Em 2024, o 1% mais rico do Brasil recebeu o equivalente a 36,2 vezes o que recebia os 40% mais pobres.
Pense nisso por um segundo. Uma pessoa rica, sozinha, ganha em um mes o que 40 pessoas pobres juntas ganham. Isso e o Brasil de hoje.
Mas essa não e uma situação que surgiu do nada. Ela tem nome, tem data, tem autor. A desigualdade brasileira foi construida — tijolo por tijolo, lei por lei, golpe por golpe — ao longo de mais de 500 anos. E quem a construiu tinha interesse muito claro em faze-lo.
Neste texto, você vai ver essa história completa. Das sesmarias do século XVI ao Consenso de Washington nos anos 1990. Da escravidão a reforma trabalhista. Das capitanias hereditarias ao teto de gastos. Cada capítulo desta história tem um fio condutor: sempre houve quem ganhou com a pobreza do outro.
Esta e a história da desigualdade no Brasil. Do lado do povo.
Leia também: O Ciclo do Açúcar e a Formação do Latifúndio — como a estrutura fundiária colonial plantou a semente da desigualdade que persiste até hoje.
O Brasil de hoje em números: o que os dados revelam
| Indicador | Dado | Fonte |
| Índice de Gini 2024 | 0,506 — o menor da história, mas ainda altissimo | IBGE/PNAD 2024 |
| Os 10% mais ricos concentram | 39,8% de toda a renda do país | IBGE/PNAD 2024 |
| Os 1% mais ricos ganham | 36,2x mais que os 40% mais pobres | IBGE/PNAD 2024 |
| 50% mais pobres sobrevivem com | R$ 713 por mes — R$ 23,77 por dia | IBGE/PNAD 2024 |
| 26,8% da população vive abaixo da | linha de pobreza (US$ 8,30/dia) | IBGE/PNAD 2024 |
| Salario medio de negros e | 40% menor que o de brancos em 2024 | Ministerio do Trabalho/2024 |
| Negros com diploma universitario ganham | 32% menos que brancos com o mesmo nivel | DIEESE 2024 |
| Brasil e o 2o país mais desigual entre | 40 países selecionados da OCDE | IBGE/Sintese Indicadores 2024 |
1. A raiz: como a colonização criou a desigualdade
Tudo comeca em 1500. Mas não com o “descobrimento” como nos ensinaram. Comeca com uma decisao política muito concreta: o Brasil foi construido para ser explorado, não para ser desenvolvido.
Portugal não veio colonizar para criar uma sociedade justa. Veio buscar riqueza. E para isso, precisava de três elementos: terra, trabalho e controle. Os três foram organizados de uma forma que, não por acidente, concentrava tudo nas maos de muito poucos.
As capitanias e as sesmarias: desigualdade por decreto
Em 1534, D. João III dividiu o Brasil em 15 faixas de terra e entregou cada uma a um pequeno grupo de nobres e burocratas — os donatarios. Não havia distribuição. Havia concessão para quem já tinha poder e dinheiro.
Junto com as capitanias, veio o sistema de sesmarias: pedaços de terra doados pelo Estado a quem pudesse cultiva-los. Quem tinha capital montava um engenho e ficava rico. Quem não tinha ficava fora — ou se tornava dependente de quem tinha. O sistema foi desenhado para isso.
Como detalhamos no texto sobre o Ciclo do Açúcar e a formação do latifúndio, a família Garcia d’Avila chegou a acumular 800 mil quilômetros quadrados de terra — maior que a França e a Alemanha juntas. Era o maior latifúndio do mundo. E foi construido com terras que o Estado deu de graça.
A escravidão: o alicerce de tudo
Mas o latifúndio sozinho não explicaria a desigualdade. O que o tornou tao poderoso foi o trabalho forçado de milhoes de africanos escravizados. Por mais de 350 anos, o Brasil funcionou com uma economia que não pagava sua força de trabalho. O lucro era total porque o custo humano era zero — na contabilidade dos senhores. Na vida real, o custo era pago com sangue, dor e morte.
