Os 10 melhores jogos que abordam história

Videogame e história formam uma combinação mais poderosa do que parece à primeira vista. Quando um jogo consegue colocar o jogador dentro de um período histórico real — não apenas como cenário, mas como contexto que afeta decisões, mecânicas e narrativa — ele faz algo que livros didáticos raramente conseguem: torna o passado visceral.

Essa lista reúne dez jogos que fizeram isso com qualidade acima da média. Alguns são simuladores de estratégia, outros são RPGs ou aventuras narrativas. O que todos têm em comum é que o período histórico não é apenas pano de fundo — ele é parte essencial da experiência.

1. Kingdom Come: Deliverance (2018)

Nenhum jogo chegou mais perto de retratar a vida medieval com honestidade do que Kingdom Come. Ambientado na Boêmia de 1403, durante uma guerra civil real entre dois reis históricos, o jogo acompanha Henry, filho de um ferreiro, tentando sobreviver num mundo de hierarquias rígidas, violência sem glamour e espiritualidade intensa.

O que impressiona não é apenas a pesquisa — embora ela seja extraordinária, com historiadores medievalistas consultados durante o desenvolvimento. É a forma como a história se traduz em mecânica: Henry começa analfabeto, incapaz de ler mapas ou documentos, e aprender a ler é uma missão real no jogo. O combate é lento, imprevisível e cansativo, como seria com espadas e armaduras de verdade. A Igreja tem poder político concreto. A mobilidade social existe, mas custa.

Kingdom Come prova que é possível fazer um jogo medieval sem dragões, sem heróis escolhidos e sem magia — e ainda assim criar algo profundamente envolvente.

2. Valiant Hearts: The Great War (2014)

A Primeira Guerra Mundial é um dos conflitos mais difíceis de retratar sem cair na glorificação vazia ou no desespero paralisante. Valiant Hearts encontra um caminho raro: conta a guerra através de personagens de países diferentes — francês, americano, alemão — cujas histórias se cruzam no front, sem que nenhum deles seja o herói convencional.

O jogo não tem combate no sentido tradicional. É um puzzle de aventura que usa a guerra como ambiente de tensão e perda. Ao longo da jornada, o jogador encontra documentos históricos reais, fotografias e curiosidades sobre o conflito — não como museu separado, mas integrado à narrativa.

O resultado é um jogo que ensina sobre a Primeira Guerra de um jeito que a maioria dos shooters jamais conseguiria: mostrando que foi uma tragédia coletiva, não uma aventura.

3. This War of Mine (2014)

Tecnicamente ambientado num conflito fictício inspirado no cerco de Sarajevo nos anos 1990, This War of Mine merece estar em qualquer lista sobre jogos históricos porque inverte uma das convenções mais duradouras do gênero: você não é o soldado. Você é o civil.

O jogo acompanha um grupo de sobreviventes tentando atravessar um inverno numa cidade sitiada. As decisões são morais e impossíveis — roubar de outros sobreviventes para alimentar os seus, sacrificar o bem-estar de alguém para salvar outro, aceitar ajuda de pessoas com motivações obscuras. Não há vitória clara. Há apenas sobrevivência ou fracasso.

Isso é historicamente muito mais honesto do que qualquer shooter: a maior parte das vítimas de conflitos armados são civis, e This War of Mine é um dos poucos jogos que torna isso compreensível na prática.

4. Assassin’s Creed Origins (2017)

Entre os muitos títulos da franquia, Origins se destaca pela qualidade da reconstrução histórica. O Egito ptolemaico do século I a.C. — Alexandria, seus mercados, seus templos, a tensão entre a cultura egípcia milenar e a influência grega dos governantes macedônios — raramente foi representado com tanto cuidado visual em qualquer mídia.

O modo Discovery Tour, adicionado depois, transformou o jogo num museu interativo: sem combate, apenas exploração, com textos elaborados por especialistas explicando aspectos da sociedade, arquitetura e vida cotidiana do período.

Origins tem suas limitações — a narrativa de ação frequentemente atropela a complexidade histórica — mas como porta de entrada para um período histórico fascinante e pouco conhecido, ele funciona muito bem.

5. Total War: Shogun 2 (2011)

A série Total War oscila em qualidade, mas Shogun 2 é frequentemente apontado como seu pico. Ambientado no Japão do século XVI — o período Sengoku, das guerras entre clãs pelo controle do país — o jogo combina gestão de território e diplomacia no mapa estratégico com batalhas táticas em tempo real que levam formações, terreno e moral das tropas a sério.

O período Sengoku é historicamente fascinante: foi quando o Japão feudal atravessou uma transformação enorme, com o surgimento de senhores da guerra que mudaram as regras do jogo político e militar, a chegada das armas de fogo europeias e a consolidação que eventualmente levou ao período Edo. Shogun 2 captura a instabilidade e a complexidade desse momento com uma riqueza de detalhe incomum no gênero.

