Economia para quem não entende economês: o que você precisa saber antes de votar

Durante uma eleição, candidatos fazem promessas sobre emprego, impostos, salário, inflação e crescimento. Um diz que precisa cortar gastos. Outro promete aumentar investimentos. Há quem defenda juros menores, controle da dívida, mais participação do Estado ou maior liberdade para empresas. No meio dessa discussão aparecem palavras como Selic, PIB, câmbio e responsabilidade fiscal.

Para muita gente, parece que economia é um assunto reservado aos especialistas. Não deveria ser. Essas decisões ajudam a determinar quanto você paga no supermercado, se consegue financiar uma casa, quantos empregos são criados, quanto o governo pode investir e até quanto custa uma viagem para o exterior.

Economia para quem não entende: por que isso importa antes de votar?

Imagine que um candidato diga:

“Precisamos reduzir os gastos públicos.”

A frase parece simples. Mas reduzir quais gastos? Investimentos em estradas? Salários? Benefícios sociais? Saúde? Educação? Subsídios para empresas?

Agora imagine outro candidato dizendo:

“Precisamos aumentar os investimentos públicos para fazer a economia crescer.”

Também parece uma boa ideia. Mas de onde virá o dinheiro? O investimento poderá aumentar a produção no futuro? Existe capacidade para gastar sem pressionar demais a inflação? Qual será o impacto sobre a dívida?

Perceba que nenhuma dessas frases pode ser avaliada apenas pelo slogan.

Por isso, você precisa compreender alguns conceitos básicos e, principalmente, aprender quais perguntas fazer quando políticos apresentam propostas econômicas.

Vamos começar pela palavra que provavelmente aparece com maior frequência na vida das famílias.

O que é inflação e por que seu dinheiro passa a comprar menos?

Você vai ao supermercado e percebe que arroz, carne, leite e café estão mais caros. Depois encontra aumento na conta de luz, no combustível ou no aluguel.

Se sua renda não aumentar na mesma proporção, você consegue comprar menos coisas com o mesmo dinheiro.

Esse é o efeito mais fácil de perceber da inflação.

Inflação é o aumento generalizado dos preços ao longo do tempo. Mas existe uma questão importante: ela pode ter diferentes causas.

Os preços podem subir porque a procura por produtos e serviços cresce mais rapidamente do que a capacidade das empresas de produzi-los. Também podem aumentar devido a uma quebra de safra, guerra, aumento do petróleo, desvalorização do real ou falta de algum produto importante.

A estrutura de determinados mercados também pode influenciar preços. Quando poucas empresas dominam um setor, por exemplo, o grau de concorrência existente se torna relevante para entender como os preços são definidos.

Portanto, dizer simplesmente “a inflação aumentou” não explica todo o problema. O primeiro passo deveria ser perguntar: por que os preços estão aumentando?

E é justamente para combater a inflação que você provavelmente já ouviu falar de outra palavra: Selic.

O que é a Selic e por que o Banco Central aumenta os juros?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária, o Copom, do Banco Central.

Pense nela como uma espécie de referência para o custo do dinheiro no país.

Quando a Selic sobe, diversas modalidades de crédito tendem a ficar mais caras. Isso pode afetar empréstimos, financiamentos e outras operações financeiras. Empresas também podem encontrar custos maiores para financiar novos investimentos.

A lógica de aumentar os juros para combater a inflação é relativamente simples.

Com crédito mais caro, famílias e empresas tendem a gastar e investir menos. A procura por produtos e serviços diminui. Com menor pressão da demanda, o crescimento dos preços tende a perder força.

Mas existe uma pergunta importante: esse remédio funciona igualmente para qualquer inflação?

Juros altos resolvem qualquer inflação?

Não.

Imagine que os preços estejam aumentando porque milhões de consumidores começaram a comprar mais produtos do que as empresas conseguem produzir. Reduzir a demanda por meio dos juros pode ajudar.

