Memória enganosa: como era a infância no passado com menos vacinas

Frequentemente, uma vacina ou algum cuidado com as crianças é colocado em dúvida. A ideia por trás delas parece simples: nossos pais e avós cresceram sem tantas proteções e chegaram até aqui. Então, por que as crianças de hoje precisariam delas?

A resposta está justamente nas pessoas que não chegaram até aqui. Em 1940, de cada mil crianças que nasciam no Brasil, cerca de 147 morriam antes de completar o primeiro ano de vida. Em 2024, eram aproximadamente 12. Em pouco mais de oito décadas, a mortalidade infantil brasileira caiu mais de 90%.

Como era a infância no passado com menos vacinas?

Em termos simples, em 1940 quase 147 de cada mil crianças não chegavam ao primeiro aniversário. Em 2024, eram cerca de 12.

Ao longo desse período, o Brasil ampliou a vacinação, o saneamento, o pré-natal, a assistência ao parto, o acesso a antibióticos, a atenção básica e uma série de cuidados que hoje podem parecer tão normais que esquecemos como era viver sem eles.

E sabe o que todos esses cuidados tiveram em comum? Foram adotados depois que especialistas identificaram causas de doenças e proteção das mesmas.

O problema é que isso criou-se um paradoxo. Quanto mais uma medida de prevenção funciona, menos visíveis se tornam as consequências que fizeram aquela proteção ser criada.

Uma geração que quase não viu poliomielite pode começar a questionar por que ainda precisa se vacinar contra ela. Quem nunca viu uma criança morrer de sarampo pode imaginar que o sarampo nunca foi tão perigoso.

“Eu não tomei vacina e estou aqui”: o viés de sobrevivência

É aí que a frase “eu não tomei e estou aqui” se torna enganosa. Quem está aqui pode contar que sobreviveu. Quem morreu de uma doença hoje evitável não pode participar da discussão.

Esse fenômeno tem nome: viés de sobrevivência. Nós enxergamos aqueles que atravessaram os riscos do passado e podemos esquecer justamente aqueles que esses riscos eliminaram.

Por isso, discutir se os cuidados atuais são realmente “frescura” exige algo além das lembranças de família. Exige comparar o mundo em que nossos avós nasceram com aquele em que nossas crianças nascem hoje.

E os números mostram uma realidade difícil de romantizar: antigamente havia menos vacinas, menos exames e menos cuidados. Havia também muito mais crianças morrendo.

Como caiu a mortalidade infantil no Brasil?

A taxa de mortalidade na infância também caiu. O IBGE informa que, em 1940, a mortalidade antes dos cinco anos era de 212,1 por mil nascidos vivos. Em 2022 e 2023, estava em 14,7 por mil [4]. Essa medida teve redução aproximada de 93,1% no período.

Os dois números contam histórias complementares. A queda da mortalidade infantil mostra o que aconteceu no primeiro ano de vida. A queda da mortalidade antes dos cinco anos mostra que a sobrevivência melhorou ao longo de toda a primeira infância.

O IBGE também observa que, em 2023, aproximadamente 85% dos óbitos na faixa de menores de cinco anos se concentravam no primeiro ano de vida [4]. Isso ajuda a explicar por que as políticas de pré-natal, parto, atenção neonatal e cuidado nos primeiros meses são tão importantes.

Ainda assim, a redução não significa que o problema acabou. Em 2024, uma taxa de 12,3 por mil ainda correspondia a muitas mortes em um país com milhões de nascimentos. Além disso, a média nacional esconde diferenças entre regiões, municípios, grupos sociais e condições de acesso aos serviços.

Poliomielite: como a vacinação mudou a doença no Brasil?

A poliomielite ajuda a entender por que algumas vacinas parecem menos necessárias justamente quando funcionam. Durante décadas, a doença provocou milhares de casos no Brasil e podia deixar crianças com paralisia permanente ou levar à morte. Entre 1968 e 1989, o país registrou 26.827 casos, com forte concentração durante a década de 1970.

Em 1975, por exemplo, foram registrados 3.596 casos. Quatro anos depois, em 1979, o Brasil ainda contabilizou 2.564 infecções.

A mudança ganhou força com a ampliação da vacinação. O Programa Nacional de Imunizações passou a coordenar as atividades de imunização no país em 1975 e, a partir de 1980, as grandes campanhas nacionais contra a poliomielite ampliaram rapidamente a cobertura. Entre 1980 e 1981, o número de casos caiu cerca de 90%.

O último caso de poliomielite causado pelo poliovírus selvagem no Brasil foi registrado em 1989. Em 1994, o país recebeu, junto com os demais países das Américas, a certificação de eliminação da transmissão.

Sarampo: o que aconteceu depois da ampliação da vacinação?

O sarampo oferece outro exemplo de como o sucesso da vacinação pode fazer uma doença parecer menos perigosa do que realmente é. Em 1986, o Brasil registrava incidência de 97 casos para cada 100 mil habitantes. Em 1991, foram notificados 61,4 mil casos e 475 mortes relacionadas à doença.

A situação começou a mudar com a ampliação da vacinação. Em 1992, o Brasil realizou uma grande campanha nacional para eliminar o sarampo e vacinou cerca de 96% das crianças e adolescentes entre 9 meses e 14 anos. Nos anos seguintes, a circulação do vírus caiu drasticamente até que o país conseguiu interromper sua transmissão endêmica.