6. Red Dead Redemption 2 (2018)

Red Dead Redemption 2 não é um jogo “histórico” no sentido clássico — não há batalhas famosas, não há figuras históricas reais como protagonistas. Mas ele é uma das representações mais densas e cuidadosas de um período histórico já feitas em videogames: o fim do Velho Oeste americano, por volta de 1899.

O jogo captura a tensão de uma era em transição — o capitalismo industrial avançando sobre as últimas fronteiras, comunidades indígenas sendo sistematicamente destruídas, a modernidade chegando como inevitabilidade para uns e como ameaça para outros. Arthur Morgan, o protagonista, é um homem cuja forma de vida está sendo extinta em tempo real, e o jogo usa isso para construir uma das narrativas mais melancólicas e ricas da história do meio.

A pesquisa por trás do jogo é extraordinária — dos hábitos de fauna, da arquitetura das cidades, dos dialetos regionais às tensões raciais do Sul dos Estados Unidos. RDR2 é história viva.

7. Crusader Kings III (2020)

Crusader Kings III é um jogo de estratégia diferente de tudo: em vez de controlar uma nação ou um exército, você controla uma dinastia. Seu objetivo é garantir que sua linhagem sobreviva e prospere ao longo de séculos da Idade Média — o que significa gerenciar heranças, casamentos, traições, guerras dinásticas e a política da Igreja Católica.

O resultado é um simulador fascinante da lógica feudal. O poder na Idade Média não pertencia a estados nacionais — pertencia a famílias, e se transmitia por sangue, casamento e violência. CK3 encarna essa lógica de forma que nenhum livro didático consegue: quando seu rei morre sem herdeiro legítimo e seu território se fragmenta entre primos distantes que imediatamente começam a guerrear, você entende visceralmente por que a Idade Média era o que era.

8. Spec Ops: The Line (2012)

Spec Ops: The Line é o mais subversivo desta lista. Na superfície, é um shooter militar moderno — soldados americanos, Dubai em colapso, missão de resgate. Por baixo, é uma crítica brutal à fantasias de intervenção militar e à glorificação da violência que o gênero do shooter normalizou.

Inspirado explicitamente em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o jogo usa as convenções do shooter para destruí-las: o jogador é punido por agir como herói de videogame, as decisões “certas” causam consequências terríveis, e o trauma do protagonista se torna progressivamente impossível de ignorar.

Historicamente, o jogo dialoga com décadas de intervencionismo militar americano e com a forma como a cultura popular — inclusive os próprios videogames — construiu a fantasia do soldado redentor. É um jogo sobre o que os jogos de guerra ensinam, e sobre o custo humano do que eles glamourizam.

9. L.A. Noire (2011)

Los Angeles, 1947. A Segunda Guerra acabou, os soldados voltaram para casa carregando traumas não diagnosticados, e a cidade cresce sob uma superfície de prosperidade que esconde corrupção, racismo e violência. L.A. Noire usa o formato do detetive noir para mergulhar num período histórico americano específico e revelador.

O que o jogo acerta é a atmosfera: a tensão racial de uma cidade onde negros americanos voltaram da guerra esperando direitos que o país não estava pronto para conceder, o papel da indústria imobiliária em segregar bairros, a corrupção sistêmica na polícia, o papel de Hollywood como máquina de produção de imagem. Tudo isso aparece nas missões, nos diálogos e no design dos cenários.

L.A. Noire não é uma aula sobre o pós-guerra americano, mas é uma representação atmosférica e cuidadosa de um momento histórico que raramente aparece nos videogames.

10. Age of Empires II: Definitive Edition (2019)

Age of Empires II entrou nessa lista não apenas pela longevidade — mais de vinte anos de versões e expansões — mas pelo que ele representa como projeto histórico. O jogo inclui civilizações de todos os continentes, com campanhas que mostram figuras históricas reais de perspectivas diversas: Joana d’Arc, Saladino, Gengis Khan, Sundjata Keita do Mali, Pachacuti dos incas.

A Definitive Edition de 2019 ampliou ainda mais esse escopo, adicionando civilizações africanas, do Sudeste Asiático e das Américas. Para um jogo de estratégia em tempo real, a diversidade geográfica e cultural que ele oferece é notável — e comunicou a milhões de jogadores algo simples, mas importante: a Idade Média aconteceu no mundo inteiro, não apenas na Europa.


Esses dez jogos não são perfeitos historicamente. Todos fazem escolhas, simplificam, omitem. Mas cada um deles levou o passado a sério o suficiente para que jogar se tornasse, também, uma forma de entender o mundo que veio antes de nós. E isso, no fundo, é o que a história sempre tentou fazer.

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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