João Saldanha: o treinador que a ditadura não conseguiu calar — até conseguir

Imagine um comunista assumido comandando a seleção brasileira às vésperas de uma Copa do Mundo. Parece improvável, mas aconteceu. E o que aconteceu depois diz muito sobre o Brasil.

Quem era João Saldanha

João Saldanha foi uma das figuras mais incomuns da história do futebol brasileiro. Ao mesmo tempo em que trabalhava como jornalista esportivo, também era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e nunca escondeu suas posições políticas. Além disso, construiu carreira como treinador e ganhou destaque ao comandar o Botafogo de Garrincha nos anos 1950.

Em 1969, assumiu a seleção brasileira num momento de desconfiança. Rapidamente, porém, transformou a equipe. O Brasil venceu todos os jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970 e recuperou a confiança da torcida. Ainda assim, sua passagem pela seleção terminaria antes do torneio mais importante de sua carreira.

O que a ditadura via naquele homem

O regime militar que governava o Brasil desde 1964 usava o futebol como vitrine. O “milagre econômico” precisava de uma imagem de país que funcionava — e uma Copa vencida serviria muito bem.

O problema era que Saldanha não estava disposto a ser vitrine de ninguém.

Ele criticava a comissão técnica. Ignorava pressões de dirigentes. E, o mais grave para o regime: tinha uma voz pública, um microfone no rádio e uma posição política conhecida por todos.

Emílio Médici, o presidente-ditador, gostava de futebol e tinha um jogador favorito: Dario, atacante do Atlético Mineiro. Saldanha não convocou Dario. E disse isso publicamente, com a naturalidade de quem manda na própria escalação.

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A versão oficial e a versão real

A CBD, que tinha a função que hoje é da CBF, e o governo contaram a seguinte história: Saldanha foi demitido por “problemas de relacionamento” com Pelé. Teria havido uma briga. Incompatibilidade técnica. Desgaste natural.

Mas os fatos que vieram depois e os relatos de jornalistas, jogadores e funcionários da época apontam para outra direção.

Quando perguntaram sobre Médici querer Dario na seleção, Saldanha teria respondido:

“Eu não escalo o ministério dele e ele não escala meu time.”

A pressão foi direta. Médici queria Saldanha fora. A CBD, dependente do governo, fez o que devia fazer. E o pretexto com Pelé foi conveniente: colocava dois ícones em conflito e tirava o foco do regime.

Saldanha foi demitido em março de 1970. Três meses depois, o Brasil era tricampeão no México.

O futebol como vitrine do AI-5

É importante entender o contexto. O AI-5 tinha sido assinado em dezembro de 1968. Esse decreto fechou o Congresso, cassou mandatos, suspendeu o habeas corpus e deu ao regime poderes totais. A repressão da Ditadura Militar atingiu seu ponto mais brutal nos anos seguintes.

Nesse cenário, a Copa de 70 não era só esporte. Era comunicação política.

O regime precisava mostrar para o Brasil e para o mundo que o país ia bem. Uma Copa vencida era o argumento perfeito. Mas para isso, precisava de um treinador que não fizesse comentários que não agradassem o comando militar.

O que Saldanha disse depois

Depois da demissão, Saldanha continuou trabalhando como jornalista. Não se calou. Pelo contrário, foi um dos poucos intelectuais públicos a manter uma voz crítica durante o período mais duro da ditadura.

Ele falava sobre futebol, claro. Mas falava também sobre política, sobre classe, sobre o Brasil que via ao redor.

Em entrevistas, nunca escondeu o que pensava sobre sua demissão. Disse, com todas as letras, que foi político. Que o regime não tolerava um comunista na função mais simbólica do esporte nacional.

João Saldanha era comunista?

Sim. João Saldanha era filiado ao Partido Comunista Brasileiro e nunca tentou esconder isso, mesmo durante a ditadura militar. Enquanto muitos evitavam falar de política por medo da repressão, ele mantinha suas convicções publicamente.

Por causa dessa postura, tornou-se uma figura incômoda para parte do regime. Afinal, não era comum ver um comunista ocupando um dos cargos mais simbólicos do país: o comando da seleção brasileira. Ainda assim, Saldanha recusava a ideia de separar completamente futebol e política. Para ele, ambos faziam parte da mesma realidade brasileira.

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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