O tratado de 1814 que ainda decide o destino de Faroé e Groenlândia
Uma guerra napoleônica, um acordo de paz assinado às pressas e duzentos anos de autonomias concedidas em ritmos diferentes explicam por que as Ilhas Faroé têm seleção de futebol reconhecida e a Groenlândia, território cinco vezes maior, ainda não tem.
Em 14 de janeiro de 1814, em uma cidade alemã chamada Kiel, representantes da Dinamarca e da Suécia assinaram um tratado de paz que redesenhou o mapa do norte da Europa. O acordo, consequência direta das Guerras Napoleônicas, obrigou a Dinamarca a cedar a Noruega à coroa sueca. Mas um detalhe daquele tratado, quase um adendo diplomático, segue moldando decisões até hoje: a Dinamarca conseguiu manter sob sua coroa três antigas possessões norueguesas no Atlântico Norte — Islândia, Ilhas Faroé e Groenlândia. Duzentos anos depois, esse mesmo arranjo explica por que as Ilhas Faroé têm seleção de futebol reconhecida pela Fifa e a Groenlândia não.
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Um império nórdico que se partiu ao meio
Da União de Kalmar, em 1397, até 1814, Dinamarca e Noruega formaram um único reino, com a Islândia, as Ilhas Faroé e a Groenlândia administradas como possessões norueguesas. A derrota napoleônica rompeu essa união política. O Tratado de Kiel determinou que a Noruega seguiria para a Suécia, mas que suas antigas colônias do Atlântico Norte permaneceriam dinamarquesas, uma decisão tomada mais por conveniência diplomática britânica e russa do que por qualquer critério de identidade cultural ou geográfica.
A Islândia seguiria seu próprio caminho décadas depois, conquistando independência plena em 1944, em meio à ocupação nazista da Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial. Faroé e Groenlândia, no entanto, permaneceram ligadas a Copenhague, mas em ritmos de autonomia completamente diferentes.
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Por que Faroé ganhou autogoverno primeiro
O movimento de autonomia política nas Ilhas Faroé começou ainda no final do século XIX, motivado inicialmente por uma disputa sobre o uso da língua faroesa nas escolas e na administração local. Esse nacionalismo cultural evoluiu, no início do século XX, para reivindicações políticas organizadas, com a fundação de partidos locais já em 1906.
A ocupação britânica das Ilhas Faroé durante a Segunda Guerra Mundial, motivada pela necessidade de impedir uma base alemã no Atlântico Norte após a invasão nazista da Dinamarca em 1940, acelerou esse processo. Isolada de Copenhague durante os anos de guerra, a população faroesa experimentou um grau inédito de autogestão. Quando a guerra terminou, o movimento autonomista já tinha força suficiente para negociar diretamente com o governo dinamarquês. O resultado foi a Lei de Autonomia Interna de 31 de março de 1948, que reconheceu as Ilhas Faroé como comunidade autônoma dentro do Reino da Dinamarca, com língua, bandeira e parlamento próprios.
Essa autonomia política, consolidada já em 1948, permitiu que a federação faroesa de futebol buscasse e conquistasse filiação própria à Fifa em 1988, e à UEFA logo depois, a tempo de disputar as eliminatórias da Eurocopa de 1992.
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Por que a Groenlândia seguiu outro calendário
A trajetória política da Groenlândia foi mais lenta. Em vez de autonomia, a Dinamarca optou, em 1953, por integrar plenamente a Groenlândia ao Estado dinamarquês, transformando-a em um condado comum, com cidadania dinamarquesa estendida à população local. O objetivo declarado era modernizar a Groenlândia segundo o modelo de bem-estar social dinamarquês, mas a política também produziu décadas de assimilação cultural forçada, incluindo o deslocamento de famílias inteiras para centros urbanos planejados pelo governo central.
A autonomia política só chegaria em 1979, mais de três décadas depois da concedida às Ilhas Faroé, e seria ampliada em 2009 com a Lei de Autogoverno, que transferiu mais competências administrativas ao governo local groenlandês, mantendo Copenhague responsável apenas por cidadania, defesa, política monetária e relações exteriores.
Esse atraso histórico de três décadas, somado a um obstáculo que nenhuma lei resolve, o clima ártico que impede gramados naturais em padrão internacional, manteve a Groenlândia fora da Fifa até hoje, mesmo com um campeonato nacional doméstico ativo desde os anos 1970.
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Um capítulo que segue sendo escrito
A relevância histórica da Groenlândia, longe de ter se esgotado em 1814, voltou ao centro do debate internacional recentemente. Em 2026, declarações e ameaças tarifárias do governo dos Estados Unidos sobre uma possível anexação do território reabriram a discussão sobre soberania ártica, levando a Dinamarca a reforçar presença militar na região junto a aliados da OTAN. O episódio reforça como aquele tratado assinado em 1814, pensado para encerrar uma guerra napoleônica, segue determinando quem decide o destino político, e esportivo, do maior território insular do mundo.
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O que essa história ensina
A diferença entre Faroé e Groenlândia não nasceu de uma escolha consciente da Dinamarca para tratar os dois territórios de forma desigual. Nasceu de calendários históricos distintos: um movimento nacionalista que floresceu antes, fortalecido pelo isolamento da guerra, e outro que foi paralisado por décadas de integração administrativa direta. Mais de duzentos anos depois de Kiel, a Groenlândia ainda persegue, sem sucesso, o mesmo reconhecimento esportivo que as Ilhas Faroé conquistaram há quase quatro décadas.
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