Copa do Mundo 2026: a história dos 48 países participantes; Revista da Copa grátis

A Copa do Mundo de 2026 é diferente de todas as outras. Pela primeira vez, 48 seleções participam do torneio. Pela primeira vez, três países sediam juntos — Estados Unidos, México e Canadá. E, pela primeira vez, o mundo do futebol reúne num mesmo evento quase 40% da população do planeta.

Mas o que está em campo vai muito além da bola.

Cada uma dessas 48 seleções carrega uma história antes do primeiro apito. Guerras de independência, impérios coloniais, ditaduras militares, revoluções e rivalidades que nasceram em campos de batalha — e que chegaram até os gramados. Neste especial, o Outro Lado da História organizou toda essa bagagem numa linha do tempo de 2.576 anos, do Império Persa de Ciro, o Grande até a criação de Curaçao em 2010.

Aqui você encontra quatro grandes materiais. Primeiro, a linha do tempo completa do mundo antes da Copa. Depois, uma análise dos grandes temas históricos que conectam as seleções. Em seguida, um especial sobre as ditaduras que usaram o futebol como ferramenta de poder. E, por fim, um mapa das maiores rivalidades com raízes históricas.

Grandes temas históricos da Copa — os fios que conectam as seleções

Cinco impérios respondem pela esmagadora maioria do passado colonial dos países da Copa. A Grã-Bretanha dominou 18 deles. A França controlou 14. A Espanha colonizou 12. Portugal deixou sua marca em sete. E a Holanda dominou quatro.

Além disso, vários países não negociaram a liberdade — eles a arrancaram pela força. A Argélia travou oito anos de guerra contra a França. O México enfrentou 11 anos de conflito armado contra a Espanha. A Croácia conquistou a independência depois de uma guerra que destruiu cidades inteiras. E a Colômbia chegou à liberdade pela campanha de Bolívar, que atravessou os Andes numa das operações militares mais audaciosas da história.

Ditaduras que usaram o futebol — o esporte como instrumento de poder

Regimes autoritários entenderam antes de qualquer consultor de marketing que o futebol move multidões. Por isso usaram o esporte para legitimar poder, desviar atenção e construir uma imagem de nação que não existia fora dos estádios.

Mussolini mandou construir estádios monumentais, escolheu árbitros favoráveis e pressionou a seleção italiana diretamente. A Itália ganhou as Copas de 1934 e 1938 — e a FIFA nunca questionou nenhum dos dois títulos.

A Copa de 1978 aconteceu na Argentina de Videla, que havia assassinado ou desaparecido milhares de opositores. A poucos quilômetros dos estádios funcionavam centros clandestinos de tortura. A seleção argentina ganhou o título após uma vitória suspeita de 6 a 0 sobre o Peru — resultado que décadas depois ex-oficiais confirmaram ter sido negociado pelo regime.

No Brasil, o general Médici usou o tricampeonato de 1970 como propaganda imediata, com jingles e cartazes, enquanto o DOI-CODI torturava presos políticos em São Paulo e no Rio. A euforia do futebol foi cuidadosamente administrada como anestesia coletiva.

Franco usou o Real Madrid como instrumento de soft power por décadas. Quando a Espanha sediou a Copa em 1982, Franco já estava morto — mas o torneio funcionou como vitrine da transição democrática.

Mais recentemente, a Arábia Saudita usa o futebol como sportswashing — compra de legitimidade internacional via esporte, recrutando Neymar, Benzema e Cristiano Ronaldo enquanto dissidentes são executados. O modelo é novo. A lógica é a mesma.

México

O México foi sede de um dos maiores impérios do mundo pré-colombiano. Foi conquistado por menos de 600 espanhóis. Perdeu metade do seu território para os Estados Unidos. E ainda assim segue de pé — misturado, contraditório e orgulhoso.

Quando Hernán Cortés chegou em 1519, encontrou Tenochtitlán — uma metrópole de 200 mil habitantes construída sobre um lago, com aquedutos, mercados, templos e uma burocracia sofisticada. Era a capital do Império Asteca. Cortés derrubou tudo em 1521. A Nova Espanha nasceu sobre os escombros do Império Mexica. A colonização espanhola durou três séculos e dizimou entre 50% e 90% da população indígena por doenças, trabalho forçado e violência direta.

O padre Hidalgo convocou o povo à revolta em 1810 com o Grito de Dolores. Onze anos de guerra e mais de 600 mil mortos depois, o México declarou independência em 1821. Mas a independência foi negociada e preservou muitas das estruturas coloniais de poder. Em 1848, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, o México cedeu aos Estados Unidos cerca de 55% do seu território — Texas, Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada e Utah. Cidades como Los Angeles, San Francisco e San Antonio eram cidades mexicanas. Pagaram 15 milhões de dólares por isso. O México nunca esqueceu essa ferida.

África do Sul

A África do Sul foi o único país do mundo a transformar o racismo em sistema jurídico completo. O apartheid não era preconceito tolerado — era lei, era polícia, era prisão. Demorou décadas para derrubar. E a cicatriz ainda sangra.

O sul da África era habitado há pelo menos 100 mil anos antes dos europeus chegarem. Os San, os khoikhoi e os povos bantu — zulus, xhosas, sothos, tswanas — formaram reinos com estruturas políticas sofisticadas. Quando os europeus chegaram, não encontraram o vazio. Encontraram civilizações.

Os portugueses dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1488. Os holandeses chegaram em 1652 e fundaram uma base de abastecimento. Seus descendentes — os afrikaners — desenvolveram uma identidade própria, uma língua própria e uma ideologia que afirmava terem sido escolhidos por Deus para dominar aquela terra. Os britânicos tomaram o Cabo em 1806. O resultado foi a Guerra dos Bôeres (1899–1902), onde os britânicos inventaram os campos de concentração modernos para subjugar os afrikaners. O povo negro, que perderia tudo com qualquer resultado, não tinha lado nessa guerra.

