Faculdade ainda vale a pena? O que os dados escondem no discurso contra a universidade

Você certamente já ouviu que “faculdade não serve para nada”, que “diploma não garante emprego” ou que é possível ganhar muito mais empreendendo do que passando anos em uma universidade.

Essa narrativa costuma ser apresentada como uma visão moderna sobre trabalho e sucesso. No entanto, para entender se a faculdade ainda vale a pena, é preciso olhar além dos casos individuais apresentados nas redes sociais e observar a história do ensino superior brasileiro e os dados sobre renda e desemprego.

Faculdade ainda vale a pena?

É verdade que possuir um diploma não garante emprego, salário alto ou sucesso profissional. Existem pessoas com ensino superior enfrentando dificuldades no mercado de trabalho, assim como existem empreendedores sem formação universitária que conseguiram alcançar rendimentos elevados.

O problema aparece quando experiências individuais são utilizadas para concluir que estudar deixou de oferecer vantagens. Os dados mostram que, apesar de não representar garantia individual de sucesso, a formação superior continua associada a maior renda e menor desemprego no Brasil.

A universidade no Brasil foi historicamente um espaço das elites

Historicamente, o acesso ao ensino superior no Brasil foi um privilégio de poucos. Durante décadas, as universidades eram ambientes quase exclusivos das classes mais ricas, que podiam arcar com os custos de uma educação de alto nível para que seus filhos chegassem às poucas vagas públicas disponíveis.

A formação universitária era, portanto, um selo de distinção social, um passaporte para posições de poder e prestígio. E esse recorte econômico era ainda mais evidente dependendo do curso escolhido.

Nessa época, não havia, por parte das elites, o mesmo questionamento sobre sua validade ou necessidade. Pelo contrário, a universidade era um caminho natural e desejável para seus filhos.

Como o acesso à universidade se tornou mais democrático?

Essa realidade começou a mudar de forma mais significativa a partir do final do século XX e, principalmente, no início do século XXI, com a implementação de políticas públicas voltadas para a democratização do acesso ao ensino superior.

Programas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e a Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012) foram importantes para abrir as portas das universidades públicas e privadas para estudantes de baixa renda, negros, indígenas e pessoas com deficiência.

Essas iniciativas representaram um avanço na busca por uma sociedade mais equitativa, permitindo que jovens de origens sociais diversas tivessem a oportunidade de ascender socialmente por meio da educação.

Por que cresceu o discurso de que faculdade não vale a pena?

É nesse cenário de maior inclusão que o discurso antiacadêmico passou a ganhar força. Curiosamente, a crítica à universidade, que antes era um pilar praticamente inquestionável para as elites, passou a ser proferida por figuras políticas e, mais recentemente, pelos que se autodenominam “coaches”.

Primeiramente, questionando a qualidade das universidades e, mais recentemente, indicando que o caminho para o sucesso financeiro seria possível sem a necessidade de uma formação formal.

A narrativa é sedutora: “não perca tempo na faculdade”, “o diploma não garante nada”, “o que importa é a prática e a mentalidade empreendedora”. Essa retórica, muitas vezes, é acompanhada de histórias de sucesso individualizadas e descontextualizadas, que ignoram as complexas estruturas sociais e econômicas que determinam o acesso a oportunidades.

Você certamente já viu pelas redes aquelas famosas contas segundo as quais vender bolo de pote, pipoca ou outro produto poderia render quatro, cinco ou seis salários.

O discurso contra a universidade tem relação com sua democratização?

Essa é uma questão que merece ser analisada. O discurso se intensifica em um período no qual a universidade deixa de ser um ambiente quase exclusivo dos ricos e passa a acolher uma parcela significativa da população que antes estava à margem.

É claro que muitas pessoas fizeram faculdade e não tiveram grandes oportunidades. Porém, outra grande parcela conseguiu alcançar uma ascensão econômica e uma vida um pouco mais estável que a de seus pais.

