Você já se perguntou a origem dos doces de São Cosme e Damião? A tradição une elementos do catolicismo e também das religiões de matriz africana.
De 26 de setembro até 12 de outubro, acontece a tradicional distribuição de doces de São Cosme e Damião pelo Brasil. Hoje, talvez em um número bem menor do que na nossa infância ou na dos nossos pais, a prática continua alegrando a criançada, embora também faça com que algumas pessoas olhem para ela com irritação.
É a famosa intolerância religiosa, que parece crescer quase na mesma proporção em que os saquinhos de doces estão diminuindo. Mas, afinal, qual é o verdadeiro motivo dessa distribuição? E como as diferentes religiões enxergam essa tradição que atravessa gerações?
Quem foram São Cosme e Damião?
No Brasil, quando se fala em São Cosme e Damião, os doces logo vêm à cabeça de muitas pessoas. Porém, existe muita história e simbolismo por trás dessa tradição, que reúne elementos do catolicismo e das religiões de matriz africana.
Primeiramente, é preciso fazer uma distinção entre a representação dos santos na Igreja Católica e nas religiões afro-brasileiras, especialmente na Umbanda e no Candomblé. As diferenças começam pela própria data da comemoração e se estendem aos significados religiosos atribuídos aos santos.
Para o catolicismo, Cosme e Damião viveram na Ásia Menor, região que compreende parte da atual Turquia, por volta do século III depois de Cristo. Segundo a tradição cristã, eles eram médicos e atendiam a população sem cobrar nada. Além disso, professavam a fé cristã e teriam convertido muitas pessoas ao cristianismo.
Por conta da fé, teriam sido perseguidos e condenados à morte. Ainda segundo a tradição, depois de mortos, os irmãos realizaram milagres e intercederam em favor de pessoas necessitadas. Com o passar dos séculos, a devoção aos santos se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil durante a colonização portuguesa.
Em 1535, foi construída em Pernambuco uma das primeiras igrejas brasileiras dedicadas a São Cosme e Damião, localizada no atual município de Igarassu. A construção é considerada um dos marcos da presença do catolicismo no Brasil colonial.
Por que o Dia de São Cosme e Damião mudou de 27 para 26 de setembro?
Originalmente, a Igreja Católica também celebrava São Cosme e Damião em 27 de setembro. Entretanto, em 1969, durante uma reforma do calendário litúrgico promovida pelo papa Paulo VI, a comemoração foi transferida para o dia 26 de setembro.
A mudança aconteceu porque o dia 27 passou a ser dedicado à memória de São Vicente de Paulo. Apesar da alteração no calendário católico, a tradição popular brasileira preservou a data antiga, especialmente nas celebrações da Umbanda e do Candomblé.
Por isso, até hoje, as comemorações acontecem em datas diferentes. Enquanto o calendário oficial da Igreja Católica estabelece o dia 26 de setembro, grande parte das festas populares e das celebrações afro-brasileiras continua acontecendo no dia 27.
São Cosme e Damião na Umbanda e no Candomblé
Já a celebração de Cosme e Damião na Umbanda e no Candomblé está ligada ao período da escravidão e ao que chamamos de sincretismo religioso, processo de associação entre elementos de diferentes religiões.
Isso porque os africanos escravizados tinham suas próprias religiões, que aprenderam e praticaram na África ou com outros africanos que já haviam sido trazidos para o Brasil. Porém, suas práticas religiosas eram reprimidas, enquanto o catolicismo era imposto pela sociedade colonial.
Com isso, muitos escravizados passaram a utilizar imagens de santos católicos para representar suas próprias divindades. Dessa forma, conseguiam preservar elementos de suas religiões e praticar sua fé, mesmo diante do risco de perseguição e punição.
Entretanto, o sincretismo não se limitou a uma estratégia de proteção. Ao longo dos séculos, também envolveu trocas culturais e a formação de novas tradições religiosas, que adquiriram características próprias em diferentes regiões do Brasil.
