Leônidas da Silva: o homem que inventou a bicicleta e foi apagado pela história do futebol

Se você perguntar quem inventou a bicicleta no futebol, a maioria das pessoas vai hesitar. Alguns vão dizer Pelé. Outros vão dizer que é técnica italiana. Poucos vão dizer o nome certo. É Leônidas da Silva.

Quem foi Leônidas

Leônidas nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Era filho de uma família pobre, negro, e se tornou jogador profissional num tempo em que o futebol brasileiro ainda tinha dificuldade de aceitar jogadores negros como protagonistas.

Jogou no Vasco, no Botafogo, no São Paulo. Ficou conhecido como o “Diamante Negro” e como o “Homem Borracha”. Isso porque era famoso pela elasticidade e pela capacidade de fazer gols acrobáticos que ninguém mais conseguia.

A bicicleta, o chute de costas para o gol, era sua marca registrada. Documentada, filmada, atribuída a ele por cronistas da época.

A Copa de 1938

A Copa de 1938 aconteceu na França, num momento de tensão política enorme — a Segunda Guerra Mundial começaria um ano depois. O Brasil foi com uma delegação que incluía jogadores negros de forma mais central do que nas edições anteriores, mas ainda com muitas restrições.

Leônidas foi o maior jogador do torneio. Artilheiro da Copa com oito gols. O favorito para a final. No entanto, foi deixado de fora da semifinal contra a Itália.

A decisão e quem a tomou

A justificativa oficial foi “descanso”. Leônidas estava cansado, de acordo com os dirigentes. Precisava ser poupado para a final.

O Brasil perdeu a semifinal para a Itália por 2 a 1. Sendo assim, não foi à final.

Leônidas jogou a disputa do terceiro lugar. Para a qual, aparentemente, já estava suficientemente descansado e marcou dois gols.

Quem tomou a decisão de deixá-lo fora da semifinal foi Adhemar Pimenta. O técnico e os dirigentes da delegação eram brancos, de famílias tradicionais do futebol paulista e carioca.

Nenhum deles deixou um documento explicando a decisão. Portanto, nenhuma explicação convincente emergiu depois.

O racismo no futebol dos anos 1930

Vale destacar que a situação ocorreu em um momento que o futebol brasileiro ainda carregava muitas marcas da escravidão e da exclusão racial. Isso porque a abolição tinha acontecido apenas cinquenta anos antes da Copa de 1938. Em termos históricos, era um intervalo muito curto.

Nas primeiras décadas do século XX, muitos clubes brasileiros nasceram em ambientes frequentados pelas elites urbanas. Em vários deles, jogadores negros eram desencorajados ou simplesmente impedidos de participar. Quando conseguiam espaço, precisavam lidar com exigências que não eram impostas aos atletas brancos.

Um dos exemplos mais conhecidos aconteceu nos anos 1910 e 1920. Quando clubes como o Vasco da Gama foram pressionados para retirar jogadores negros de seu elenco.

Mesmo após a profissionalização do esporte em 1933, os preconceitos continuaram presentes. Dirigentes, jornalistas e setores da sociedade frequentemente associavam disciplina, inteligência tática e liderança a jogadores brancos, enquanto atletas negros eram elogiados apenas por características físicas ou instintivas. Essas ideias influenciavam convocações, oportunidades e a forma como os jogadores eram retratados pela imprensa.

Por isso, a discussão sobre sua ausência na semifinal de 1938 continua despertando interesse. Ela não envolve apenas uma decisão técnica. Também remete a um período em que questões raciais influenciavam profundamente as oportunidades disponíveis para jogadores negros dentro e fora dos gramados.

O que os contemporâneos disseram

Cronistas esportivos da época questionaram a decisão. Mario Filho, o jornalista que mais escreveu sobre futebol e raça no Brasil daquele período, apontou a estranheza da escolha.

A pergunta ficou sem resposta. E Leônidas voltou ao Brasil sem o título que parecia estar ao alcance.

O esquecimento e seus mecanismos

Nos anos seguintes, a Europa foi construindo seus próprios mitos do futebol. A Copa de 1938 ficou na memória coletiva europeia como a última antes da guerra, com a Itália bicampeã. Sendo assim, Leônidas ficou numa nota de rodapé.

No Brasil, a narrativa do futebol foi sendo construída em torno de 1950, de 1958, de Pelé. Leônidas ficou num lugar secundário. Portanto, “o precursor”, “o pioneiro” ficou sem o reconhecimento pleno de quem foi o melhor jogador do mundo no torneio que disputou.

O primeiro grande ídolo negro do futebol brasileiro

Quando Leônidas da Silva explodiu no futebol brasileiro, o país ainda não tinha produzido Pelé, Garrincha ou Zico. O jogador que mobilizava multidões, vendia jornais e atraía torcedores para os estádios era ele.

Sua ascensão começou nos anos 1930, período em que o futebol deixava de ser um passatempo das elites urbanas para se transformar num fenômeno de massas. Leônidas foi um dos rostos dessa transformação. No Vasco e, principalmente, no Flamengo, conquistou uma popularidade raramente vista até então.

A Copa do Mundo de 1938 ampliou ainda mais esse fenômeno. Enquanto a Europa caminhava para a guerra, os jornais franceses tratavam Leônidas como uma das grandes estrelas do torneio. Com oito gols marcados, tornou-se artilheiro da competição e ajudou a projetar internacionalmente uma imagem do futebol brasileiro associada à criatividade, à improvisação e à habilidade técnica.

Poucos anos depois, já defendendo o São Paulo, continuou sendo um dos jogadores mais famosos do país. Sua popularidade era tão grande que ultrapassou o esporte. Em 1940, a empresa Lacta lançou o chocolate Diamante Negro. O nome era uma homenagem e fazia referência ao apelido que Leônidas carregava desde o início da carreira. Mais de oitenta anos depois, milhões de brasileiros conhecem o chocolate, mas poucos sabem que ele foi criado para celebrar um jogador negro que se tornou uma das figuras mais famosas do país.

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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