Como detalhamos no texto sobre o tráfico transatlantico e o sistema financeiro moderno, o Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados no mundo: mais de 4,8 milhoes de pessoas. Isso não foi apenas um crime contra a humanidade. Foi a base material da acumulação de riqueza que gerou as primeiras grandes fortunas brasileiras.
E essa riqueza não foi redistribuida. Ela foi herdada. As famílias que enriqueceram com a escravidão fundaram empresas, compraram terras, financiaram políticos. Seus descendentes, em muitos casos, ainda estao no topo da pirâmide social brasileira. A desigualdade tem herança.
A lógica que não mudou: No Brasil colonial, quem não tinha capital ficava sem terra. Quem não tinha terra ficava sem opção. E quem ficava sem opção era forçado a trabalhar para quem tinha terra — em condições que se apróximavam (ou eram diretamente) escravidão. Essa lógica de dependência estrutural continua funcionando no Brasil de 2026, só que com outros nomes.
Leia também: Escravidão no Brasil: história, abolição e discriminação racial — o sistema que sustentou a elite por três séculos e meio e deixou uma dívida que nunca foi paga.
2. As leis que travaram a mobilidade: Lei de Terras e Abolição sem indenização
O Brasil do século XIX teve dois momentos que deveriam ter mudado a estrutura de desigualdade. Em vez disso, eles a consolidaram.
A Lei de Terras de 1850: fechando a porta antes de abrir a senzala
Em 1850 — 38 anos antes da abolição da escravidão — o governo imperial aprovou a Lei de Terras. O principio era simples: a partir daquele momento, terra só poderia ser adquirida por compra. Não mais por ocupação, não mais por concessão gratuita, não mais por uso continuado.
A consequência era previsível: quem não tinha dinheiro não podia ter terra. E quem não teria dinheiro quando a escravidão acabasse? Os africanos libertos. A lei foi aprovada antes da abolição exatamente para garantir que, quando ela viesse, a elite mantivesse o controle sobre a mão de obra. Sem terra, as pessoas sao forçadas a trabalhar para quem tem terra. Simples assim.
Ao mesmo tempo, a lei legalizava retroativamente as posses dos grandes latifundiários — mesmo as adquiridas de forma irregular. Era uma anistia fundiária que só beneficiava os já poderosos.
A Abolição de 1888: liberdade sem terra, sem dinheiro, sem futuro
Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Mais de 700 mil pessoas foram declaradas livres naquele dia.
E entao? Nada.
Nenhuma indenização. Nenhuma parcela de terra. Nenhum programa de moradia ou educação. Nenhuma política de inserção social. Os ex-escravizados saiam das senzalas sem documentos, sem dinheiro, sem propriedade — num país onde a lei de 38 anos antes já tinha bloqueado o acesso a terra para quem não tivesse capital.
O resultado foi que muitos continuaram trabalhando para os mesmos senhores, agora como meeiros, parceiros ou trabalhadores diaristas. A dependência mudou de nome. A estrutura permaneceu.
Na Inglaterra, quando a escravidão foi abolida nas colonias em 1833, o governo pagou indenização — não aos escravizados, mas aos donos de escravos. Uma lógica perversa, mas que ao menos reconhecia que havia uma transação econômica sendo encerrada. No Brasil, nem isso. A abolição foi o ato mais barato que a elite poderia ter feito: custou zero e manteve o sistema de dependência intacto.
Dado que indigna: O governo britanico pagou 20 milhoes de libras de indenização aos donos de escravos em 1833. A dívida gerada por esse pagamento só foi quitada em 2015. Ou seja: contribuintes britanicos pagaram por mais de 180 anos pelo “prejuizo” causado ao senhor. Os escravizados não receberam nada. No Brasil, nem esse reconhecimento houve.
3. A República das elites: quem assumiu o poder em 1889
A proclamação da República em 1889 gerou uma pergunta que raramente e respondida nos livros didáticos: quem assumiu o poder?