No caso de Cosme e Damião, a associação aconteceu com os Ibejis, orixás gêmeos da tradição iorubá, ligados à infância e à proteção das crianças. Essa relação ajudou a construir uma das manifestações religiosas mais populares do país.
Qual é a relação entre São Cosme e Damião, os Ibejis e os Erês?
Na tradição iorubá, os Ibejis são divindades gêmeas associadas à infância, à alegria e à proteção das crianças. Em determinadas narrativas religiosas, são considerados filhos de Xangô e Iansã, embora existam diferentes versões sobre sua origem.
Já os Erês possuem significados e funções que variam conforme a religião e o terreiro. No Candomblé, estão relacionados a manifestações espirituais infantis, enquanto na Umbanda as entidades associadas às crianças ocupam um lugar importante nas celebrações religiosas.
Embora Ibejis e Erês não sejam exatamente a mesma coisa, ambos estão associados à infância em diferentes tradições afro-brasileiras. Essa relação ajuda a explicar a presença das crianças nas festas de São Cosme e Damião e a importância dos doces, brinquedos e brincadeiras.
Por que distribuímos doces no dia de São Cosme e Damião?
Nas festas de Cosme e Damião, acontecem a distribuição de doces e brinquedos, além de brincadeiras especialmente dedicadas às crianças. Toda essa celebração é também uma forma de agradecer pelas graças recebidas e compartilhar a alegria com a comunidade.
A distribuição dos tradicionais saquinhos de doces se tornou especialmente popular no Rio de Janeiro, onde gerações de crianças passaram a percorrer as ruas dos bairros em busca das guloseimas. A prática também se espalhou por outras regiões brasileiras, adquirindo características próprias em cada localidade.
Para muitas famílias, a distribuição representa o cumprimento de promessas e uma demonstração de devoção. Já para as crianças, os saquinhos de doces transformam a celebração religiosa em uma festa popular que faz parte da memória afetiva de diferentes gerações.
A tradição do caruru de São Cosme e Damião na Bahia
Na Bahia, existe também a tradição de preparar o caruru de São Cosme e Damião, servido especialmente às crianças antes de ser compartilhado com os demais participantes. O prato é feito principalmente com quiabo e costuma levar ingredientes como camarão seco, azeite de dendê e castanhas.
Tradicionalmente, em algumas celebrações, sete crianças são convidadas a comer primeiro, em uma referência simbólica às tradições religiosas associadas aos Ibejis. Depois, o alimento é compartilhado com familiares, amigos e integrantes da comunidade.
O caruru também costuma acompanhar outros pratos tradicionais da culinária baiana, como o acarajé e o abará. Dessa forma, a celebração reúne religiosidade, gastronomia e elementos da cultura afro-brasileira, preservados ao longo de gerações.
Em setembro de 2024, a Festa do Caruru de São Cosme e São Damião foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. O reconhecimento valoriza uma tradição que atravessa séculos e reúne diferentes expressões religiosas, familiares e comunitárias.
Mais do que uma simples distribuição de doces, a celebração de São Cosme e Damião representa uma parte importante da história brasileira, marcada pela religiosidade, pelo sincretismo e pela preservação das tradições afro-brasileiras.
Fontes e referências
1. Vatican News: história de São Cosme e Damião, atuação como médicos e martírio. https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/09/26/ss–cosme-e-damiao–martires.html
2. Itaú Cultural: sincretismo religioso, Ibejis e tradição da distribuição de doces. https://www.itaucultural.org.br/festa-dos-gemeos-ibeji-cosme-damiao
3. Universidade Federal de Juiz de Fora: estudo acadêmico sobre São Cosme e Damião e as religiões afro-brasileiras. https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/8191
4. Revista Ciências Sociales y Religión (Unicamp): artigo acadêmico sobre os doces de Cosme e Damião e o sincretismo afro-católico. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/csr/article/view/8669720
5. Governo da Bahia: reconhecimento do Caruru de São Cosme e São Damião como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. https://www.ba.gov.br/comunicacao/2024/09/noticias/ato-simbolico-marca-reconhecimento-da-festa-de-cosme-e-damiao-como-patrimonio-cultural-da-bahia
