De colônia a território: como duas guerras do século XIX criaram seleções sem países
Porto Rico e Hong Kong nunca foram nações independentes. Mas uma guerra entre Espanha e Estados Unidos, e outra entre o Império Britânico e a China, desenharam dois territórios que, décadas depois, conquistaram algo raro: o direito de jogar futebol sob bandeira própria.
Nem todo território com seleção de futebol reconhecida pela Fifa é, de fato, um país. Porto Rico segue sob soberania dos Estados Unidos. Hong Kong integra a República Popular da China. Nenhum dos dois tem assento na Assembleia Geral da ONU como Estado independente. Ainda assim, ambos disputam competições internacionais separadamente das potências que os administram. A explicação está em duas guerras do século XIX que moldaram o estatuto político desses territórios muito antes de qualquer bola rolar.
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Porto Rico: o despojo de uma guerra entre impérios
Porto Rico foi colônia espanhola por quase quatrocentos anos, desde a chegada de Juan Ponce de León em 1508. Esse longo domínio terminou abruptamente em 1898, quando a Guerra Hispano-Americana, motivada pela disputa entre Espanha e Estados Unidos sobre Cuba, também levou tropas americanas a ocupar Porto Rico. O Tratado de Paris, assinado em dezembro daquele ano, formalizou a cessão da ilha aos Estados Unidos, junto de Guam e Filipinas.
A relação entre Washington e San Juan se consolidou em etapas. O Foraker Act, de 1900, criou um governo civil para a ilha, ainda sem cidadania americana para a população local. Essa cidadania só veio com a Lei Jones-Shafroth, em 1917, em pleno contexto de mobilização para a Primeira Guerra Mundial, quando o governo americano via interesse estratégico em ampliar o recrutamento militar na região. Em 1952, Porto Rico se tornou oficialmente um Estado Livre Associado, com governo próprio, mas sem soberania plena e sem representação votante no Congresso americano.
Foi dentro dessa estrutura ambígua, nem colônia clássica, nem Estado pleno, que a federação porto-riquenha de futebol se filiou à Fifa em 1960, décadas antes de a entidade endurecer suas regras de admissão. O resultado é uma situação que confunde até hoje: cidadãos porto-riquenhos têm passaporte americano e votam em primárias presidenciais dos Estados Unidos, mas torcem, oficialmente, contra a seleção americana nas eliminatórias da Concacaf.
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Hong Kong: o legado direto das Guerras do Ópio
A história de Hong Kong é ainda mais antiga e está diretamente ligada ao comércio de ópio entre o Império Britânico e a China imperial. A Primeira Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842, terminou com a derrota chinesa e a assinatura do Tratado de Nanquim, que cedeu a Ilha de Hong Kong à coroa britânica. Novas guerras e tratados ampliaram o território ao longo do século XIX: a Convenção de Pequim, em 1860, adicionou a península de Kowloon, e um arrendamento de 99 anos, firmado em 1898, incorporou os chamados Novos Territórios.
Sob administração britânica por mais de um século, Hong Kong desenvolveu instituições próprias, incluindo uma federação de futebol filiada à Fifa já em 1954, décadas antes de qualquer debate sobre devolução à China. Quando o arrendamento de 99 anos se aproximou do fim, Reino Unido e China negociaram a Declaração Conjunta Sino-Britânica, assinada em 1984, que devolveu Hong Kong à soberania chinesa em 1997, sob o princípio de “um país, dois sistemas”. Esse princípio garantiu a Hong Kong autonomia administrativa por cinquenta anos, incluindo a manutenção de sua federação esportiva separada da seleção nacional chinesa.
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A regra que a Fifa fechou depois que esses dois casos já existiam
Ambos os territórios se filiaram à Fifa numa época em que a entidade aceitava federações de territórios coloniais ou administrativamente isolados de sua metrópole, sem exigir soberania plena reconhecida pela ONU. Hong Kong entrou em 1954, ainda sob domínio britânico. Porto Rico entrou em 1960, já como território americano consolidado. Quando a Fifa endureceu esse critério, restringindo novas filiações a Estados soberanos, optou por preservar o chamado direito adquirido das federações já existentes. Hong Kong e Porto Rico permaneceram. Territórios em situação parecida, mas sem filiação histórica anterior, não conseguiram o mesmo caminho.
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Duas guerras distantes, dois símbolos de identidade até hoje
O que começou como espólio de guerra, a ilha de Hong Kong cedida após um conflito sobre comércio de drogas, o território porto-riquenho cedido após uma disputa entre impérios coloniais em decadência e ascensão, transformou-se em algo bem diferente: uma forma de identidade nacional dentro de estruturas políticas que nunca chegaram à independência plena. A seleção, nos dois casos, tornou-se um símbolo de pertencimento que a própria condição política do território nunca ofereceu por completo.
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Heranças que seguem moldando o presente
Hong Kong vive hoje sob crescente integração política com a China continental, especialmente após a Lei de Segurança Nacional imposta em 2020, que reduziu liberdades civis garantidas pelo modelo “um país, dois sistemas”. Porto Rico segue debatendo internamente, em referendos recorrentes, se busca a estatidade plena, a independência ou a manutenção do status atual. Em ambos os casos, a seleção de futebol continua sendo um dos poucos espaços em que a identidade local se expressa sem ambiguidade, herança direta de guerras travadas há mais de um século.
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