Não foi o povo. Foi a elite agrária — especialmente os fazendeiros de cafe do São Paulo e de Minas Gerais. A chamada “política do café com leite” foi o arranjo político que dominou o Brasil nos primeiros 40 anos da República: São Paulo e Minas alternavam a presidencia entre si, garantindo que o Estado servisse aos interesses dos grandes proprietarios rurais.
Nesse período, o Brasil era um país de maioria negra e parda, de trabalhadores rurais sem terra, de imigrantes europeus trazidos para substituir a mão de obra escravizada nos cafezais. E era governado por e para um grupo minúsculo de latifundiários brancos que concentravam terra, capital e poder político.
O coronelismo: como a desigualdade se tornava controle político
O coronelismo foi o sistema político que transformou a desigualdade econômica em controle político nas regioes rurais. O coronel — o grande proprietario de terra local — controlava o emprego, a moradia, o acesso a agua, ao medico, ao cartório. E, portanto, controlava o voto.
Quem votava contra o coronel perdia o emprego, perdia a casa, perdia o acesso ao pedaço de terra que arrendava para plantar. A “liberdade” política que a República prometia era formal — na prática, nas regioes rurais, votar era uma extensao da dependência econômica.
Isso explica por que as primeiras políticas sociais do Brasil só apareceram depois de 1930, quando a industrialização criou uma classe trabalhadora urbana que já não dependia do coronel. Enquanto o Brasil foi majoritariamente rural, a elite agrária não precisava oferecer política social — bastava o controle pela dependência.
Leia também: Revolta da Balaiada: a resistência popular que o Brasil esqueceu — uma das muitas revoltas populares esmagadas pela elite agrária da República Velha.
4. Vargas e a industrialização: progresso com limites de classe
Em 1930, Getulio Vargas chegou ao poder com o apoio de militares e de uma burguesia industrial que queria modernizar o país. O modelo agroexportador — exportar cafe, importar tudo — estava em crise com a Grande Depressão. Era hora de industrializar.
Vargas criou a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) em 1943, estabelecendo direitos como salario minimo, ferias, jornada de 8 horas e direito a sindicato. Foi uma mudanca real e importante — especialmente para os trabalhadores urbanos.
Mas e preciso ser honesto sobre os limites dessa mudanca.
Os excluidos da CLT
A CLT de 1943 criou uma divisao fundamental que persiste até hoje: ela protegia os trabalhadores urbanos com carteira assinada — e excluia explicitamente os trabalhadores rurais e domésticos.
Quem eram os trabalhadores rurais e domésticos no Brasil de 1943? Em sua esmagadora maioria, negros e descendentes de escravizados — exatamente quem havia sido libertado sem indenização em 1888 e ficado preso ao campo pela falta de alternativas.
Portanto, a modernização trabalhista varguista criou um Brasil de dois andares: o trabalhador urbano — predominantemente branco, com direitos e salario minimo — e o trabalhador rural e doméstico — predominantemente negro, sem direitos, sem carteira, sem proteção. Essa divisao reproduzia a hierarquia racial da escravidão com outros instrumentos.
Os trabalhadores rurais só ganharam direitos trabalhistas em 1963, com o Estatuto do Trabalhador Rural. Os trabalhadores domésticos só conquistaram equiparação plena de direitos em 2015 — com a PEC das Domesticas. 72 anos depois da CLT.
A industrialização e o capital estrangeiro
Outro ponto importante sobre o modelo de desenvolvimento de Vargas — e especialmente de Juscelino Kubitschek nos anos 1950 — e que ele foi financiado com capital estrangeiro. A industrialização brasileira não foi autonoma. Ela dependeu de emprestimos externos e da vinda de multinacionais que instalaram fabricas no país.
Isso gerou um modelo que ficou conhecido na teoria econômica crítica como “desenvolvimento dependente” — conceito desenvolvido pelos economistas da CEPAL e especialmente pelos brasileiros Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. O Brasil se industrializou, mas dentro de uma divisao internacional do trabalho que o mantinha subordinado aos países centrais. Fabricavamos aqui, mas as decisoes e os lucros iam para fora.