Coreia do Sul

A Coreia sobreviveu a séculos de invasões japonesas e chinesas, a uma colonização brutal de 35 anos, a uma guerra que matou 3 milhões de pessoas e a uma divisão artificial que dura até hoje. E ainda assim se tornou uma das economias mais avançadas do mundo. Isso não foi milagre — foi resistência.

A civilização coreana remonta a pelo menos 2333 a.C. Em 1910, o Japão anexou a Coreia e tentou sistematicamente destruir a identidade coreana. Proibiu o idioma nas escolas. Forçou os coreanos a adotar nomes japoneses. Recrutou mulheres — as chamadas “mulheres de conforto” — para servir sexualmente o exército japonês. Estima-se que entre 100 e 200 mil coreanas foram escravizadas dessa forma. O Japão nunca pediu desculpas de forma satisfatória. A ferida entre os dois países permanece aberta até hoje.

Em 2002, os dois países co-sediaram a Copa do Mundo — num gesto diplomático que muitos coreanos consideraram prematuro. A Coreia chegou às semifinais naquele torneio.

República Tcheca

A República Tcheca ficou independente há apenas 30 anos — mas Praga tem mil. O país foi dominado pelos Habsburgos por 300 anos, pelos nazistas, pelos soviéticos. E toda vez que a ocupação acabou, a resistência cultural tcheca estava intacta.

O território tcheco era o coração do Reino da Boêmia — uma das entidades políticas mais poderosas da Europa medieval. Foi de Praga que saiu a primeira grande revolução religiosa da história europeia: Jan Hus pregou contra a corrupção da Igreja Católica um século antes de Lutero. Foi queimado vivo em 1415. Seus seguidores pegaram em armas e derrotaram os exércitos imperiais cinco vezes seguidas.

Em 1620, os tchecos foram derrotados pelos Habsburgos católicos. Por três séculos, governar a Boêmia significava falar alemão. E ainda assim, a língua tcheca sobreviveu.

Canadá

O Canadá se apresenta ao mundo como tolerante — mas ainda deve muito aos seus primeiros habitantes.

Quando os primeiros europeus chegaram, o território canadense era habitado por mais de 600 povos distintos. Os haidas construíam casas monumentais. Os haudenosaunee operavam uma confederação democrática tão avançada que alguns historiadores argumentam que influenciou a Constituição dos Estados Unidos.

Os franceses chegaram primeiro, no início do século XVI. Os ingleses avançaram pelo leste. Os dois impérios se enfrentaram na Guerra dos Sete Anos (1756–1763), decidida em Quebec. A França cedeu quase todo o Canadá. Os povos indígenas, que haviam lutado ao lado de ambos como aliados estratégicos, não foram consultados sobre o resultado. Até o século XX, o governo canadense manteve uma política explícita de apagamento cultural — internatos onde crianças indígenas eram separadas de suas famílias e proibidas de falar suas línguas.

Bósnia e Herzegovina

Sarajevo foi a cidade onde o século XX começou — com o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand em 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial. Oitenta anos depois, foi também onde a Europa assistiu ao primeiro genocídio em seu território desde o Holocausto.

A Bósnia medieval foi um reino independente com uma identidade religiosa própria. Em 1463, o Império Otomano conquistou o território. Quatro séculos de domínio otomano deixaram Sarajevo como uma das cidades mais cosmopolitas dos Bálcãs — mesquitas, sinagogas, igrejas católicas e ortodoxas a poucos quarteirões de distância.

Após as Guerras Mundiais, a Bósnia tornou-se parte da Iugoslávia de Tito. O país comunista multilinguístico e multiétnico conseguiu algo raro: manter sérvios, croatas e bósnios numa federação relativamente estável por décadas. Quando Tito morreu em 1980, a estrutura começou a rachar. A Iugoslávia se dissolveu em sangue nos anos 1990.

Catar

Em 1940, o Catar era um dos territórios mais pobres do mundo árabe — pescadores de pérolas numa península árida. Em 2022, sediou a Copa do Mundo mais cara da história. O que aconteceu no meio é uma história de petróleo, gás natural, poder absoluto de uma família — e de mais de um milhão de trabalhadores migrantes que construíram tudo isso com as próprias mãos, muitas vezes sem escolha.

A família Al Thani estabeleceu controle político sobre a região no século XIX. Em 1916, o Catar assinou um tratado com a Grã-Bretanha, tornando-se protetorado britânico. A independência chegou em 1971, sem guerra, sem revolução. Em 1995, o emir Hamad bin Khalifa Al Thani derrubou o próprio pai num golpe palaciano e acelerou a modernização. Foi ele quem fundou a Al Jazeera — a rede que mudou o jornalismo árabe e incomodou governos do mundo inteiro. A Copa de 2022, segundo o Guardian, custou a vida de mais de 6.500 trabalhadores migrantes nas obras. A FIFA recebeu bilhões. Nenhum dirigente foi processado.

Suíça

A Suíça vende ao mundo a imagem do país neutro, pacífico, eficiente e rico. Mas essa neutralidade foi construída sobre séculos de mercenários exportados para guerras alheias, bancos que guardaram o ouro nazista durante a Segunda Guerra, e um sistema político que excluiu as mulheres do voto até 1971.

