O capitalismo atual pode te deixar milionário. E não assumir isso no discurso talvez seja um dos principais erros da esquerda.
O caminho não pode ser simplesmente dizer que uma pessoa pobre não pode enriquecer. Isso porque sempre vai aparecer uma história de alguém que saiu do nada e ficou milionário. E, em alguns casos, essas pessoas talvez não tenham saído exatamente do nada. Tiveram estudo, curso de inglês e outros recursos que a maioria da população não teve.
Mas é fato que algumas conseguiram essa ascensão. Portanto, a pergunta mais interessante não é se um pobre pode ficar rico no capitalismo. É: qual é a probabilidade de isso acontecer?
Pobre pode ficar rico no capitalismo?
Pode. E essa distinção é importante para compreender o debate sobre desigualdade e mobilidade social.
No mundo capitalista, os prazeres proporcionados pelo dinheiro são apresentados com frequência em tudo quanto é canto. Então, é óbvio que muitos pobres vão defender o capitalismo com muita força.
Certamente tem gente vendo esse conteúdo com 30 ou 40 anos, que não sabe sequer como vai pagar as contas no mês que vem, mas que vai defender o capitalismo ou mandar alguém “ir para um país comunista”.
Mas voltando ao começo: o capitalismo atual pode te deixar milionário. A grande questão está nesse “pode”.
Poder ficar rico é diferente de ter uma grande chance de ficar rico
O Bangu pode ser campeão do Mundial de Clubes. Ele só precisa superar um grande obstáculo financeiro, conseguir uma vaga em uma competição nacional, ganhar a Copa do Brasil, vencer a Libertadores e ganhar o Mundial.
Ou seja, poder, ele pode.
É o mesmo em relação à pobreza. A existência de pessoas que conseguiram sair da pobreza e enriquecer demonstra que a ascensão social é possível. Mas não demonstra que todos possuem a mesma probabilidade de chegar lá.
Por isso, para compreender a mobilidade social, é mais importante observar milhões de pessoas do que selecionar apenas os casos excepcionais que chegaram ao topo.
O que os dados mostram sobre mobilidade social no Brasil?
De acordo com o Atlas da Mobilidade Social, entre as pessoas nascidas entre 1983 e 1990 que estavam na metade mais pobre da população brasileira, somente 1,81% chegou aos 10% mais ricos.
E existe um detalhe importante: entrar nos 10% mais ricos não significa necessariamente se tornar milionário. Nesse recorte, estamos falando de alcançar uma faixa de renda muito superior àquela de origem.
Portanto, poder ficar milionário no capitalismo atual você pode. A questão levantada pelos dados é outra: para quem nasce entre os mais pobres, chegar ao topo da distribuição de renda continua sendo uma trajetória muito menos comum.
Histórias de milionários provam que o sistema oferece oportunidades iguais?
Não. Elas demonstram que existe possibilidade de mobilidade, mas não dizem qual é a probabilidade dessa mobilidade.
Esse é um problema quando histórias individuais são utilizadas para explicar fenômenos que envolvem milhões de pessoas. Encontrar alguém que nasceu pobre e ficou milionário não responde quantas pessoas nascidas nas mesmas condições conseguiram repetir aquela trajetória.
Além disso, é preciso observar o que significa “sair do nada”. Algumas pessoas realmente partem de condições extremamente difíceis. Outras tiveram acesso a estudo, curso de inglês, redes de contato, estrutura familiar e outros recursos que grande parte da população não possui.
Reconhecer essas diferenças não elimina o mérito individual de quem conseguiu ascender. Apenas coloca sua trajetória dentro do contexto em que ela aconteceu.
Entenda como funciona a economia do país de forma simples.
O problema está apenas no Brasil?
Mas aí você pode argumentar que o problema está no Brasil. Só que outro dado também merece atenção: a fortuna dos bilionários brasileiros cresceu 39% em 2024.
Ou seja, existe geração e crescimento de riqueza, mas parte importante dela também pode se concentrar no topo.
E não, essa discussão não precisa ser sobre defender o comunismo ou acabar com o capitalismo. É possível discutir desigualdade, concentração de renda e mobilidade social dentro do próprio debate sobre como o capitalismo deve funcionar.
Desigualdade não é a mesma coisa que pobreza
Esse ponto é importante. Uma sociedade pode enriquecer e, ao mesmo tempo, continuar apresentando grande desigualdade.
Da mesma maneira, a existência de bilionários não demonstra sozinha que os pobres ficaram mais pobres. Para analisar essa questão, é necessário observar também renda, pobreza, mobilidade social e como o crescimento econômico foi distribuído.
Por isso, o debate não deveria se resumir a “capitalismo funciona” ou “capitalismo não funciona”. Uma pergunta mais útil é: quem está conseguindo se beneficiar do crescimento econômico e qual é a possibilidade real de alguém que nasce pobre chegar ao topo?
Taxar os mais ricos é uma alternativa dentro do capitalismo?
Se você acredita no capitalismo, discutir mecanismos para reduzir desigualdades não significa necessariamente defender o fim do sistema.
Uma das alternativas debatidas é aumentar a tributação sobre renda e patrimônio no topo da distribuição. Diferentes países capitalistas utilizam impostos sobre altas rendas, heranças e determinados patrimônios como parte de seus sistemas tributários.
A discussão, portanto, pode acontecer dentro do próprio capitalismo: quanto os mais ricos devem contribuir, quais impostos são mais eficientes e como utilizar esses recursos para ampliar oportunidades para quem nasce em condições menos favoráveis?
O capitalismo pode te deixar milionário, mas essa não é a pergunta principal
Sim, uma pessoa pobre pode ficar milionária no capitalismo. Negar essa possibilidade torna muito fácil responder à crítica mostrando meia dúzia de histórias de pessoas que conseguiram.
A questão mais importante é outra. Entre milhões de pessoas que nascem pobres, quantas conseguem subir significativamente na distribuição de renda? E quanto o lugar onde uma pessoa nasce, sua família, educação e oportunidades influenciam essa trajetória?
O caso excepcional mostra o que é possível. A mobilidade social mostra o que é provável.
É essa diferença que precisa estar no centro da discussão.