5. O Golpe de 1964: quando a desigualdade foi defendida pela força
No inicio dos anos 1960, o Brasil vivia um momento de ebulicao. João Goulart, o presidente eleito, propunha as Reformas de Base: reforma agrária, reforma urbana, controle de remessa de lucros para o exterior, voto para analfabetos, estabilização dos alugueis. Em resumo: políticas que redistribuiriam poder e renda.
A elite não aceitou. Em 31 de marco de 1964, militares depuseram Goulart com apoio de empresarios, latifundiários, da grande imprensa e — como documentam os arquivos desclassificados — do governo dos Estados Unidos. O embaixador americano Lincoln Gordon chegou a pedir o envio de navios de guerra para dar suporte ao golpe, caso necessário.
A ditadura e a concentração de renda
Os 21 anos de ditadura militar (1964-1985) produziram o que economistas chamam de “milagre econômico” entre 1968 e 1973: crescimento do PIB de até 11% ao ano, construção de grandes obras como a Transamazonica e a usina de Itaipu.
Mas esse crescimento não foi distribuido. Pelo contrario: o Índice de Gini piorou durante a ditadura. Em 1960, antes do golpe, ele era de 0,50. Em 1972, no auge do “milagre”, havia subido para 0,61 — o que significa que o crescimento econômico aumentou a desigualdade.
Como? A ditadura comprimiu os salarios pelo controle sindical e pela proibicao de greves. Manteve os trabalhadores rurais sem reforma agrária. Abriu o país para o capital estrangeiro em condições que favoreciam a remessa de lucros para fora. E concentrou os investimentos do Estado em infraestrutura para o capital — não em educação, saúde ou habitação popular.
A frase do ministro da Fazenda Delfim Neto resume a filosofia: “primeiro e preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.” O bolo cresceu. A divisao nunca veio.
A dívida externa como instrumento de controle
Durante a ditadura, o Brasil contraiu uma dívida externa enorme para financiar os projetos de desenvolvimento. Quando a crise do petroleo de 1973 e o aumento dos juros americanos em 1979 explodiram o custo dessa dívida, o Brasil entrou nos anos 1980 — a “década perdida” — com uma crise de endívidamento que entregou o país nas maos do FMI e do Banco Mundial. E foi ai que o controle externo sobre a economia brasileira atingiu seu pico.
Leia também: A independência do Brasil que gerou a dívida externa — a história da dependência financeira externa que comecou muito antes da ditadura.
6. O FMI e o Consenso de Washington: a desigualdade globalizada
Nos anos 1980 e 1990, o Brasil passou por um processó que ficou conhecido como ajuste estrutural — um conjunto de reformas econômicas impostas como condição para receber emprestimos do FMI e do Banco Mundial.
Essas reformas seguiam o chamado “Consenso de Washington”: um receituário elaborado por economistas americanos e pelas instituicoes financeiras internacionais que previa abertura comercial, privatizações de empresas públicas, corte de gastos sociais, desregulamentação financeira e redução do papel do Estado na economia.
O que o ajuste estrutural fez na prática
No Brasil, o ajuste estrutural se traduziu em:
- Privatização de empresas estatais como Vale, CSN, Embraer, bancos públicos estaduais e setores de telefonia e energia
- Abertura comercial acelerada que destruiu setores industriais incapazes de competir com produtos importados mais baratos
- Redução de investimentos em saúde, educação e habitação para cumprir metas de superávit fiscal
- Altas taxas de juros que tornaram o crédito inacessível para pequenos empresarios e trabalhadores
- Contratos trabalhistas mais flexiveis que reduziram a proteção do emprego formal
O resultado foi uma década de estagnação econômica, inflação descontrolada (que destroça a poupanca dos pobres muito mais que a dos ricos) e aumento do desemprego. Quando o Plano Real estabilizou a economia em 1994, ele o fez dentro de uma estrutura que já havia aprofundado a desigualdade.