Agora imagine que uma guerra faça o petróleo disparar no mercado internacional. Ou que uma seca destrua parte de uma safra.

Aumentar os juros brasileiros não produz petróleo nem faz chover.

Isso não significa que os juros sejam inúteis nesses casos. Um choque de preços pode se espalhar pela economia e afetar expectativas e outros preços. O Banco Central pode agir para tentar impedir esse processo.

A discussão, portanto, não deveria ser simplesmente “juros altos são bons” ou “juros altos são ruins”. É preciso perguntar qual inflação está sendo combatida, qual será o efeito dos juros e quais serão os custos dessa política.

E é preciso estar atento também porque há quem ganhe também com juros altos, que são justamente quem concede crédito. Quando a taxa selic sobe, por exemplo, e enquanto a dívida pública sobe, instituições financeiras e outros credores passam a lucrar mais com isso. E estes grupos são justamente os que pressionam as decisões do Banco Central.

Dólar: por que você deveria se importar mesmo sem viajar para o exterior?

Outra manchete comum é:

“Dólar sobe.”

Mas isso é bom ou ruim?

A resposta depende de quem estamos analisando.

O preço do dólar em reais é determinado por diversos fatores relacionados à oferta e à procura pela moeda, além das expectativas dos agentes econômicos.

Quando entram mais dólares no Brasil por exportações ou investimentos, por exemplo, isso pode contribuir para valorizar o real. Quando existe uma procura maior por dólares ou saída de capital, o movimento pode ocorrer na direção contrária.

Os juros também entram nessa história. Taxas brasileiras mais elevadas podem tornar aplicações no país mais atraentes para determinados investidores estrangeiros, embora o câmbio dependa de muitos outros fatores.

Dólar alto ajuda alguns e prejudica outros

Imagine uma empresa brasileira que vende produtos para os Estados Unidos.

Ela recebe em dólares. Se cada dólar puder ser convertido em mais reais, suas receitas em moeda brasileira podem aumentar, embora seus custos e contratos também precisem ser considerados.

Isso faz voltar a questão da inflação. Se com o dólar alto fica mais lucrativo vender carne para fora do que para o mercado interno, vai ter menos produto e consequentemente o preço sobe.

Agora pense em uma empresa brasileira que precisa importar componentes dos Estados Unidos.

Para ela, o dólar mais caro significa gastar mais reais para comprar os mesmos produtos.

O consumidor também pode sentir essa mudança.

Combustíveis, medicamentos, equipamentos eletrônicos, máquinas e diversos insumos utilizados pela indústria possuem alguma relação com preços internacionais ou componentes importados.

Por isso, você pode nunca ter comprado um único dólar e ainda assim ser afetado pela cotação da moeda.

A pergunta correta diante da manchete “dólar subiu” não é simplesmente “isso é bom ou ruim?”.

O que é dívida pública e para quem o governo deve?

Durante as eleições, você provavelmente ouvirá candidatos falando sobre a dívida pública.

Uma comparação aparece frequentemente:

“O governo precisa administrar as contas como uma família.”

A comparação ajuda a transmitir a ideia de que recursos são limitados, mas possui limites importantes.

Uma família não controla a moeda nacional, não arrecada impostos e não consegue emitir títulos públicos. Um governo possui mecanismos financeiros completamente diferentes.

Governos também não precisam necessariamente eliminar toda a dívida. Países normalmente emitem novos títulos enquanto outros vencem, refinanciando parte de suas obrigações ao longo do tempo.

Isso não significa que a dívida possa crescer sem limites ou que sua trajetória seja irrelevante.

Quando a dívida pública se torna preocupante?

Para analisar uma dívida pública, olhar apenas para seu valor em reais diz muito pouco.

Imagine dois países.

Um possui dívida de R$ 1 trilhão e uma economia de R$ 2 trilhões. Outro possui a mesma dívida, mas produz R$ 10 trilhões por ano.