A Suíça nasceu em 1291 quando três cantões alpinos firmaram um pacto de defesa mútua contra os Habsburgos. O que tornou essa aliança duradoura foi o surpreendente: os camponeses suíços desenvolveram táticas militares que derrotaram repetidamente a cavalaria medieval europeia, considerada invencível. A reputação militar suíça se espalhou pela Europa — e virou exportação. Por séculos, a principal exportação suíça foi gente. Mercenários suíços lutaram em exércitos de toda a Europa. A Guarda Suíça do Vaticano é o último resquício dessa tradição. A neutralidade oficial chegou no Congresso de Viena de 1815 — não por pacifismo, mas por pragmatismo geopolítico.

Brasil

O Brasil importou mais africanos escravizados que qualquer outro país do mundo — cerca de 4,9 milhões de pessoas. Foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão. E ainda carrega, no mapa da desigualdade, o desenho exato desse passado.

Quando Pedro Álvares Cabral chegou em 1500, o território era habitado por entre 2 e 5 milhões de pessoas, distribuídas em centenas de povos com línguas, culturas e organizações políticas distintas. Em menos de um século após o contato europeu, as doenças trazidas pelos portugueses dizimaram entre 80% e 90% dessa população.

Portugal não veio ao Brasil para construir uma civilização. Veio para extrair. Primeiro o pau-brasil, depois o açúcar, depois o tráfico transatlântico de africanos escravizados — o maior fluxo forçado de seres humanos da história. Cerca de 4,9 milhões de africanos foram trazidos ao Brasil entre 1500 e 1888. O Brasil que existe hoje — sua comida, sua música, sua religiosidade, seu corpo — é, em grande parte, uma criação africana.

A independência veio em 1822, ainda sob a condução de um príncipe português. A ditadura militar que durou de 1964 a 1985 usou o tricampeonato de 1970 como propaganda enquanto torturava opositores. O Maracanazo de 1950 deixou um trauma que definiu a identidade do futebol brasileiro por décadas. E o 7 a 1 da Alemanha em 2014 abriu uma ferida nova no mesmo lugar.

Marrocos

Marrocos existia como reino organizado antes da maioria dos países europeus existir. Resistiu à colonização otomana — o único país árabe a conseguir isso. Sobreviveu ao protetorado francês e espanhol. E em 2022, mandou a seleção às semifinais da Copa do Mundo, carregando nas costas os sonhos de 1,5 bilhão de pessoas do mundo árabe e africano.

Antes de qualquer conquista, Marrocos era território dos berberes — ou amazighs, como preferem ser chamados, palavra que significa “homens livres”. São o povo original do norte da África, com presença documentada há pelo menos 10 mil anos. O Reino de Marrocos foi fundado pela dinastia Idrissida em 789. Em 1912, o Tratado de Fez transformou Marrocos em protetorado francês. A resistência foi imediata: Abd el-Krim derrotou um exército espanhol de 20 mil homens na Batalha de Annual em 1921 — uma das maiores derrotas coloniais da história — e fundou a efêmera República do Rife. Foi esmagado pela aliança franco-espanhola, com uso de armas químicas. A independência chegou em 1956, liderada pelo rei Mohammed V.

Haiti

O Haiti fez o impossível: em 1804, escravizados africanos derrotaram o exército de Napoleão Bonaparte e fundaram a primeira república negra livre do mundo. Por esse ato de ousadia, a França cobrou uma indenização equivalente a 21 bilhões de dólares atuais — que o Haiti terminou de pagar só em 1947. O país mais pobre das Américas foi empobrecido por design.

A colônia de Saint-Domingue produzia cerca de 40% do açúcar e 50% do café consumidos na Europa. Esse feito econômico extraordinário tinha um fundamento monstruoso: meio milhão de africanos escravizados, submetidos a condições tão brutais que a expectativa de vida de um recém-chegado era de sete anos.

Na noite de 14 de agosto de 1791, numa cerimônia de vodu numa floresta chamada Bois Caïman, líderes escravizados juraram lutar pela liberdade. A revolta liderada por Toussaint Louverture derrotou sucessivamente os exércitos francês, espanhol e britânico. Em 1804, o Haiti declarou independência. Jean-Jacques Dessalines rasgou o branco da bandeira tricolor francesa e costurou o azul e o vermelho — criando a bandeira haitiana. O branco — símbolo dos colonizadores — não tinha lugar ali.

Escócia

A Escócia não é um país que foi colonizado — é uma nação que foi absorvida por um vizinho mais poderoso, perdeu sua independência por dívida e traição em 1707, e passou os 300 anos seguintes tentando reconquistá-la pelas urnas. Em 2014, perdeu por 55% a 45%. O debate não acabou.

O norte da ilha britânica foi habitado pelos pictos — povo celta cujo nome deriva das tatuagens e pinturas corporais que usavam. Os romanos nunca dominaram a Escócia. Construíram a Muralha de Adriano para se proteger. No século IX, o rei Kenneth MacAlpin unificou os reinos picto e escocês, fundando o Reino da Alba. Por séculos, a Escócia foi um reino independente, com sua própria lei, sua própria Igreja e sua própria política.

Em 1314, na Batalha de Bannockburn, Robert Bruce derrotou um exército inglês três vezes maior. Foi uma das maiores vitórias militares da história escocesa — e garantiu a independência do reino por mais três séculos. Em 1707, o Ato de União integrou a Escócia à Grã-Bretanha. O futebol escocês tem uma identidade própria e feroz, e a seleção carrega esse peso cada vez que entra em campo.

Estados Unidos da América

Os EUA se apresentam ao mundo como o berço da liberdade e da democracia. Foram fundados por homens que escreveram que “todos os homens são criados iguais” — enquanto possuíam escravizados. Esse abismo entre o discurso e a prática é a chave para entender tudo que aconteceu depois.

Quando os europeus chegaram, o continente norte-americano era habitado por centenas de povos distintos. Os haudenosaunee operavam uma confederação democrática sofisticada. Os cherokees tinham um sistema de escrita próprio. Os sioux dominavam as planícies. Os astecas e maias ao sul construíam cidades monumentais. Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas viviam nas Américas antes de 1492. As guerras, as doenças e as políticas deliberadas de extermínio reduziram essa população a menos de 10% em poucos séculos.