A crítica que economistas progressistas fazem — e que e fundamentada nos dados — e que o ajuste estrutural do FMI e do Banco Mundial não era neutro. Ele protegia os interesses dos credores internacionais (que queriam garantia de pagamento da dívida) e dos investidores estrangeiros (que queriam mercados abertos e mão de obra barata), ao custo dos trabalhadores e dos pobres dos países em ajuste.
O ajuste que não foi para todos: Enquanto os salarios eram comprimidos, as empresas privatizadas vendidas abaixo do valor de mercado e os serviços públicos cortados, as taxas de juros brasileiras — entre as mais altas do mundo — garantiam rentabilidade extraordinaria para quem tinha capital financeiro aplicado. O ajuste empobrecia o trabalhador e enriquecia o rentista. Não foi acidente. Foi escolha.
7. Os anos 2000 e a redução da desigualdade: o que funcionou e por que parou
Entre 2003 e 2014, o Brasil viveu o período de maior redução de desigualdade de sua história moderna. O Índice de Gini caiu de 0,59 para 0,52. Mais de 30 milhoes de pessoas saíram da pobreza. A classe trabalhadora teve aumento real de salarios. O que aconteceu?
Tres fatores combinados explicam essa mudanca:
- Valorização continua do salario minimo acima da inflação — política que beneficia diretamente os trabalhadores mais pobres
- Expansao dos programas de transferência de renda, especialmente o Bolsa Família — que chegou a 14 milhoes de famílias
- Expansao do emprego formal com carteira assinada, combinada com boom de commodities que aqueceu a economia
Esses resultados mostram algo importante: a desigualdade brasileira não e inevitavel. Ela pode ser reduzida com políticas públicas deliberadas. Quando o Estado decide colocar dinheiro nas maos de quem tem menos — seja por salario minimo, seja por transferência direta, seja por emprego formal –, a desigualdade cai.
Mas o período 2016-2021 mostrou também que a desigualdade pode voltar a crescer rapidamente quando essas políticas sao revertidas. A crise econômica, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a aprovação do teto de gastos — que congelou os investimentos sociais por 20 anos — interromperam o ciclo de redução. O Gini voltou a subir. A pandemia de 2020 aprofundou a crise.
A partir de 2021, com a retomada do Bolsa Família e o mercado de trabalho aquecido, os indicadores voltaram a melhorar. Em 2024, o Gini atingiu 0,506 — o menor da serie histórica. Mas, como aponta o IPEA, 26,8% da população ainda vivia abaixo da linha de pobreza em 2024. O progresso e real, mas o ponto de partida era tao grave que o Brasil ainda esta longe de uma distribuição decente.
8. A desigualdade tem cor: o racismo estrutural como dimensao da pobreza
A desigualdade no Brasil não e apenas econômica. Ela tem cor. E isso não e opiniao — e dado.
Em 2024, segundo o IBGE:
| Indicador racial | Brancos | Negros (pretos e pardos) |
| Rendimento medio por hora trabalhada | R$ 24,60 | R$ 15,00 — 39% menos |
| Rendimento medio (todas fontes) | R$ 4.119 | R$ 2.484 — 65,9% menos |
| Diretores e gerentes — proporção | 17,7% sao diretores | Apenas 8,6% sao diretores |
| Negros com diploma universitario ganham | — | 32% menos que brancos com o mesmo diploma |
| Taxa de desemprego — mulheres negras | Menor | Mais que o dobro que homens não negros |
| Pobreza extrema | 3,1% | 7,4% — mais que o dobro |
| Trabalhadores resgatados de condições analogas a escravidão (2002-2024) | — | 66% sao negros |
Esses números não existem no vacuo. Eles sao a continuação direta da escravidão. Quando africanos foram libertados em 1888 sem terra, sem capital e sem política de inserção, eles e seus filhos e seus netos herdaram a pobreza. E essa pobreza foi amplificada pelo racismo — a discriminação sistematica que, mesmo quando não e declarada, fecha portas, reduz salarios e mantém pessoas negras fora de posições de poder.