A chegada do “pobre” à universidade, com suas perspectivas e questionamentos, também modifica esses espaços. Deslegitimar a educação superior pode ter como consequência desencorajar a especialização e o desenvolvimento do pensamento crítico justamente entre aqueles que passaram a ter novas ferramentas de conhecimento e melhores condições para competir por oportunidades.

Quem tem faculdade ganha mais no Brasil?

A educação superior, apesar das críticas, continua sendo um dos principais caminhos associados à mobilidade social e ao desenvolvimento econômico.

No Brasil, a renda média dos trabalhadores com ensino superior é 126% maior do que a dos menos escolarizados, segundo dados da FGV de 2024.

Já segundo dados do IBGE divulgados em 2025, a taxa de desemprego para quem possui nível superior é de apenas 3%, enquanto entre aqueles com ensino médio completo chega a 6,8% e alcança 10% entre quem possui ensino médio incompleto.

Esses números não significam que qualquer pessoa com diploma necessariamente ganhará mais do que qualquer pessoa sem faculdade. Eles mostram uma diferença estatística entre grupos, algo muito diferente das histórias individuais frequentemente apresentadas nas redes sociais.

Faculdade garante emprego e salário alto?

Não. E reconhecer isso é fundamental para que a defesa da educação superior não reproduza outra simplificação.

Uma pessoa pode concluir uma graduação e permanecer desempregada, receber salário baixo ou trabalhar em uma área diferente daquela em que se formou. Da mesma maneira, alguém sem ensino superior pode construir uma empresa de sucesso e alcançar renda muito superior à média.

Porém, a existência desses casos não elimina a diferença estatística. Apesar de a faculdade não ser uma garantia de sucesso econômico, a falta dessa especialização deixa o trabalhador em um funil ainda mais estreito para alcançá-lo.

A universidade serve apenas para conseguir emprego?

Além do retorno financeiro individual, a universidade contribui para o desenvolvimento do país por meio da pesquisa, inovação e formação de capital humano qualificado, impulsionando o crescimento econômico e social.

A cobrança, portanto, deve ser também por maior desenvolvimento industrial para acomodar mais especialistas, e não simplesmente por desestimular a formação.

A universidade, em sua essência, também é um espaço de questionamento, debate de ideias e confronto com o estabelecido. Não é o único meio para desenvolver pensamento crítico, mas é um espaço importante para a formação de cidadãos capazes de analisar a realidade e identificar problemas sociais.

O problema da promessa de sucesso rápido

A estratégia do discurso contra a universidade é particularmente eficaz porque pode se apresentar como empoderamento individual, prometendo um caminho rápido para o sucesso sem o “sacrifício” dos anos de estudo.

Ao desencorajar o acesso à educação superior, porém, existe o risco de que pessoas deixem de adquirir conhecimentos e ferramentas importantes para se especializar e competir em um mercado de trabalho cada vez mais exigente.

Por isso, histórias de pessoas que enriqueceram sem diploma precisam ser analisadas da mesma maneira que histórias de graduados bem-sucedidos: são experiências individuais e não demonstram, sozinhas, qual caminho oferece melhores perspectivas para milhões de pessoas.

Se faculdade não vale a pena, por que os mais ricos continuam estudando?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do debate. Enquanto jovens de baixa renda recebem mensagens dizendo que podem abandonar a universidade e procurar atalhos para o sucesso, os filhos das famílias mais ricas continuam frequentando boas universidades, construindo redes de contato e se preparando para posições qualificadas e de liderança.

Isso não significa que a faculdade seja o único caminho possível. Significa que existe uma diferença importante entre afirmar que “é possível ter sucesso sem faculdade” e concluir que “faculdade não vale a pena”.

Os próprios dados sobre renda e desemprego apresentados anteriormente mostram por que essas duas afirmações não podem ser tratadas como se significassem a mesma coisa.

Então faculdade ainda vale a pena?

A resposta não pode ser dada apenas com a história de um empresário que ficou rico sem diploma ou de um universitário que terminou o curso e ficou desempregado. Nenhum desses exemplos individuais representa sozinho a realidade do mercado de trabalho brasileiro.