A independência americana em 1776 foi uma revolução — mas de um tipo específico. Os líderes eram majoritariamente proprietários brancos ricos, muitos deles donos de escravizados. Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência, possuía mais de 600 escravizados ao longo da vida. A Constituição contava os escravizados como três quintos de uma pessoa para fins de representação. Em 1848, os EUA venceram a guerra contra o México e tomaram 55% do território mexicano.

Paraguai

O Paraguai é o único país das Américas que tem uma língua indígena como idioma oficial ao lado do espanhol — mais de 90% da população fala guarani. Sobreviveu à guerra mais devastadora da história sul-americana, que matou entre 60% e 70% de sua população. E ainda carregou por décadas a ditadura mais longa da América Latina.

Os guaranis eram agricultores, guerreiros e com uma espiritualidade profunda baseada na busca da “Terra Sem Mal” — um paraíso terrestre onde o sofrimento não existe. Quando os espanhóis chegaram em 1537, a relação foi diferente de outras conquistas: houve mais miscigenação do que extermínio direto. Os jesuítas chegaram no século XVII e fundaram as Reduções — comunidades autônomas que protegiam os guaranis da escravidão, ensinando artesanato, música e agricultura. Foram expulsas pela Coroa em 1767.

A Grande Guerra do Paraguai (1864–1870), onde o país lutou contra Brasil, Argentina e Uruguai ao mesmo tempo, foi a mais sangrenta da história sul-americana. Matou entre 60% e 70% da população total — e até 90% dos homens adultos.

Austrália

Os aborígenes australianos têm a cultura contínua mais antiga do mundo — pelo menos 65 mil anos de presença documentada no continente. Os britânicos chegaram em 1788, declararam a terra “vazia” sob a doutrina da terra nullius e começaram a construir uma colônia penal. O que se seguiu foi um dos apagamentos culturais mais sistemáticos da história moderna.

Os aborígenes e os dos Estreitos de Torres habitam a Austrália há pelo menos 65 mil anos. Desenvolveram um sistema sofisticado de gestão da terra usando queimadas controladas. Suas Songlines — rotas de cantos que mapeiam o território através de histórias e melodias — constituem um sistema de conhecimento geográfico, espiritual e histórico sem paralelo no mundo. Não eram “primitivos” — eram especialistas profundos num ambiente que os europeus nunca conseguiram entender sem sua ajuda.

Em 1788, a frota britânica chegou à Baía de Botany com 1.487 pessoas — dos quais 778 eram presidiários condenados. Para justificar a ocupação, os britânicos invocaram a doutrina de terra nullius — terra de ninguém. Em algumas regiões, a população aborígene foi reduzida em mais de 90% em menos de um século.

Turquia

A Turquia ocupa o lugar do Império Otomano — o Estado que governou o Oriente Médio, o norte da África e os Bálcãs por 600 anos. Quando o império desmoronou após a Primeira Guerra, nasceu uma república laica construída à força por um general revolucionário. Hoje o país oscila entre esse passado secular e um presente cada vez mais islâmico.

A Anatólia tem 9 mil anos de civilização urbana documentada. Foi berço dos hititas, dos frígios e dos lídios — inventores da moeda metálica. Constantinopla, fundada em 330 d.C., foi capital do Império Bizantino por mais de mil anos. Os turcos otomanos conquistaram a cidade em 1453 e construíram um império que no auge controlava três continentes.

Durante a Primeira Guerra, o governo dos Jovens Turcos deportou e massacrou sistematicamente a população armênia. Estimativas apontam entre 600 mil e 1,5 milhão de mortos. A Turquia enquadra isso como “mortes em tempos de guerra”. O negacionismo envenenou as relações com a Armênia e com a diáspora global por mais de um século — e é uma ferida aberta na consciência histórica do país.

Alemanha

A Alemanha inventou a imprensa, a Reforma Protestante e a filosofia moderna. Também produziu o nazismo e o Holocausto — o assassinato sistemático de 6 milhões de judeus. A grandeza e o horror vêm do mesmo lugar: a capacidade alemã de organizar e executar com eficiência absoluta.

O território alemão resistiu a Roma — os romanos nunca cruzaram o Reno com domínio permanente. Séculos de fragmentação geraram algo único: uma cultura intelectual extraordinária espalhada por cidades independentes. A Alemanha como nação unificada só existiu a partir de 1871, quando Bismarck unificou os estados sob a Prússia. Tinha menos de 50 anos de existência quando iniciou a Primeira Guerra Mundial.

Após a Primeira Guerra, a Alemanha criou a República de Weimar — uma das constituições mais progressistas do mundo. Mas o Tratado de Versalhes impôs humilhações e reparações impagáveis. A inflação de 1923 destruiu a classe média. A Grande Depressão de 1929 trouxe desemprego em massa. Hitler não chegou ao poder por golpe — chegou pelas eleições. Em 1933 foi nomeado chanceler. Em dois anos, a democracia foi desmantelada. A lição mais sombria: o fascismo pode crescer dentro da democracia, com votos.

Curaçao

Curaçao é menor que a cidade de São Paulo, mas carrega uma história brutal. Por mais de dois séculos, a ilha foi o principal hub do tráfico negreiro holandês nas Américas. Cerca de 400 mil africanos escravizados passaram por seu porto antes de serem distribuídos pelo continente. Essa herança está no rosto, no idioma e na alma de cada curacenho.

