Poucos jogos apostam tanto na história quanto a franquia Assassin’s Creed. Desde o primeiro título, lançado em 2007, a Ubisoft construiu uma série que promete levar o jogador para dentro de períodos históricos reais — da Terra Santa das Cruzadas até o Egito Antigo, passando pela Revolução Francesa e pelo Japão feudal. É uma proposta ambiciosa, e em vários momentos ela realmente funciona. Mas em outros, a franquia tropeça de formas bastante reveladoras.
Quando o jogo acerta: a reconstrução dos cenários
O ponto mais forte de Assassin’s Creed sempre foi o trabalho visual e arquitetônico. A equipe da Ubisoft é conhecida por contratar historiadores e pesquisadores para ajudar na reconstrução dos cenários. Em Origins (2017), o Egito ptolemaico ganha vida com uma atenção ao detalhe que surpreende: os mercados de Alexandria, o layout das cidades, as roupas, os rituais. Em Odyssey (2018), a Grécia Clássica aparece com suas cidades-estado, seus templos e até fragmentos de debates filosóficos.
Já em Unity (2014), Paris durante a Revolução Francesa é reconstruída com um cuidado quase obsessivo. Notre-Dame, o Palácio de Versalhes, as ruas tomadas pela população — o cenário respira história. Tanto que, quando a catedral pegou fogo em 2019, a Ubisoft disponibilizou o jogo gratuitamente e cedeu seus modelos 3D para auxiliar na reconstrução do edifício. Isso diz muito sobre a qualidade do trabalho de pesquisa.
Quando o jogo erra: a história como pano de fundo
Apesar do cuidado cenográfico, a franquia costuma tratar personagens e eventos históricos como adereços de uma narrativa de ficção científica. A premissa central do jogo — uma luta milenar entre Assassinos e Templários, mediada por artefatos alienígenas chamados “Fragmentos do Éden” — frequentemente distorce ou simplifica eventos complexos.
Tomemos a Revolução Francesa como exemplo. Unity mostra a guilhotina, o povo nas ruas, Robespierre. Mas o jogo não consegue (ou não tenta) explicar as tensões de classe, os debates políticos, os diferentes grupos que disputavam o rumo da Revolução. Tudo vira cenário de perseguição. O que foi um dos momentos mais complexos da história política moderna fica reduzido a um pano de fundo para parkour e assassinatos furtivos.
O mesmo acontece com figuras históricas reais. Leonardo da Vinci em Brotherhood, Cleópatra em Origins, Sócrates em Odyssey — todos aparecem, mas tendem a ser caricaturados, transformados em aliados convenientes ou em fontes de missões secundárias. A profundidade histórica dessas figuras raramente sobrevive ao contato com a narrativa do jogo.
A questão da representação cultural
Com o tempo, a franquia também passou a enfrentar críticas mais sérias sobre como retrata culturas não-europeias. Origins e Odyssey foram elogiados por trazerem protagonistas de culturas subrepresentadas nos jogos, mas a forma como essas culturas são apresentadas ainda carrega muito do olhar externo, exoticizante.
Em Origins, por exemplo, o Egito é lindíssimo — mas é o Egito visto pelos olhos de quem quer consumir uma fantasia arqueológica. As dinâmicas internas da sociedade egípcia, as tensões entre egípcios e gregos no período ptolemaico, a resistência cultural de uma população colonizada — essas questões aparecem de forma superficial, quando aparecem.
Valhalla (2020) trouxe o debate ainda mais à tona. O jogo retrata os vikings de forma romantizada, valorizando a cultura guerreira nórdica sem problematizar o que significava, para as populações da Inglaterra e da França, receber esses “visitantes” armados. A violência das invasões é apresentada quase como aventura.
O modo Discovery Tour: quando o jogo decide ser sério
Um dos movimentos mais interessantes da Ubisoft foi criar o Discovery Tour, uma modalidade sem combate disponível em Origins, Odyssey e Valhalla. Nesse modo, o jogador pode explorar os cenários livremente, acessando informações históricas curadas por especialistas. É basicamente um museu interativo, e funciona muito bem.
O Discovery Tour revela algo importante: a equipe por trás dos jogos tem muito mais conhecimento histórico do que o produto final deixa transparecer. A escolha de esconder esse material atrás de um modo separado diz muito sobre as prioridades comerciais da franquia. História aprofundada aparece quando não interfere na experiência de ação.
O que isso tudo diz sobre jogos e história
Assassin’s Creed é um espelho interessante de como a indústria cultural trata o passado. Os cenários são meticulosos porque são visíveis, imersivos, vendáveis. A profundidade histórica é mais difícil de empacotar numa experiência de entretenimento de massa, então fica em segundo plano.
Isso não significa que o jogo seja sem valor histórico. Para muita gente, foi o primeiro contato com o Egito ptolemaico, com as Cruzadas, com a Renascença italiana. Despertar curiosidade já é alguma coisa. Mas entre despertar curiosidade e ensinar história de verdade há uma distância enorme — e Assassin’s Creed raramente tenta percorrê-la.
A franquia acerta quando constrói mundos que convidam à exploração. Erra quando usa esses mundos apenas como palco para uma narrativa de conspiração global que, no fundo, achata a complexidade de tudo que toca. O potencial está lá. A execução, por enquanto, ainda prefere o espetáculo à reflexão.