O dado mais revelador: negros com diploma universitario ganham 32% menos que brancos com o mesmo diploma. Isso não e falta de qualificação. E discriminação no mercado de trabalho. E uma herança direta de um sistema que durante séculos tratou pessoas negras como propriedade — e que nunca pagou a conta por isso.
Leia também: Intolerancia religiosa e o racismo andam juntos — outra dimensao do racismo estrutural que atravessa todas as esferas da vida brasileira.
9. Os mecanismos de controle: como a elite mantém o sistema
Uma pergunta legítima: se a maioria da população e pobre, por que o sistema não muda? Por que as pessoas que sao prejudicadas pela desigualdade não a eliminam pelo voto?
A resposta envolve varios mecanismos de controle que funcionam ha séculos — e que a ciencia política chama de “manutenção da hegemonia”.
O controle da narrativa: quem conta a história
A grande imprensa brasileira — os principais jornais, emissoras de TV e portais de noticias — e controlada por um grupo muito pequeno de famílias ricas. O Grupo Globo, a Família Marinhos, o Grupo Folha, o Grupo Abril, a Record de Edir Macedo. Esses grupos tem interesses econômicos próprios e históricamente se posicionaram contra reformas que redistribuiriam poder.
Em 1964, a grande imprensa apoiou o golpe. Em 1989, a TV Globo editou o debate entre Lula e Collor de forma que favoreceu Collor. Em 2016, a maioria dos grandes veiculos apoiou o impeachment de Dilma Rousseff. Essa não e uma questão de “tendência política” — e uma questão de interesses de classe.
O sistema tributário regressivo
O sistema de impostos brasileiro e profundamente injusto. Quem tem menos paga proporcionalmente mais.
No Brasil, mais de 45% da arrecadação vem de impostos sobre consumo — ICMS, PIS, COFINS, IPI. Esses impostos sao pagos na hora de comprar qualquer produto. Uma pessoa pobre que gasta 100% de sua renda em consumo paga proporcional a toda a sua renda. Uma pessoa rica que guarda 70% de seu dinheiro em investimentos paga imposto apenas sobre o que consome — uma fatia muito menor de sua renda total.
Enquanto isso, os chamados dividendos — lucros pagos a acionistas de empresas — eram isentos de Imposto de Renda no Brasil até recentemente (a PL de reforma tributária em discussao em 2024 trata disso). Ou seja: quem vive de salario paga IR. Quem vive de patrimônio, não pagava. O sistema era desenhado para proteger quem já tem.
O orçamento como política de classe
Em 2023, o Brasil gastou R$ 851 bilhoes com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Para efeito de comparação: o Bolsa Família custou cerca de R$ 168 bilhoes no mesmo ano — um quinto do que foi para o sistema financeiro.
Quem e dono da dívida pública brasileira? Bancos, fundos de investimento e pessoas ricas que aplicam seu dinheiro em titulos do governo. Portanto, quando o Estado paga juros da dívida, ele transfere dinheiro dos contribuintes para os detentores de capital financeiro. E uma redistribuição de renda — mas ao contrario: dos pobres para os ricos.
A equação da desigualdade financeira: O Brasil cobra impostos regressivos do trabalhador, corta serviços públicos para cumprir metas fiscais, e usa o dinheiro arrecadado para pagar juros a quem tem capital. E uma maquina de transferir renda dos mais pobres para os mais ricos — e ela funciona dentro das regras, de forma completamente legal.
10. O Brasil hoje: o que os dados dizem e o que ainda precisa mudar
Os dados de 2024 trazem um quadro contraditorio.
Por um lado, os indicadores melhoraram. O Gini esta no menor nivel histórico. A extrema pobreza caiu. O mercado de trabalho esta aquecido. Programas sociais como o Bolsa Família estao funcionando. Essas sao vitorias reais, conquistadas por políticas reais.
Por outro lado, o Brasil continua sendo o segundo país mais desigual entre 40 países selecionados da OCDE, perdendo apenas para a Costa Rica. 26,8% da população ainda vive abaixo da linha de pobreza. Os 10% mais ricos ainda ficam com 39,8% de toda a renda. A desigualdade racial persiste em todos os indicadores.
