Austrália e Israel mostram dois caminhos opostos da história do século XX: de um lado, uma decisão deliberada de buscar prosperidade fora da própria região; do outro, a expulsão violenta provocada por um conflito que dura até hoje. O resultado, décadas depois, ainda aparece nos mapas das competições internacionais.
Confederações esportivas raramente nascem só da geografia. Nascem de história, de diplomacia, de guerra e de decisões tomadas em salas de reunião distantes dos territórios que elas afetam. Os casos da Austrália e de Israel mostram dois processos radicalmente diferentes que terminaram no mesmo tipo de resultado: seleções que abandonaram sua região geográfica original. Uma escolheu. A outra foi forçada.
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A Austrália e o legado da expansão britânica no Pacífico
A relação da Austrália com a Oceania é, em si, produto de história colonial. O território foi colonizado pelo Império Britânico a partir de 1788, inicialmente como colônia penal, e seguiu como domínio britânico até a independência formal, consolidada em etapas entre 1901 e 1942 com o Estatuto de Westminster. Por mais de um século, a identidade política e cultural australiana esteve voltada para Londres, não para os vizinhos do Pacífico Sul, em sua maioria ex-colônias britânicas ou francesas de população muito menor.
Quando o futebol se organizou institucionalmente na região, a Austrália aderiu naturalmente à Confederação de Futebol da Oceania. Mas o domínio esportivo australiano sobre ilhas como Samoa Americana e Tonga, ambas com população inferior a 200 mil habitantes, tornou as eliminatórias regionais irrelevantes em termos competitivos. Em 2001, durante as eliminatórias para a Copa de 2002, a seleção australiana venceu Tonga por 22 a 0 e Samoa Americana por 31 a 0, ainda o maior placar da história do futebol internacional masculino.
A decisão de deixar a Oceania, formalizada em 2005 e efetivada em 1º de janeiro de 2006, foi um movimento estratégico negociado entre a federação australiana e a Confederação Asiática de Futebol, sem qualquer componente de conflito político. Foi, no fundo, uma escolha de a Austrália se aproximar de uma região com a qual já vinha construindo laços econômicos crescentes desde o fim do século XX, à medida que a Ásia se consolidava como seu principal parceiro comercial, superando o Reino Unido e os Estados Unidos.
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Israel e o colapso de uma relação diplomática
A trajetória de Israel é inseparável do conflito árabe-israelense. A seleção foi membro fundador da Confederação Asiática de Futebol, criada em 1954, num momento em que o jovem Estado de Israel, proclamado em 1948, ainda buscava reconhecimento e integração institucional na região onde nasceu. Israel chegou a ser campeão da Copa da Ásia em 1964, evidência de que a integração esportiva, ainda que tensa, funcionava nos primeiros anos.
A virada veio depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou territórios da Síria, do Egito e da Jordânia. Em 1967, a Liga Árabe aprovou a Resolução de Cartum, que formalizou o não reconhecimento diplomático de Israel por parte dos países árabes membros. O boicote se espalhou para todas as esferas de relação, incluindo o esporte: seleções árabes recusaram-se a entrar em campo contra os israelenses, criando uma situação insustentável para a organização dos torneios da AFC.
Em 1974, uma resolução proposta pelo Kuwait formalizou a expulsão de Israel da confederação asiática, aprovada por 17 votos a 13. Tratava-se de uma decisão eminentemente política, fruto direto da deterioração das relações diplomáticas no Oriente Médio, não de qualquer critério esportivo. Sem confederação fixa, a federação israelense precisou disputar eliminatórias vinculadas provisoriamente à Oceania nos anos 1980, um período que a historiografia do esporte costuma chamar de “nomadismo” israelense.
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A acolhida europeia como resposta a um isolamento diplomático mais amplo
A solução para Israel só veio com a aproximação à UEFA, formalizada em 1994. Essa integração não ocorreu isoladamente: acompanhou um movimento mais amplo de aproximação israelense com a Europa nas décadas de 1980 e 1990, em paralelo aos Acordos de Oslo, que buscavam, sem sucesso duradouro, normalizar parte das relações de Israel com o mundo árabe e abrir caminho para reconhecimento internacional mais amplo do Estado israelense.
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Duas histórias, duas lições sobre como nações se reposicionam
O caso australiano mostra como decisões de realinhamento geográfico podem ser puramente estratégicas, fruto de cálculo econômico e esportivo, sem custo diplomático relevante. O caso israelense mostra o oposto: a forma como um conflito político pode reconfigurar décadas de integração institucional, e como a reconstrução de pertencimento a uma nova região pode levar gerações.
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Conflitos que ainda moldam o presente
A Liga Árabe segue sem reconhecimento diplomático pleno de Israel por parte de boa parte de seus membros, mais de cinquenta anos após a expulsão da AFC. A Austrália, por sua vez, consolidou-se como potência asiática do futebol, refletindo sua reorientação econômica mais ampla para a região Ásia-Pacífico. Os dois casos seguem como lembretes de que mapas esportivos são, na prática, mapas políticos desenhados por guerras, tratados e escolhas estratégicas que ultrapassam, de longe, os limites do próprio esporte.
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