A relação entre espectros políticos e a defesa de direitos civis, como os das mulheres e da população LGBT, é frequentemente simplificada. É uma construção muito mais eleitoral criada nos últimos anos.
A Disputa Esquerda x Direita: Da Economia aos Costumes
A distinção entre esquerda e direita, que nasceu na Revolução Francesa no final do século XVIII, estava inicialmente ligada principalmente à questão econômica e social. De um lado, estavam aqueles que defendiam maior igualdade, intervenção estatal e proteção dos mais pobres; de outro, os que sustentavam a propriedade privada, a liberdade de mercado e a manutenção da ordem tradicional.
Especialmente após os anos 1960, a disputa política passou a incluir cada vez mais o campo dos costumes. Questões como igualdade de gênero, direitos civis para minorias raciais e liberdade sexual ganharam espaço no debate político.
Para compreender a origem e as diferenças mais amplas entre esses campos, veja também direita x esquerda: entenda as diferenças na política.
Direita e esquerda nos costumes: direitos civis sempre foram uma divisão política?
A relação entre direita e esquerda nos costumes, especialmente na defesa dos direitos das mulheres e da população LGBT, costuma ser apresentada como se tivesse acompanhado essa divisão política desde seu nascimento. A história, porém, é mais complexa.
A separação atual entre uma esquerda identificada com pautas progressistas e uma direita ligada ao conservadorismo nos costumes foi construída ao longo do tempo. Direitos civis, igualdade de gênero, sexualidade e questões raciais ganharam importância crescente na disputa política, principalmente durante o século XX.
Isso também ajuda a entender por que esquerda e direita não são blocos políticos homogêneos. Liberais, conservadores, social-democratas, socialistas e outras correntes podem discordar inclusive dentro do mesmo campo político.
Direita e esquerda nos costumes sempre foram diferentes?
A distinção entre esquerda e direita, que nasceu na Revolução Francesa no final do século XVIII, não surgiu originalmente em torno de temas como aborto, direitos LGBT ou igualdade de gênero.
A divisão estava relacionada principalmente à organização política e social, à igualdade, aos privilégios, à propriedade e à ordem existente. As próprias ideias associadas à esquerda e à direita também se transformaram profundamente nos séculos seguintes.
Especialmente a partir dos anos 1960, a disputa política passou a incorporar cada vez mais questões relacionadas aos costumes e aos direitos civis. Igualdade de gênero, direitos de minorias raciais e liberdade sexual ganharam espaço no debate público e passaram progressivamente a compor identidades políticas.
A literatura acadêmica mostra que valores e direitos não se distribuem de maneira totalmente simples entre esquerda e direita. Um estudo sobre parlamentares municipais brasileiros, por exemplo, identificou diferenças ideológicas nas posições sobre direitos sociais, mas também ambiguidades dentro dos próprios campos políticos.
Direitos civis são uma pauta exclusiva da esquerda?
É fato que grande parte da esquerda ocidental incorporou mais fortemente essas bandeiras. Contudo, isso não significa que todos os avanços em direitos civis tenham ocorrido exclusivamente por iniciativa de governos ou partidos de esquerda.
A história mostra que essas conquistas frequentemente atravessaram divisões ideológicas, principalmente quando movimentos sociais conseguiram produzir mudanças mais amplas na sociedade.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a Lei dos Direitos Civis de 1964 foi sancionada pelo presidente democrata Lyndon B. Johnson, mas também recebeu apoio significativo de parlamentares republicanos.
Esse exemplo é especialmente interessante porque mostra outro problema de analisar a história utilizando apenas os rótulos partidários atuais. Partidos, coalizões eleitorais e as próprias definições de direita e esquerda também mudam ao longo do tempo.
Por isso, compreender direitos civis também exige entender o que significa cidadania e como direitos são conquistados. Direitos políticos e sociais não surgiram apenas pela iniciativa espontânea dos governos, mas também por pressão e organização da sociedade.