Quando os espanhóis chegaram em 1499, a ilha era habitada pelos Caquetios — povo arahuaque com 2.500 anos de história. Em 1499, o espanhol Alonso de Ojeda avistou a ilha e o mundo deles começou a acabar. Em 1634, a Holanda tomou a ilha e a Companhia das Índias Ocidentais Holandesa transformou Willemstad no maior entreposto do tráfico de escravizados do hemisfério ocidental.

Em 1795, Tula liderou a maior revolta de escravizados da história da ilha, inspirada pela Revolução Haitiana. Foi capturado, torturado e executado. Hoje é herói nacional. Curaçao se tornou entidade política apenas em 2010, como país constituinte do Reino dos Países Baixos. A independência é incompleta — a Holanda ainda controla a defesa e a política externa. São 500 anos de história colonial antes desse papel.

Costa do Marfim

A Costa do Marfim é o maior produtor de cacau do mundo. Mas as crianças que colhem o cacau que vai para o chocolate europeu raramente chegam a provar o produto final. Esse detalhe resume muito da relação entre o país e o Ocidente: a riqueza está aqui, o lucro fica lá.

O território era habitado por dezenas de povos. Os Akan dominavam o leste e o centro com reinos organizados, comércio de ouro e sistemas políticos complexos. Os Mandé controlavam as rotas comerciais do norte. Os Kru eram mestres do mar. Quando os portugueses chegaram no século XV, encontraram uma costa já estruturada. O nome que deram veio de lá: Côte d’Ivoire — Costa do Marfim — porque era dali que saíam as presas de elefante para os mercados europeus.

Os franceses estabeleceram postos comerciais a partir de 1637. Em 1893, a Côte d’Ivoire foi oficialmente declarada colônia francesa. A exploração do cacau, do café e da madeira começou de forma sistemática — com trabalho forçado. A independência veio em 1960.

Equador

O Equador tem petróleo na Amazônia, cacau premiado no mundo todo e uma das maiores biodiversidades do planeta. Também tem 14 nacionalidades indígenas que resistiram a cinco séculos de colonização. O país que deu nome à linha do Equador ainda luta para se entender — e para decidir a quem pertence sua riqueza.

Quito existia antes de ser Quito. Os Quitu-Cara fundaram um dos maiores centros urbanos pré-colombianos do norte andino. Os Incas chegaram apenas em 1463, menos de um século antes dos espanhóis. A resistência foi feroz: Rumiñahui lutou por anos antes de ser capturado e torturado pelos conquistadores.

Sebastián de Benalcázar fundou Quito em 1534 sobre as ruínas da cidade Inca — literalmente sobre as cinzas, porque Rumiñahui queimou tudo antes de entregar. A independência foi declarada em 1822, depois da Batalha do Pichincha, liderada pelo general Sucre. Em 2008, o Equador se tornou o primeiro país do mundo a auditar sua dívida externa e declarar parte dela ilegítima — um ato de soberania que abalou o sistema financeiro internacional.

Holanda

O pequeno país que dominou o comércio mundial — e nunca quis falar sobre o custo humano disso.

Boa parte dos Países Baixos literalmente não existia — foi conquistada do mar através de diques, polders e séculos de engenharia coletiva. Esse esforço comunitário moldou uma cultura de pragmatismo, cooperação e tolerância. No século XVI, as províncias do norte se rebelaram contra o domínio espanhol dos Habsburgos numa guerra de independência que durou 80 anos (1568–1648). Foi uma das primeiras guerras em que a burguesia comercial derrotou uma monarquia absolutista.

No século XVII, a Companhia das Índias Orientais controlava o comércio de especiarias da Ásia, o ouro e os escravizados da África e o açúcar das Américas. Era uma empresa com exército e marinha próprios, poder para declarar guerras e firmar tratados. Na colônia de Suriname, o regime de trabalho era tão brutal que a expectativa de vida dos escravizados era de poucos anos. A riqueza holandesa foi construída sobre ossos.

Japão

O Japão foi o primeiro país não-ocidental a se industrializar e o primeiro a derrotar uma potência europeia em guerra. Também foi o único país a receber bombas atômicas — duas, em Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Tudo isso em menos de um século.

O xogum Tokugawa instaurou o sakoku em 1603 — fechamento quase total ao exterior por mais de dois séculos. Preservou uma cultura refinadíssima, mas deixou o país defasado tecnologicamente. Em 1853, o comodoro americano Matthew Perry chegou com navios armados e exigiu a abertura dos portos. O Japão aceitou. O trauma gerou a Restauração Meiji: industrialização acelerada, instituições ocidentais adaptadas, e em 1905 a derrota da Rússia czarista — a primeira vez que uma nação asiática vencia uma potência europeia.

O Japão construiu seu próprio império colonial: Coreia, Taiwan, Manchúria, China. O Massacre de Nanquim (1937) matou entre 100 mil e 300 mil civis. Ao contrário da Alemanha com o Holocausto, o Japão nunca fez um acerto de contas histórico satisfatório com esses crimes. O negacionismo envenenou a diplomacia asiática por décadas.

Suécia

A Suécia é hoje sinônimo de igualdade, licença parental generosa e design elegante. Mas foi um dos reinos mais violentos e expansionistas da Europa medieval e moderna. O Império Sueco dominou o Mar Báltico por um século. E a neutralidade que o país exibe com orgulho foi, por muito tempo, conveniência — não princípio.

Entre os séculos VIII e XI, os povos escandinavos — chamados de vikings pela história europeia — eram comerciantes e guerreiros de longa distância. Fundaram o que viria a ser Novgorod e Kiev, chegaram ao Mar Cáspio e fizeram comércio com o Califado Abássida em Bagdá. O tráfico de escravos do leste europeu para os mercados islâmicos foi uma das principais atividades econômicas vikings.