Durante anos, o Brasil conseguiu fazer isso. Casos importados chegavam ao país, mas encontravam uma população amplamente protegida. O problema apareceu quando a cobertura vacinal caiu. Depois de permanecer historicamente próxima de 90% a 95%, ela recuou significativamente na década de 2010 e chegou a níveis inferiores a 70% em 2020 em alguns indicadores.

O que aconteceu em 2018 ajuda a entender a consequência. O vírus voltou a entrar no Brasil vindo do exterior e encontrou grupos de pessoas suscetíveis. A transmissão voltou a ocorrer, o país enfrentou grandes surtos e acabou perdendo a certificação de eliminação do sarampo que havia recebido em 2016.

A Covid-19 mostrou a diferença que uma vacina pode fazer

Poucos exemplos recentes mostram de maneira tão clara a importância da vacinação quanto a Covid-19. Em 8 de abril de 2021, o Brasil registrou 4.249 mortes pela doença em apenas 24 horas, o maior número registrado em um único dia até aquele momento. A pandemia já durava mais de um ano e o país atravessava seu período mais mortal.

A vacinação havia começado em janeiro, mas ainda estava longe de alcançar a maior parte da população. O contraste apareceu conforme a vacinação avançou. Em dezembro de 2021, o Brasil registrou 4.375 mortes por Covid-19 durante o mês inteiro. No início daquele mês, 90% do público-alvo já havia recebido pelo menos uma dose.

A comparação ajuda a dimensionar a transformação: em 8 de abril, o Brasil registrou em um único dia praticamente o mesmo número de mortes que registraria durante todo o mês de dezembro.

Uma pesquisa publicada na The Lancet Infectious Diseases calculou que as vacinas evitaram cerca de 14,4 milhões de mortes no mundo somente no primeiro ano de vacinação, considerando as mortes oficialmente registradas. Pela estimativa de excesso de mortalidade, seriam 19,8 milhões.

Como uma vacina desenvolvida tão rapidamente poderia ser segura?

Mas como uma vacina desenvolvida tão rapidamente poderia ser segura? A velocidade não ocorreu porque as etapas de segurança foram simplesmente eliminadas.

Décadas de pesquisa anterior, enorme financiamento internacional e a possibilidade de realizar etapas simultaneamente reduziram o tempo de desenvolvimento. Os imunizantes passaram por ensaios clínicos, inclusive estudos de fase 3 com dezenas de milhares de participantes, e continuaram sendo monitorados depois da autorização.

Por que “eu não tomei vacina e estou aqui” não prova que ela é desnecessária?

Esse argumento é verdadeiro como relato pessoal e fraco como evidência populacional. Ele é um exemplo de viés de sobrevivência.

A pessoa olha para os indivíduos que não tomaram determinada vacina e permaneceram saudáveis. Ela não consegue incluir na conta as crianças que morreram, as que foram hospitalizadas ou as que ficaram com sequelas. Esses casos fazem parte da história, mesmo que não estejam presentes na memória de quem argumenta.

O raciocínio seria semelhante a dizer que o cinto de segurança é inútil porque alguém sofreu um acidente e saiu ileso sem usá-lo. Um caso individual não mede o efeito de uma proteção sobre milhões de pessoas.

A pergunta correta não é “eu sobrevivi sem isso?”. É “quantas pessoas teriam sobrevivido por causa disso?”. A queda da mortalidade infantil, a eliminação da poliomielite e a interrupção temporária do sarampo ajudam a responder.

Perguntas frequentes sobre vacinação infantil e doenças do passado

As crianças realmente morriam mais no passado?

Sim. Em 1940, de cada mil crianças que nasciam no Brasil, cerca de 147 morriam antes de completar o primeiro ano de vida. Em 2024, eram aproximadamente 12.

O que é viés de sobrevivência?

É quando enxergamos aqueles que atravessaram determinado risco e esquecemos aqueles que não sobreviveram a ele. No caso das vacinas, quem sobreviveu pode contar sua experiência, enquanto quem morreu de uma doença hoje evitável não participa da discussão.

Quando ocorreu o último caso de poliomielite no Brasil?

O último caso de poliomielite causado pelo poliovírus selvagem no Brasil foi registrado em 1989. Em 1994, o país recebeu, junto com os demais países das Américas, a certificação de eliminação da transmissão.

A queda da cobertura vacinal pode fazer uma doença voltar?

O caso do sarampo mostra esse risco. Depois da queda da cobertura vacinal, o vírus voltou a entrar no Brasil, encontrou grupos suscetíveis e voltou a circular, provocando grandes surtos.

As vacinas contra a Covid-19 foram desenvolvidas sem etapas de segurança?

A velocidade não ocorreu porque as etapas de segurança foram simplesmente eliminadas. Décadas de pesquisa anterior, financiamento internacional e etapas realizadas simultaneamente ajudaram a reduzir o tempo de desenvolvimento.

Vacinação foi a única responsável pela queda da mortalidade infantil?

O próprio histórico apresentado mostra que não. Ao longo desse período, o Brasil ampliou a vacinação, o saneamento, o pré-natal, a assistência ao parto, o acesso a antibióticos, a atenção básica e outros cuidados.