Remada Viking

Por que a Noruega se orgulha dos Vikings (e o lado que ninguém conta)

A ligação entre a Noruega e os vikings é uma questão de identidade nacional profunda. A Copa do Mundo de 2026 ressaltou isso com o fenômeno da “Remada Viking”, comemoração sincronizada que tomou conta das arquibancadas e das ruas. Mas por que a Noruega abraça tanto essa herança, enquanto vizinhos como a Suécia e a Dinamarca adotam uma postura muito mais contida? E qual o lado que ninguém conta sobre esse passado. 

A Construção de uma Identidade “Tardia”

A Era Viking (por volta dos séculos VIII a XI) foi o período em que a Escandinávia teve mais protagonismo na história mundial. Navegadores, exploradores e comerciantes expandiram fronteiras da América do Norte ao Mediterrâneo. Para a Noruega, especificamente, esse passado tem um peso simbólico gigantesco por razões políticas que vieram séculos depois.

O país foi historicamente dominado por vizinhos mais poderosos: esteve sob domínio dinamarquês por séculos e, depois, em uma união forçada com a Suécia, conquistando a independência plena apenas em 1905.

Diferente de Dinamarca e Suécia, que tiveram impérios medievais e modernos consolidados, monarquias contínuas e grande protagonismo geopolítico na Europa, a Noruega era o lado politicamente fragilizado da região. Sendo assim, ao se tornar independente no início do século XX, o país precisou construir uma identidade nacional forte em cima de referências próprias. A Era Viking virou o pilar central dessa narrativa: um tempo em que os povos que habitavam o território norueguês eram protagonistas.

A própria geografia e a arqueologia ajudaram a cimentar esse orgulho. Isso porque boa parte dos achados arqueológicos navais mais importantes do mundo, omo os impressionantes navios de Oseberg e Gokstad, foram encontrados em solo norueguês. Somando isso ao mar bravo, o cenário geográfico do país reforça visualmente a conexão com aquele imaginário de “povo do mar”.

O Fenômeno da “Remada Viking” na Copa de 2026

A comemoração que viralizou no Mundial nasceu de uma adaptação feita pelo torcedor e professor Ole Frøystad, apelidado de “Senhor Row Row”, inspirado em um cântico antigo dos torcedores do Rosenborg, clube tradicional norueguês.

A dinâmica é simples e chama a atenção: os torcedores se alinham como se estivessem em um barco viking e, com movimentos sincronizados, simulam remar ao som de duas batidas de tambor, gritando “ROW!” (Reme!) repetidas vezes. 

O que fez a comemoração explodir mundialmente foi o fim de um longo jejum esportivo. A Noruega passou décadas longe dos holofotes do futebol mundial. O retorno em 2026, embalado por Erling Haaland, transformou o torneio em um grande evento. O estopim foi a própria delegação norueguesa reproduzindo o gesto no gramado após a vitória sobre o Senegal.

O Lado B do Mito: Escravidão e Colonização

Embora o imaginário popular e o marketing esportivo foquem na bravura guerreira e na engenharia naval, a Era Viking teve bases profundas na violência e na exploração. 

O comércio de escravizados foi um dos pilares econômicos da Escandinávia medieval, e não um detalhe marginal. Em suas incursões pela Europa (Irlanda, Inglaterra, regiões eslavas e bálticas), os nórdicos capturavam populações inteiras para venda em rotas que chegavam até o mundo islâmico via rios russos. 

Dentro da sociedade nórdica, existia uma classe social inteiramente escravizada: os thralls, que realizavam os trabalhos mais pesados nas fazendas, sem qualquer direito.

Além disso, a história de expansão viking envolveu uma colonização violenta de territórios como a Escócia, Irlanda e Groenlândia, gerando conflitos sangrentos com populações nativas, como os inuítes e povos indígenas na América do Norte.

A Noruega moderna e as contradições coloniais

O silenciamento de passados incômodos não se restringe à Idade Média. Isso porque a própria Noruega moderna lida com suas próprias feridas coloniais históricas:

  • O apagamento do povo Sámi: Do século XIX até meados do século XX, o Estado norueguês aplicou a política de “Norueguização” (fornorskning), uma tentativa sistemática de apagar a cultura do povo indígena Sámi, que habita o norte do país. Crianças eram separadas de suas famílias e proibidas de falar sua língua nativa em internatos oficiais. Esse processo de assimilação forçada foi tema de uma Comissão da Verdade e Reconciliação, cujo relatório final foi entregue em 2023.
  • O envolvimento no tráfico transatlântico: Embora a Noruega não seja lembrada como uma potência colonial global, ela fez parte da união Dinamarca-Noruega até 1814. Durante esse período, a Coroa manteve colônias açucareiras no Caribe (as atuais Ilhas Virgens) e postos comerciais na África Ocidental, participando ativamente do tráfico de escravizados africanos, com marinheiros e comerciantes noruegueses operando ativamente essas rotas.

Por que o lado sombrio não aparece na “Remada”?

A omissão da parte incômoda da história não é uma exclusividade norueguesa. É a forma como quase todas as nações lidam com seus mitos fundacionais.

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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