No século XVII, a Suécia tornou-se uma das maiores potências militares da Europa. Esse império desmoronou no início do século XVIII após a derrota para Pedro, o Grande, da Rússia. Nunca mais a Suécia guerreou ofensivamente. Mas durante quase um século, foi uma potência imperial que sangrou o continente.

Tunísia

A Tunísia foi o coração de Cartago — o império que rivalizou com Roma. Foi colônia francesa por 75 anos. E em 2010, um vendedor de frutas se incendiou em protesto contra a humilhação policial e derrubou um ditador. Essa faísca acendeu o Oriente Médio inteiro. A Primavera Árabe começou na Tunísia — e só lá deixou algo parecido com democracia, ainda que frágil.

O território tunisiano foi o coração de Cartago — civilização fundada pelos fenícios no século IX a.C. que se tornou a maior potência do Mediterrâneo Ocidental. O general cartaginês Aníbal Barca cruzou os Alpes com elefantes de guerra e passou 15 anos devastando a Itália. Cartago foi destruída em 146 a.C. A França estabeleceu seu protetorado sobre a Tunísia em 1881. A independência chegou em 1956 — negociada, não conquistada pela força. Bourguiba tornou-se o primeiro presidente e governou por 31 anos, modernizando o país mas concentrando poder de forma crescentemente autoritária.

Bélgica

A Bélgica existe porque as grandes potências europeias precisavam de um estado-tampão em 1830. É um país partido ao meio por idioma e cultura. E foi responsável por um dos genocídios coloniais mais brutais da história — no Congo, onde Leopoldo II matou entre 5 e 10 milhões de pessoas para extrair borracha. Esse crime nunca foi julgado.

O território belga foi, ao longo da história, parte dos Países Baixos espanhóis, dos Habsburgos austríacos, da França napoleônica e do Reino Unido dos Países Baixos. Em 1830, uma revolta em Bruxelas levou à independência. O primeiro rei, Leopoldo I, foi escolhido num catálogo de príncipes europeus disponíveis.

O rei Leopoldo II convenceu as potências europeias na Conferência de Berlim (1884) de que administraria o Congo como filantropia civilizatória. O Estado Livre do Congo era propriedade pessoal do rei. Entre 1885 e 1908, o regime de Leopoldo matou entre 5 e 10 milhões de congoleses. O método: cada aldeia tinha uma cota de borracha — quem não atingia a meta tinha a mão cortada. As mãos eram entregues como prova de punição. Leopoldo foi forçado a ceder o Congo ao Estado belga em 1908. Nunca foi julgado. Morreu rico.

Egito

O Egito construiu as pirâmides há 4.500 anos. Depois foi conquistado por persas, gregos, romanos, árabes, otomanos e britânicos. Só voltou a se governar completamente em 1952. A civilização que durou três mil anos ainda luta para decidir o que quer ser no século XXI.

O Egito Antigo foi o Estado mais duradouro da história humana — três mil anos de organização política centralizada. As pirâmides foram erguidas por trabalhadores assalariados, não escravos. Quando a última faraó nativa perdeu o poder para os persas em 525 a.C., começou uma sequência de dominações. Em 1956, Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez. Grã-Bretanha, França e Israel invadiram militarmente. Os EUA e a URSS pressionaram os invasores a recuar. Pela primeira vez na história moderna, uma potência colonial foi forçada a ceder por um país do Sul Global. Nasser tornou-se herói de todo o mundo árabe.

Irã

O Irã é a Pérsia — uma das civilizações mais antigas e sofisticadas do mundo. Foi o país que os EUA destruíram a democracia em 1953, instalando um xá ditador. A revolução islâmica de 1979 foi, em parte, resposta a essa intervenção. O Ocidente criou o problema que hoje diz querer resolver.

O Império Aquemênida, fundado por Ciro, o Grande, em 550 a.C., foi o maior do mundo até então. Ciro libertou os judeus cativos na Babilônia, permitiu que os povos conquistados mantivessem suas línguas e religiões, e governou com uma tolerância que contrastava radicalmente com os impérios assírio e babilônico. O Cilindro de Ciro é considerado por alguns historiadores o primeiro documento de direitos humanos da história.

Em 1951, o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria petrolífera iraniana. A Grã-Bretanha e os EUA organizaram um golpe de Estado em 1953 — a Operação Ajax — que derrubou Mosaddegh e restaurou o poder do Xá Mohammad Reza Pahlavi. O Xá governou com repressão brutal por décadas, com apoio americano. Em 1979, a revolução popular liderada pelo aiatolá Khomeini derrubou o xá. O Ocidente ficou surpreso. Não deveria ter ficado.

Nova Zelândia

A Nova Zelândia foi o último grande território habitado por humanos — os māori chegaram há menos de 800 anos. Os britânicos vieram depois, trouxeram colonização, doenças e expropriação de terras. Mas a Nova Zelândia também foi o primeiro país do mundo a dar às mulheres o direito ao voto, em 1893.

Os māori chegaram à Nova Zelândia — que chamam de Aotearoa, “terra da longa nuvem branca” — por volta de 1280 d.C., vindos das ilhas da Polinésia em canoas de alto mar. Desenvolveram uma cultura rica, com esculturas em madeira de sofisticação técnica impressionante, um sistema oral de preservação histórica e o haka — dança guerreira que codificava valores, territórios e identidade.

Em 1840, representantes māori e britânicos assinaram o Tratado de Waitangi. O problema: a versão em inglês e a versão em māori diziam coisas diferentes. Em inglês, os māori cediam soberania à Coroa. Em māori, preservavam tino rangatiratanga — autoridade e governança sobre suas terras e assentamentos. Os britânicos agiram conforme o inglês. O que se seguiu foi a progressiva expropriação de terras māori. Em 1860, guerras māori-britânicas explodiram.