A faculdade não garante sucesso. No entanto, os dados apresentados mostram que trabalhadores com ensino superior continuam tendo, em média, maior renda e menor desemprego. Por isso, antes de aceitar a promessa de que estudar é “perda de tempo”, vale perguntar quem está fazendo essa recomendação, quais evidências apresenta e qual caminho escolhe para os próprios filhos.

Perguntas frequentes sobre faculdade e mercado de trabalho

Faculdade ainda vale a pena?

O diploma não garante sucesso individual, mas os dados apresentados mostram que trabalhadores com ensino superior possuem, em média, maior renda e menor desemprego no Brasil.

Faculdade garante emprego?

Não. Uma graduação não garante emprego, mas o nível de desemprego entre pessoas com ensino superior é menor do que entre grupos com menor escolaridade nos dados apresentados no artigo.

Quem tem faculdade ganha mais?

Em média, sim. Segundo os dados da FGV citados no texto, trabalhadores com ensino superior possuem renda média 126% maior do que trabalhadores menos escolarizados.

É possível ganhar bem sem faculdade?

Sim. Existem empreendedores e trabalhadores sem ensino superior com rendimentos elevados. O problema é utilizar casos individuais para afirmar que a formação universitária deixou de oferecer vantagens estatísticas.

Por que o acesso à universidade aumentou no Brasil?

Políticas como ProUni, FIES e Lei de Cotas contribuíram para ampliar o acesso de grupos historicamente afastados do ensino superior.

A universidade serve apenas para conseguir emprego?

Não. Além da formação profissional, universidades participam da produção de pesquisa, inovação, conhecimento e formação de profissionais especializados.

Referências

[1] Instituto Questão de Ciência. A história do Ensino Superior Brasileiro. Disponível em: https://iqc.org.br/observatorio/artigos/educacao/a-historia-do-ensino-superior-brasileiro/

[2] Scielo. Políticas de democratização da educação superior brasileira: limites e desafios para a próxima década. Disponível em: https://www.scielo.br/j/aval/a/KYs6H9L5YpppTCZHpHGd8SK/?lang=pt

[3] Scielo. Origem Social e Acesso ao Ensino Superior no Brasil entre 1992 e 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/dados/a/xwH8txdN8HCZRvNS3RJ8bYj/

[4] Outras Palavras. Os coachs mirins que pregam o não-estudar. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/os-coachs-mirins-que-pregam-o-nao-estudar/

[5] IHU Unisinos. “A desinformação sobre as Universidades Públicas é proposital e tem a intenção de justificar o discurso privatista”. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/588473-a-desinformacao-sobre-as-universidades-publicas-e-proposital-e-tem-a-intencao-de-justificar-o-discurso-privatista

[6] Gov.br. MEC e Inep divulgam resultado do Censo Superior 2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/censo-da-educacao-superior/mec-e-inep-divulgam-resultado-do-censo-superior-2023

[7] Agência de Notícias IBGE. Taxa de ingresso ao nível superior é maior entre alunos da rede privada. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/23300-taxa-de-acesso-ao-nivel-superior-e-maior-entre-alunos-da-rede-privada

[8] PUCRS. Redução das desigualdades de acesso ao Ensino Superior perde fôlego, mostra pesquisa da PUCRS. Disponível em: https://portal.pucrs.br/noticias/impacto-social/reducao-das-desigualdades-de-acesso-ao-ensino-superior-perde-folego-mostra-pesquisa-da-pucrs/

[9] ANUP. O impacto da educação superior no futuro do Brasil. Disponível em: https://anup.org.br/noticias/o-impacto-da-educacao-superior-no-futuro-do-brasil/

[10] EM. Baixo acesso ao ensino superior diminui a mobilidade social. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/opiniao/2023/08/19/interna_opiniao,1548506/baixo-acesso-ao-ensino-superior-diminui-a-mobilidade-social.shtml