Tereza de Benguela: a rainha quilombola que governou por 20 anos e desafiou o império colonial

Em algum momento entre 1740 e 1770, uma mulher africana chamada Tereza governava com mão firme um dos maiores quilombos do Brasil colonial. Enquanto o império português enviava expedições para destruí-lo, ela organizava uma sociedade inteira: tinha governo, exército, lavoura, artesanato e comércio próprio.

Seu nome era Tereza de Benguela. E durante mais de vinte anos, ninguém conseguiu derrubá-la.

Neste artigo, você vai conhecer quem foi Tereza, como funcionava o Quilombo do Quariterê e por que ela foi praticamente apagada da história oficial.

📅  Linha do tempo: Tereza de Benguela

Data
~1730–1740Tereza de Benguela chega ao Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso
~1750Assume a liderança após a morte do marido José Piolho
1770sExpedições coloniais portuguesas tentam destruir o quilombo
~1770Captura de Tereza pelas autoridades coloniais; provável fim de sua vida
1795Destruição definitiva do Quilombo do Quariterê pelas forças coloniais
2014Lei 12.987 institui o Dia Nacional de Tereza de Benguela — 25 de julho
2026Enredo da Mangueira no Carnaval do Rio homenageia figuras da resistência negra

Quem foi Tereza de Benguela?

Pouco se sabe com certeza sobre as origens de Tereza. No entanto, isso em si já é um dado histórico relevante. O sistema colonial não tinha interesse em registrar a vida das pessoas escravizadas, muito menos de suas líderes.

Após a morte de seu companheiro, José Piolho, que liderava o quilombo, Tereza assumiu o governo. Não como figura decorativa ou de transição: ela se tornou a principal autoridade política, militar e administrativa do quilombo por mais de duas décadas.

Para entender a dimensão disso, é preciso lembrar o contexto. O Brasil colonial do século XVIII era um sistema inteiramente fundado na escravidão e uma mulher africana governando uma comunidade livre e autônoma era, aos olhos do império português, uma afronta direta à ordem estabelecida.

O Quilombo do Quariterê: uma nação dentro do Brasil colonial

O Quilombo do Quariterê ficava na região do atual Vale do Guaporé, na fronteira entre o Mato Grosso e a Bolívia. Era um território de floresta densa e difícil acesso. Fator estratégico fundamental, portanto, para a sua sobrevivência. A distância dos centros coloniais portugueses comprava tempo e dificultava as expedições punitivas.

Mas o Quariterê não era apenas um refúgio. Era uma nação. Era uma organização político-social completa, com estrutura de governo, sistema de defesa, economia e relações diplomáticas próprias — inclusive com povos indígenas da região, com quem o quilombo mantinha trocas e alianças.

Como o quilombo era organizado

O Quariterê funcionava como uma república de fato. Havia uma liderança central — Tereza, como “rainha” ou chefe —, mas também uma estrutura de decisão coletiva que envolvia outras lideranças e conselhos. Os relatos dos próprios colonizadores, preservados em documentos históricos disponíveis no Arquivo Público do Estado do Mato Grosso, descrevem uma organização surpreendentemente sofisticada.

A população do quilombo era diversa: africanos de várias etnias, indígenas e mestiços. Essa pluralidade era, ao mesmo tempo, uma riqueza cultural e um desafio de gestão — e Tereza, ao que indicam os registros, lidava com essa diversidade com autoridade e habilidade diplomática.

Economia, defesa e governo

A sobrevivência do Quariterê dependia de uma economia própria e funcional. Havia:

  • Lavoura de subsistência — mandioca, milho, feijão e outros cultivos que garantiam a alimentação da comunidade;
  • Artesanato e manufatura — produção de tecidos, ferramentas e outros bens para uso interno e troca;
  • Comércio com aldeias indígenas vizinhas — relações de troca que fortaleciam a rede de alianças;
  • Criação de animais — registro de criação de porcos e outros animais domésticos.

A defesa do quilombo era militarmente organizada. Sendo assim, havia sentinelas, trincheiras e estratégias de emboscada que tornavam as expedições coloniais extremamente custosas. Os caminhos de acesso ao Quariterê eram armadilhados e vigiados. Quem atacava o quilombo entrava em terreno desconhecido e quem defendia lutava pelo único mundo livre que conhecia.

O governo, sob Tereza, era simultaneamente firme e legítimo. Isso porque ela não era uma líder imposta pelo acaso da herança: mantinha sua autoridade pela capacidade de garantir a segurança, a alimentação e a coesão da comunidade. Era reconhecida internamente como rainha. Um título que, naquele contexto, significava responsabilidade total.

A resistência contra as expedições coloniais

O Quilombo do Quariterê não passou despercebido às autoridades coloniais. Muito pelo contrário: sua existência era conhecida, temida e discutida nos documentos oficiais da época. Portugal sabia que um quilombo daquele porte e organização representava uma ameaça dupla. Concreta, pela possibilidade de inspirar novas fugas e revoltas, e simbólica, pela demonstração de que a liberdade era possível.