E o progresso recente e frágil. Como o IPEA alerta, ele dependeu de dois fatores que podem mudar: o mercado de trabalho aquecido e os programas sociais. Qualquer reversao nesses dois eixos volta a piorar os indicadores rapidamente — como os anos 2015-2021 já demonstraram.
O que mudaria estruturalmente a desigualdade
Os economistas progressistas que estudam o tema — da CEPAL ao IPEA, de Thomas Piketty a Ladislau Dowbor — apontam caminhos parecidos:
- Reforma tributária progressiva: tributar mais quem ganha mais, reduzir impostos sobre consumo e criar imposto sobre grandes fortunas e heranças
- Reforma agrária: redistribuir terras improdutivas para a agricultura famíliar, que e responsavel por 70% dos alimentos consumidos no Brasil
- Políticas de reparação racial: cotas, reservas de mercado e investimentos direcionados a comunidades históricamente excluidas
- Controle democrático do sistema financeiro: redução das taxas de juros e regulação do capital especulativo
- Fortalecimento dos serviços públicos: saúde, educação, moradia e saneamento universais e de qualidade eliminam a necessidade de pagar pelo que os ricos já tem
- Política industrial ativa: desenvolver setores de alta tecnologia com participação do Estado, como a China e a Coreia do Sul fizeram — reduzindo a dependência de commodities
Nenhuma dessas medidas e nova. E nenhuma e radical no sentido de inexistente — todas existem em alguma forma em países com menos desigualdade. O que elas tem em comum e que mexem com o poder. E quem tem poder resiste.
Conclusão: a desigualdade não e destino, e escolha
A desigualdade no Brasil não e natural. Não e resultado de preguica, nem de falta de talento, nem de “jeito do povo”. Ela foi construida. Peca por peca, lei por lei, decreto por decreto, ao longo de mais de 500 anos.
Foi construida pelas capitanias hereditarias que deram terra a quem já tinha poder. Pela escravidão que acúmulou riqueza sobre corpos humanos. Pela Lei de Terras que fechou a porta antes de abrir a senzala. Pela abolição sem indenização que manteve os libertos em dependência. Pela República que serviu a elite agrária. Pela ditadura que comprimiu salarios enquanto o bolo crescia. Pelo ajuste estrutural que cortou o Estado social para pagar credores internacionais.
Mas a história também mostra que a desigualdade pode ser reduzida. Os anos 2003-2014 provam isso. Quando o Estado decide, a desigualdade cai.
Entender essa história e o primeiro passo. O segundo e saber que ela não acabou — e que as escolhas que fazemos hoje, como sociedade e como cidadaos, vao determinar se os próximos 50 anos vao reproduzir os 500 anteriores ou finalmente romper com esse ciclo.
Compartilhe esse texto. A história do lado do povo só chega longe quando a gente a espalha junto.
Leia também no Outro Lado da História:
-> Escravidão no Brasil: história, abolição e discriminação racial
-> O Trafico Transatlantico como Primeira Globalização
-> A independência do Brasil que gerou a dívida externa
-> Intolerancia religiosa e o racismo andam juntos
Fontes e referências externas:
-> IBGE/PNAD Continua 2024 — Rendimento de todas as fontes
-> IBGE — Sintese de Indicadores Sociais 2024
-> IPEA — Brasil registrou em 2024 recorde de renda e menor nivel de pobreza e desigualdade
-> IBGE — Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil
-> Ministerio do Trabalho — Desigualdade racial persiste no mercado de trabalho
-> DIEESE — Boletim Especial: desigualdade racial de rendimentos 2024
-> Agencia Brasil — Renda de pessoas negras equivale a 58% da de brancas
-> Agencia Brasil — Diretores e gerentes negros ganham 34% menos
-> CNN Brasil — Renda per capita soma recorde em 2024 e desigualdade cai
-> SciELO — Banco Mundial, reforma dos Estados e ajuste das políticas sociais na America Latina-> OXFAM Brasil — Terra, poder e desigualdade na America Latina