O voto feminino também atravessou diferentes governos
O direito ao voto feminino também não seguiu um padrão ideológico simples. No Reino Unido, a Representation of the People Act de 1918 ampliou o sufrágio para parte das mulheres durante o governo de coalizão liderado por David Lloyd George.
No Brasil, o voto feminino foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Isso ocorreu após décadas de mobilização do movimento sufragista brasileiro.
Esses casos são importantes porque mostram que direitos não devem ser explicados apenas pelo político que ocupava o governo quando determinada legislação foi aprovada. Movimentos sociais, mudanças culturais, parlamentares e diferentes grupos organizados também participam dessas transformações.
É uma lógica semelhante à de outras políticas públicas: o fato de uma medida ser sancionada por determinado governante não significa que todo o processo que levou àquela decisão tenha começado ou dependido exclusivamente dele.
Governos de direita também aprovaram direitos LGBT?
A evolução dos direitos LGBT ajuda a mostrar a complexidade dessa relação. Partidos e políticos de centro-direita de diferentes países passaram, em determinados momentos, a aceitar direitos que anteriormente encontravam forte resistência conservadora.
Isso não significa que as diferenças entre esquerda e direita tenham desaparecido. Significa que aquilo que é considerado radical em determinado período pode ser incorporado ao sistema político posteriormente.
A pressão social, as mudanças culturais e a transformação da opinião pública podem fazer com que partidos revejam suas posições, inclusive quando determinada mudança não fazia parte originalmente de sua identidade política.
Esse processo também mostra por que o significado de esquerda e direita não permanece congelado no tempo. As posições políticas se reorganizam conforme novos conflitos sociais ganham importância.
Como os costumes ganharam espaço na disputa entre direita e esquerda?
Nas últimas décadas, principalmente após as transformações sociais ocorridas a partir da segunda metade do século XX, questões relacionadas aos direitos das mulheres, da população LGBT e de outras minorias passaram a ocupar um espaço muito maior na política ocidental.
Parte da esquerda incorporou essas demandas à sua identidade política. Ao mesmo tempo, setores conservadores passaram a organizar sua reação em torno da defesa de valores tradicionais.
É nesse cenário que ganha importância aquilo que passou a ser chamado de guerra cultural.
Pesquisas brasileiras sobre movimentos feministas também mostram essa aproximação contemporânea com a esquerda. Em um estudo sobre manifestações no Rio de Janeiro, por exemplo, a maioria das participantes pesquisadas se identificava com esquerda ou centro-esquerda. Isso ajuda a demonstrar uma associação política atual, mas não significa que essa divisão tenha existido da mesma maneira ao longo de toda a história.
O que é guerra cultural na política?
A guerra cultural transforma valores, comportamentos, identidade, religião, gênero e sexualidade em elementos centrais da disputa política.
Para determinados setores conservadores, discussões relacionadas aos direitos civis passaram a ser apresentadas como “pautas de costumes”. Essa classificação também ajuda a construir uma separação entre questões consideradas materiais, como emprego, renda e inflação, e discussões relacionadas a valores e comportamentos.
Essas pautas possuem efeitos concretos sobre a vida das pessoas atingidas. Ao mesmo tempo, sua capacidade de despertar identificação, medo, indignação e pertencimento faz com que tenham enorme potencial de mobilização eleitoral.
Essa estratégia está relacionada ao uso de emoções na política. No guia sobre como identificar manipulação política, explico como medo, identidade, indignação e a criação de grupos adversários podem ser utilizados para simplificar disputas muito mais complexas.
Como a direita passou a utilizar a guerra cultural?
Nos Estados Unidos, Donald Trump conseguiu em 2016 forte apoio entre setores religiosos e socialmente conservadores. Sua ascensão combinou questões econômicas, imigração, nacionalismo e uma reação a diferentes transformações culturais.
Na Europa, partidos como o Fidesz, de Viktor Orbán, na Hungria, e o Lei e Justiça (PiS), na Polônia, também transformaram questões relacionadas a gênero, direitos LGBT, religião e família em componentes importantes de suas plataformas políticas.