Espanha

A Espanha nunca foi um só país — e por isso é ao mesmo tempo mais rica e mais complicada do que parece.

A Península Ibérica foi conquistada pelos mouros em 711 e durante 800 anos foi um dos centros mais avançados do mundo em ciência, matemática, medicina, filosofia e arquitetura. A Reconquista cristã durou séculos. Em 1492, os Reis Católicos Fernando e Isabel tomaram Granada — o último reino muçulmano — e expulsaram todos os judeus da Espanha. Centenas de milhares partiram. A Inquisição Espanhola perseguiu mouros convertidos, judeus convertidos e qualquer desvio doutrinário com prisão e morte.

Entre 1492 e o século XVII, a Espanha construiu um império que abrangia boa parte das Américas, Filipinas e pedaços da África e Ásia. O custo humano foi devastador: a população indígena das Américas caiu entre 50 e 90% nas regiões conquistadas. No século XX, a Guerra Civil de 1936 a 1939 levou Franco ao poder. A ditadura durou até 1975. O Real Madrid virou embaixador do regime; o Barcelona, símbolo da resistência catalã.

Cabo Verde

Cabo Verde não tinha habitantes quando os portugueses chegaram em 1460. Foi construído como entreposto do tráfico transatlântico de escravizados — as ilhas eram o ponto de triagem entre a África e as Américas. Desse encontro forçado entre europeus e africanos escravizados nasceu uma das culturas mais originais do mundo — a morna, a língua crioula, e uma identidade que só existe porque a escravidão existiu.

As ilhas de Cabo Verde estavam desabitadas quando os portugueses as descobriram por volta de 1460. Rapidamente se tornaram o principal entreposto do tráfico transatlântico de escravizados: africanos capturados no continente eram trazidos às ilhas, “aclimatados”, batizados à força e revendidos para as Américas. Estima-se que mais de um milhão de africanos passaram pelas ilhas como mercadoria humana.

Cabo Verde foi colônia portuguesa por mais de 500 anos. Fomes devastadoras mataram enormes parcelas da população. O movimento de libertação, liderado por Amílcar Cabral junto com a Guiné-Bissau, forçou a independência em 1975. Cabral, um dos maiores teóricos anticoloniais do século XX, foi assassinado em 1973, às vésperas da vitória que não viveu para ver.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita surgiu em 1932 — guardião das cidades mais sagradas do islã e dona do petróleo que move o mundo.

A Península Arábica foi berço da civilização desde milênios antes do islã — com rotas de comércio de incenso e mirra que ligavam o Iêmen ao Mediterrâneo. Em 610 d.C., o profeta Maumé começou a receber as revelações do Alcorão em Meca. Em menos de um século, o islã havia se espalhado da Espanha à Índia. No século XVIII, um clérigo chamado Muhammad ibn Abd al-Wahhab fundou o wahhabismo — uma interpretação ultrarigorosa e puritana do islã — e fez um pacto com o líder tribal Muhammad ibn Saud: poder religioso em troca de poder político. Esse pacto de 1744 ainda governa a Arábia Saudita.

Ibn Saud unificou militarmente a Península Arábica e proclamou o Reino da Arábia Saudita em 1932. Seis anos depois, geólogos americanos descobriram petróleo em quantidades imensas. A parceria com os EUA tornou-se estratégica: petróleo em troca de segurança militar. A Aramco — Arabian American Oil Company — extraiu riqueza do deserto e transformou um país de pastores nômades numa das maiores economias do mundo em décadas. Essa riqueza não foi distribuída igualmente — financiou uma monarquia absoluta e exportou o wahhabismo pelo mundo islâmico.

Uruguai

O Uruguai é menor que Minas Gerais. Tem menos gente que São Paulo. Ganhou duas Copas do Mundo, criou um dos estados de bem-estar mais avançados das Américas, resistiu a uma das ditaduras mais sofisticadas do continente — e elegeu um ex-guerrilheiro que viveu 14 anos preso para presidente. Tamanho não é documento.

Os charruas eram guerreiros seminômades que recusaram sistematicamente a submissão colonial. Resistiram por três séculos. Em 1831, o presidente Fructuoso Rivera ordenou a Matança de Salsipuedes — o extermínio dos charruas sobreviventes. Quatro líderes capturados foram levados a Paris e exibidos como curiosidade científica. A nova república apagou seus primeiros habitantes para construir uma identidade europeia.

José Artigas foi o pai da pátria — um revolucionário que em 1815 propôs uma reforma agrária que distribuía terras a negros, indígenas e pobres. José Mujica tornou-se presidente entre 2010 e 2015, legalizou o aborto, o casamento igualitário e a maconha, doava 90% do salário. Morava numa chácara simples. Foi o chefe de Estado mais incomum do mundo.

França

A França proclamou Liberdade, Igualdade e Fraternidade em 1789 — e ao mesmo tempo manteve a escravidão nas colônias por mais de 59 anos. Construiu o segundo maior império colonial da história. Colonizou a Argélia, o Senegal, o Haiti e dezenas de outros países com brutalidade documentada. E ainda cobra das ex-colônias uma “taxa colonial” camuflada. A contradição francesa não é acidente — é estrutura.

O território francês foi habitado pelos gauleses — povos celtas que resistiram a Roma até a conquista de Júlio César entre 58 e 50 a.C. Carlos Magno criou o Império Franco no século IX. A República Francesa sempre teve dificuldade em aceitar que ela própria é feita de diferenças.

A Revolução Francesa de 1789 proclamou os direitos universais do homem — e manteve a escravidão nas colônias. Quando os escravizados do Haiti se rebelaram em 1791 invocando exatamente esses princípios, a França os esmagou militarmente. Só aboliu a escravidão em 1848 — 59 anos após a Revolução. A seleção francesa venceu a Copa de 1998 com Zidane — filho de imigrantes argelinos — como herói. E venceu de novo em 2018, com uma equipe formada majoritariamente por filhos de imigrantes africanos.