Embora os dois devam exatamente R$ 1 trilhão, a situação não é equivalente.

Países como Japão e Estados Unidos possuem dívidas públicas elevadas em relação ao tamanho de suas economias. Desta forma, o que você deve questionar é se essa dívida que está crescendo está acontecendo por investimentos, se está ajudando a economia girar ou por fatores que podem não trazer frutos.

O que é PIB e o que ele diz sobre a economia?

PIB significa Produto Interno Bruto.

Apesar do nome complicado, a ideia básica é simples: ele mede o valor dos bens e serviços finais produzidos dentro do país durante determinado período.

Se o PIB aumenta, significa que a economia produziu mais.

Isso é importante. Mas não responde a todas as perguntas.

Imagine que determinado setor econômico cresça enormemente e faça o PIB subir. Porém, esse setor emprega relativamente poucas pessoas e seus ganhos ficam concentrados entre poucos proprietários e investidores.

O país produziu mais. O PIB realmente cresceu.

Mas isso significa que toda a população ficou mais rica?

Não necessariamente.

PIB crescendo não significa que todos estão vivendo melhor

O PIB mede produção econômica. Ele não foi criado para medir sozinho a qualidade de vida da população nem a distribuição da renda.

Por isso, outros indicadores precisam entrar na análise.

É importante observar emprego, renda, desigualdade, pobreza, inflação, educação, saúde e outros aspectos da vida da população.

Um governo pode comemorar:

“O PIB cresceu 3%.”

O eleitor deveria fazer uma segunda pergunta:

“E esse crescimento chegou até a população?”

Também vale investigar de onde veio o crescimento. Houve mais investimento? Consumo? Exportações? Gastos públicos? Qual setor avançou?

O número do PIB é importante. A história por trás dele é ainda mais.

Como analisar as promessas econômicas de um candidato?

Você não precisa calcular o PIB nem prever a próxima decisão do Banco Central.

Precisa aprender a fazer perguntas.

Quando alguém prometer reduzir impostos, pergunte quais impostos e como compensará a arrecadação.

Quando defender cortes de gastos, pergunte quais despesas serão reduzidas. Procure também saber quais são as maiores despesas e renúncias do estado atualmente.

Quando prometer aumentar gastos, pergunte quanto custará, como será financiado e qual resultado pretende alcançar.

E quando alguém apresentar uma solução extremamente simples para um problema econômico complexo, desconfie.

Entender economia não significa descobrir uma fórmula que diga em quem votar.

Significa ter ferramentas para perceber quando alguém está explicando uma proposta e quando está apenas tentando vender uma solução fácil para conquistar seu voto.

Perguntas frequentes sobre economia

O que é inflação?

Inflação é o aumento generalizado dos preços ao longo do tempo. Ela pode ter diferentes causas, como aumento da procura, quebra de safra, guerra, aumento do petróleo, desvalorização do real ou falta de algum produto importante.

O que é a taxa Selic?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária, o Copom, do Banco Central e funciona como uma referência para o custo do dinheiro no país.

Por que aumentar a Selic pode reduzir a inflação?

Com crédito mais caro, famílias e empresas tendem a gastar e investir menos. A procura por produtos e serviços diminui. Com menor pressão da demanda, o crescimento dos preços tende a perder força.

Por que o dólar alto afeta quem não compra dólares?

Combustíveis, medicamentos, equipamentos eletrônicos, máquinas e diversos insumos utilizados pela indústria possuem alguma relação com preços internacionais ou componentes importados. Por isso, você pode nunca ter comprado um único dólar e ainda assim ser afetado pela cotação da moeda.

O que é PIB?

PIB significa Produto Interno Bruto. Ele mede o valor dos bens e serviços finais produzidos dentro do país durante determinado período.

PIB maior significa que a população ficou mais rica?

Não necessariamente. O PIB mede produção econômica. Ele não foi criado para medir sozinho a qualidade de vida da população nem a distribuição da renda.