Sendo assim, diversas expedições foram organizadas para destruir o quilombo ao longo das décadas em que Tereza governou. Todas fracassaram.

A razão principal era a posição estratégica do Quariterê e o conhecimento que seus habitantes tinham do terreno. As matas do Vale do Guaporé eram impenetráveis para quem não as conhecia e os moradores do quilombo as conheciam como nenhum soldado colonial jamais conheceria. Sendo assim, as expedições chegavam exaustas, muitas vezes depois de semanas de marcha, para encontrar uma defesa preparada e um território que não revelava seus segredos facilmente.

Havia também um fator humano: a lealdade dos moradores do Quariterê a Tereza e ao projeto de vida que ela representava era um fator de coesão impossível de replicar no exército colonial. Pessoas lutando pelo único lar livre que conhecem têm motivações que nenhum salário compra.

É importante contextualizar: o Quariterê não era o único quilombo em resistência naquele período. O Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi, havia sido destruído em 1695, décadas antes do auge do Quariterê. Mas a resistência quilombola era um fenômeno contínuo e espalhado por todo o Brasil colonial, documentado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que hoje reconhece mais de 3.500 comunidades remanescentes.

A captura e o fim do quilombo

O fim do Quilombo do Quariterê não veio em um único ataque dramático. Isso porque foi um processo de erosão lenta, acelerado pela intensificação das expedições coloniais na segunda metade do século XVIII.

Tereza foi capturada pelas autoridades coloniais na década de 1770. No entanto, os documentos não são precisos sobre a data exata. Era já uma mulher mais velha. Sem ela, a estrutura de liderança que mantinha o quilombo unido foi se desfazendo. Em 1795, uma expedição colonial conseguiu finalmente destruir o que restava do Quariterê.

O destino final de Tereza é incerto. Os documentos coloniais, que em geral não se preocupavam em registrar o que acontecia com os capturados, são silenciosos sobre isso. Sendo assim, pode ter morrido durante ou após a captura ou ter sido escravizada novamente. O sistema que ela desafiou por décadas fez questão de não deixar registros.

Por que Tereza foi esquecida?

O esquecimento de Tereza de Benguela não foi acidente. Foi política. A história oficial do Brasil não tinha interesse em preservar a memória de uma mulher negra que havia provado que a liberdade era possível. Isso porque essa história é contada pelos “vencedores”. Portanto, pelos senhores de engenho, burocratas coloniais e depois pelos intelectuais do Império.

O mesmo processo que apagou Tereza apagou centenas de outras figuras da resistência negra. A narrativa histórica dominante escolheu Tiradentes, D. Pedro I, os Bandeirantes — personagens que se encaixavam numa mitologia de nação que não incluía a perspectiva do povo escravizado. Como explicamos em nosso texto sobre a escravidão no Brasil e o processo de discriminação racial, o apagamento histórico e o racismo andam juntos — e não por coincidência.

A recuperação da memória de Tereza foi obra do movimento negro brasileiro, especialmente a partir da redemocratização nos anos 1980. Organizações como o Movimento Negro Unificado (MNU) e grupos de pesquisa em universidades públicas foram fundamentais nesse processo.

O resultado mais visível dessa luta foi a Lei Federal 12.987, de 2014, que instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrado em 25 de julho. Não por acaso, a data coincide com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha — uma convergência simbólica e política intencional.

O legado de Tereza de Benguela hoje

Tereza de Benguela é hoje um símbolo de múltiplas lutas que continuam vivas no Brasil do século XXI.

É símbolo da resistência negra. Prova histórica de que, desde sempre, as pessoas escravizadas não aceitaram passivamente sua condição e construíram alternativas de liberdade com os recursos que tinham.

É símbolo do protagonismo feminino negro — uma mulher que governou, que tomou decisões militares e diplomáticas, que manteve coesa uma comunidade diversa por décadas. Numa época em que mulheres eram invisíveis até na história europeia, Tereza exercia poder real.

É símbolo da luta quilombola contemporânea. Hoje, as comunidades remanescentes de quilombos — reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares e pelo INCRA — lutam pelo direito à terra, à identidade e à sobrevivência. A memória de Tereza alimenta essa luta.

Tereza de Benguela não foi apenas uma sobrevivente. Foi uma estadista, uma organizadora, uma líder que construiu algo que o sistema colonial tentou e por décadas conseguiu apagar da memória coletiva. Resgatá-la não é apenas um ato de justiça histórica: é lembrar que sempre houve resistência, e que essa resistência tinha nome e rosto.

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🔎 Fontes e referências externas:

Lei 12.987/2014 — Dia Nacional de Tereza de Benguela (Planalto.gov.br)

INCRA — Comunidades Quilombolas no Brasil

Fundação Cultural Palmares — reconhecimento de quilombos

Arquivo Público do Estado do Mato Grosso — documentos coloniais

Museu Afro Brasil — acervo e referências históricas

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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