Esses movimentos passaram a se apresentar como defensores de valores tradicionais diante daquilo que descrevem como uma agenda progressista.
A chamada guerra cultural, entretanto, não existe de forma completamente separada da disputa econômica. Estudos brasileiros mostram justamente que conflitos culturais podem reorganizar a disputa política e influenciar até a maneira como questões econômicas são interpretadas.
E como a guerra cultural ganhou força no Brasil?
No Brasil, questões relacionadas aos costumes também ganharam enorme importância durante a década de 2010. Debates sobre religião, sexualidade, gênero, família e educação passaram a ocupar espaço crescente nas campanhas eleitorais e nas redes sociais.
Jair Bolsonaro soube explorar politicamente esse ambiente durante sua ascensão até a Presidência em 2018. Seu crescimento, porém, não pode ser explicado apenas pelos costumes.
A crise econômica, o desgaste dos governos petistas, a Operação Lava Jato, o antipetismo, a crise de representação política, a segurança pública e outros fatores também participaram daquele processo.
A guerra cultural, portanto, deve ser entendida como uma parte importante de uma transformação política mais ampla, e não necessariamente como sua única causa.
Estudos acadêmicos sobre o período identificam explicitamente a guerra cultural como elemento da comunicação e da construção política do bolsonarismo. Pesquisas sobre políticas culturais e política externa também apontam a construção de inimigos ideológicos e a oposição a pautas relacionadas a gênero como componentes dessa estratégia.
Por que a guerra cultural funciona eleitoralmente?
O uso político das chamadas “pautas de costumes” possui uma característica poderosa: esses assuntos podem mobilizar identidade, medo, indignação e pertencimento.
Debates econômicos frequentemente exigem explicações sobre orçamento, impostos, juros, produtividade, salários e distribuição de renda. Uma disputa cultural pode ser apresentada de maneira muito mais simples: “nós” contra “eles”, nossos valores contra os valores do outro grupo.
Isso não significa que questões relacionadas a gênero, sexualidade, religião ou direitos civis sejam irrelevantes. Para as pessoas diretamente afetadas, elas podem representar direitos extremamente concretos.
O problema aparece quando qualquer campo político utiliza essas discussões principalmente para mobilizar emoções e reduzir toda a política a uma disputa de identidades, deixando questões econômicas, sociais e institucionais em segundo plano.
Por isso, também é importante compreender como orçamento público, dívida e grupos de interesse influenciam as decisões políticas. A atenção do debate público pode estar concentrada em costumes enquanto decisões econômicas de enorme impacto estão sendo tomadas simultaneamente.
A guerra cultural também não deve substituir a análise das diferenças econômicas e sociais entre os campos políticos. O guia sobre direita e esquerda mostra por que economia, desigualdade, direitos trabalhistas, impostos e papel do Estado continuam sendo dimensões fundamentais dessa divisão.
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Referências e estudos para aprofundar
Cultura como medo e como esperança: políticas culturais no Brasil de Bolsonaro e no Brasil de Lula. Leia o estudo na SciELO. O trabalho analisa o uso da ideia de guerra cultural durante o governo Bolsonaro e sua relação com discursos sobre valores, cultura, ideologia e adversários políticos.
MACHADO, Ednéia Maria; KYOSEN, Renato Obikawa. Esquerda e direita importam: partidos políticos e valores de vereadores sobre direitos sociais. Publicado na revista Civitas. O estudo analisa a relação entre posição ideológica e opiniões de parlamentares brasileiros sobre direitos sociais, mostrando diferenças entre os campos, mas também ambiguidades dentro deles.
GRÜN, Roberto. Guerra cultural e transformações sociais: as eleições presidenciais de 2006 e a “blogosfera”. Publicado em Sociedade e Estado, da Universidade de Brasília. O artigo analisa como disputas culturais passaram a interferir na própria dinâmica política e econômica brasileira.
