Quando Espanha e Argentina entram em campo, milhões de pessoas acompanham um dos maiores confrontos do futebol mundial. No entanto, muito antes da rivalidade esportiva ganhar força, os dois países viveram uma parceria que mudou a história da Europa.
Há quase 80 anos, a Argentina de Juan Domingo Perón ajudou a manter de pé o governo de Francisco Franco, responsável por uma das ditaduras mais longas do continente europeu. Enquanto boa parte do mundo tentava isolar o regime espanhol depois da Segunda Guerra Mundial, Buenos Aires fez exatamente o contrário: abriu crédito, enviou alimentos e se tornou a principal aliada internacional da Espanha entre 1946 e o início da década de 1950.
A Espanha de Franco ficou isolada após a Segunda Guerra Mundial
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, em 1945, a maior parte da Europa comemorava a derrota do nazismo e do fascismo. Já a Espanha seguia sob o comando do general Francisco Franco, que havia vencido a Guerra Civil Espanhola em 1939 e instalado uma ditadura que duraria até sua morte, em 1975.
O regime franquista marcou a Espanha com forte repressão política. O governo proibiu partidos de oposição, dissolveu sindicatos independentes e impôs censura sobre jornais, livros, rádios e manifestações culturais. As autoridades prenderam, torturaram ou executaram milhares de opositores, principalmente nos primeiros anos da ditadura. Historiadores estimam que o regime fuzilou dezenas de milhares de pessoas após o fim da Guerra Civil, enquanto enviou centenas de milhares para prisões, campos de trabalho forçado ou o exílio. Além disso, o governo reprimiu identidades regionais, como a catalã e a basca, ao proibir o uso público de seus idiomas.
Embora o país não tenha participado oficialmente da guerra, Franco manteve fortes ligações com Adolf Hitler e Benito Mussolini. Afinal, os dois ditadores haviam sido fundamentais para sua vitória durante a Guerra Civil, enviando tropas, aviões e armamentos. Por causa dessa proximidade, a Espanha passou a ser vista com enorme desconfiança pelas democracias ocidentais.
Em 1946, a recém-criada ONU recomendou que seus membros retirassem os embaixadores de Madri. Ao mesmo tempo, o país ficou fora do Plano Marshall, o programa americano que injetou bilhões de dólares na reconstrução da Europa. Na prática, isso significava isolamento político total e asfixia econômica.
🌾 Os “Anos da Fome” colocaram o regime em risco
O isolamento internacional agravou problemas que já existiam desde o fim da guerra civil interna. Grande parte da infraestrutura espanhola estava destruída e a produção agrícola despencou. Para piorar, o governo insistia na “autarquia”, uma política econômica que buscava tornar o país autossuficiente, limitando drasticamente as importações.
O resultado foi desastroso. Entre o fim da década de 1930 e os primeiros anos da década de 1950, a Espanha viveu os Años del Hambre (“Anos da Fome”). Faltavam alimentos, combustíveis e produtos básicos. Milhares de famílias dependiam do racionamento e longas filas para conseguir pão, leite e carne viraram rotina, alimentando um mercado ilegal inflamado pela inflação.
Foi então que surgiu um aliado inesperado do outro lado do Atlântico.
🤝 A Argentina de Perón decidiu apoiar Franco
Em 1946, poucos meses após assumir a presidência, Perón assinou acordos comerciais que garantiram o envio de milhões de toneladas de trigo e carne para a Espanha, além de linhas de crédito flexíveis que permitiram ao regime espanhol importar produtos mesmo sem reservas financeiras.
Esse apoio não era apenas econômico; também representava um importante gesto político.. A relação também possuía um forte componente ideológico. Antes de chegar à Presidência, Perón serviu como oficial militar na Itália entre 1939 e 1941, onde observou de perto o regime de Mussolini. Embora o peronismo tenha desenvolvido características próprias e não possa ser simplesmente equiparado ao fascismo europeu, Perón admirava o corporativismo e o nacionalismo econômico.
A cooperação foi formalizada em outubro de 1946 com o Protocolo Franco-Perón.
👑 A visita de Eva Perón virou um grande espetáculo político
Se Perón enviou o trigo, sua esposa, Evita Perón, transformou essa aproximação em um show de relações públicas. Em junho de 1947, ela desembarcou em Madri durante a famosa viagem Gira del Arco Iris (“Gira do Arco-Íris”).
Durante vários dias, Eva foi recebida com honras de chefe de Estado. Milhares de espanhóis ocuparam as ruas para vê-la passar ao lado de Franco. Para o ditador espanhol, era a oportunidade perfeita de mostrar ao mundo que seu governo não estava sozinho; para Perón, a viagem projetava a Argentina como uma potência independente e influente no cenário global.
🌎 Perón não ajudou Franco apenas por amizade
Seria um erro imaginar que Perón agiu por mera solidariedade. A própria Argentina enfrentava desconfiança internacional por ter mantido neutralidade durante quase toda a Segunda Guerra Mundial, demorando a romper com o Eixo.
Perón queria demonstrar autonomia frente aos Estados Unidos e à União Soviética, consolidando o que chamava de Terceira Posição. A aproximação com a Espanha era estratégica: além de conquistar um parceiro político na Europa, a Argentina garantia um mercado consumidor garantido para seus enormes excedentes agrícolas.
🇺🇸 A Guerra Fria mudou completamente o cenário
Com o avanço da Guerra Fria na década de 1950, o tabuleiro geopolítico mudou. Os Estados Unidos passaram a enxergar a Ditadura na Espanha não mais como um ex-aliado do fascismo, mas como um valioso ativo anticomunista na Europa.
Em 1953, Madri e Washington assinaram os Pactos de Madri, permitindo bases militares americanas em solo espanhol em troca de ajuda econômica. Em 1955, a Espanha ingressou na ONU, encerrando seu isolamento e diminuindo drasticamente a dependência da Argentina.
No entanto, a história guardou uma última ironia para essa aliança. Em 1955, o próprio Juan Domingo Perón sofreu um golpe militar e foi deposto na Argentina. O destino final de seu exílio foi justamente a Madri de Francisco Franco. O líder argentino viveu protegido pelo ditador espanhol por mais de uma década, em uma elegante residência na capital espanhola, até sua volta triunfal à Argentina nos anos 70.
A parceria entre Buenos Aires e Madri não garantiu, sozinha, a sobrevivência do franquismo, mas deu ao regime de Franco tempo, crédito e alimentos para atravessar seus anos mais difíceis

