recém-formado Reino da Itália anexaram Roma naquele ano, o papa Pio IX se recusou a reconhecer a perda e passou a se autodenominar “prisioneiro do Vaticano”, numa disputa diplomática conhecida como Questão Romana, que se arrastou por quase sessenta anos.
A solução veio de um acordo improvável: Benito Mussolini, líder fascista que governava a Itália desde 1922, buscava legitimidade política junto à população católica do país. Em 11 de fevereiro de 1929, Mussolini e o cardeal Pietro Gasparri assinaram o Tratado de Latrão, criando oficialmente o Estado da Cidade do Vaticano, com soberania plena, porém território de menos de meio quilômetro quadrado. O acordo resolveu uma disputa política de décadas, mas criou, sem intenção, um país permanentemente incapaz de construir infraestrutura esportiva própria. Sem espaço físico para um estádio dentro dos padrões internacionais, o Vaticano nunca teve como atender aos critérios da Fifa, mesmo mantendo uma seleção informal até hoje.
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Mônaco: oito séculos de tratados que nunca incluíram um campeonato nacional
A relação entre Mônaco e a França é uma das mais antigas da diplomacia europeia. A família Grimaldi governa o principado desde 1297. Depois de períodos sob domínio francês durante a Revolução Francesa e sob proteção do Reino da Sardenha após o Congresso de Viena, em 1815, Mônaco teve sua soberania plena reconhecida pelo Tratado Franco-Monegasco de 1861, em troca da cessão das cidades de Menton e Roquebrune à França.
Um segundo tratado, assinado em 1918, durante os estágios finais da Primeira Guerra Mundial, aprofundou essa relação. Diante de uma crise de sucessão no trono monegasco, a França impôs uma cláusula sensível: caso a dinastia Grimaldi se extinguisse, Mônaco se tornaria automaticamente protetorado francês. Essa cláusula só foi revista em 2002, com um terceiro tratado que garantiu independência mesmo em cenários de vacância dinástica.
Esses séculos de proximidade política nunca produziram, porém, um sistema esportivo nacional independente. O clube AS Monaco sempre disputou competições francesas, e o futebol monegasco, historicamente, organizou-se dentro da estrutura esportiva da vizinha França. O resultado é um país soberano, membro da ONU desde 1993, mas sem liga nacional reconhecida pela Fifa.
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Tuvalu: o fim incompleto de um império britânico no Pacífico
A história de Tuvalu está ligada à descolonização britânica no Pacífico. O arquipélago fez parte da colônia britânica das Ilhas Gilbert e Ellice até 1975, quando, após um referendo, os habitantes de etnia polinésia de Tuvalu optaram por se separar dos habitantes de etnia micronésia das Ilhas Gilbert, atual Kiribati. A independência plena veio em 1978, tornando Tuvalu uma das nações mais jovens do sistema internacional, e também uma das menos populosas, com pouco mais de 11 mil habitantes.
Diferente do Vaticano e de Mônaco, o obstáculo de Tuvalu para entrar na Fifa não é diplomático, é estrutural. Faltam gramados naturais que resistam ao clima tropical do Pacífico e faltam hotéis para receber delegações estrangeiras. O país tenta filiação plena há anos, sustentado apenas por um vínculo provisório com a confederação regional da Oceania.
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Três histórias, um mesmo limite
Os três casos mostram como a posição de um país no sistema esportivo internacional carrega, embutida, sua trajetória histórica. O Vaticano nasceu de um acordo entre a Igreja e o fascismo italiano. Mônaco se manteve soberano graças a séculos de tratados com a França que nunca contemplaram autonomia esportiva. Tuvalu é fruto recente e inacabado da descolonização britânica no Pacífico, ainda lutando por reconhecimento pleno décadas depois da independência.
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Soberania política não é suficiente
Enquanto a Fifa mantiver exigências estruturais ligadas a estádios, ligas nacionais e infraestrutura de recepção, esses três países devem continuar de fora. A história mostra que suas limitações não vieram de fragilidade política, mas de escolhas e acordos tomados há quase um século, em mesas de negociação muito distantes de qualquer gramado.
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