Senegal

A ilha de Gorée, na costa do Senegal, foi um dos principais entrepostos do tráfico transatlântico de escravizados. Milhões de africanos passaram pela “Casa dos Escravos” antes de serem embarcados para as Américas. O Senegal carrega essa memória com dignidade — e construiu sobre ela uma das democracias mais estáveis da África.

O território senegalês foi palco de civilizações sofisticadas muito antes da chegada europeia. O Império Djolof unificou os povos wolof numa confederação de reinos que controlava o comércio trans-saariano. Os wolof desenvolveram uma organização social complexa, com castas de guerreiros, comerciantes e artesãos especializados.

A Ilha de Gorée, a poucos quilômetros de Dacar, tornou-se o símbolo mundial da memória do tráfico transatlântico de escravizados. A Casa dos Escravos — com sua “porta sem retorno” que dava diretamente para o oceano — é o espaço mais visitado do Senegal. A colonização francesa formalizou-se no século XIX. A independência veio em 1960 com Léopold Sédar Senghor — um dos fundadores do país e um dos maiores poetas da língua francesa.

Iraque

A Mesopotâmia — entre o Tigre e o Eufrates — é onde a humanidade inventou a escrita, a roda, a agricultura e as primeiras cidades. Hoje é o Iraque. O mesmo território foi invadido pelos EUA em 1991 e novamente em 2003 com base em mentiras documentadas. O resultado foi a destruição de um Estado e o nascimento do Estado Islâmico. O berço da civilização foi sistematicamente descivilizado.

Entre o Tigre e o Eufrates, nas planícies que hoje formam o Iraque, surgiram as primeiras cidades humanas há mais de 5 mil anos. O Uruk foi a primeira grande metrópole. Os sumérios inventaram a escrita cuneiforme. Os babilônios codificaram as primeiras leis com o Código de Hammurabi.

Após a Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Otomano, a Grã-Bretanha recebeu o mandato sobre a Mesopotâmia e criou o Iraque em 1920 — unindo forçadamente três províncias distintas: Mosul (curda), Bagdá (árabe sunita) e Basra (árabe xita). Em 2003, os EUA invadiram sob pretexto de armas de destruição em massa que não existiam. Saddam Hussein foi derrubado. O vácuo de poder gerou o ISIS. Mais de 200 mil civis morreram. O Iraque ainda não se recuperou.

Noruega

A Noruega era um dos países mais pobres da Europa em 1900. Em 1969, encontrou petróleo no Mar do Norte. Tomou uma decisão radical de não privatizar — criou um fundo soberano que hoje supera 2 trilhões de dólares. O modelo norueguês não foi sorte. Foi escolha política deliberada. Outros países com petróleo fizeram escolhas diferentes. Os resultados falam por si.

Os vikings noruegueses foram para o oeste enquanto os suecos iam para o leste. Colonizaram a Islândia em 874, a Groenlândia em 985 e chegaram à América do Norte — Vinland — por volta do ano 1000. Leif Eriksen pisou no continente americano quase 500 anos antes de Colombo.

A Noruega ficou sob domínio dinamarquês por 400 anos e sueco por 90, conquistando independência plena apenas em 1905 — por referendo, com 99,95% votando pela separação. Em abril de 1940, a Alemanha invadiu a Noruega. O rei Haakon VII recusou a capitulação — fugiu para o Reino Unido e governou um governo no exílio. A resistência norueguesa sabotou a fábrica de água pesada de Vemork em 1943, atrasando o programa nuclear nazista.

Argentina

A Argentina se inventou europeia, apagou seus povos originários — e ainda não terminou de se entender.

O território argentino era habitado por dezenas de povos. Os Mapuche no sul e no oeste. Os Guaranis no nordeste. Os Diaguitas nos Andes. Os Tehuelches na Patagônia. Os Wichi no Chaco. Quando a Argentina tornou-se independente em 1816, esses povos existiam, resistiam e ocupavam vastos territórios. O Estado argentino resolveu o problema com uma campanha militar chamada de “Conquista do Deserto” (1878–1885) — eufemismo para genocídio sistemático.

Entre 1880 e 1930, a Argentina recebeu 6,6 milhões de imigrantes — principalmente italianos e espanhóis, mas também galeses, judeus, árabes, japoneses e armênios. O projeto das elites era “civilizar” o país com sangue europeu. No século XX, a ditadura de Videla assassinou ou desapareceu 30 mil pessoas. Maradona marcou o gol com a mão contra a Inglaterra quatro anos depois das Malvinas e chamou de “a mão de Deus”. Em 2022, Messi finalmente ganhou a Copa do Mundo — a consagração que o mundo esperava.

Argélia

A Argélia é o maior país da África em território. Foi colônia francesa por 132 anos — mais tempo do que é independente. A guerra de independência matou entre 500 mil e 1,5 milhão de argelinos, dependendo da fonte. A França ainda debate se foi “guerra” ou “operações de manutenção da ordem”. Para os argelinos, não há debate.

O povo berbere — que se chama a si mesmo Amazigh, “homem livre” — habita o norte da África há pelo menos 10 mil anos. Roma transformou o território em celeiro do Império. Foi numa cidade do atual norte da Argélia que Santo Agostinho nasceu e escreveu. Em 647, os árabes chegaram com o islã — a conversão foi lenta e às vezes violenta, mas profunda. Depois em 1516, os otomanos controlaram a região por três séculos.

Em 1830, sob pretexto diplomático menor, a França invadiu Argel. O general Thomas-Robert Bugeaud ordenou o uso de enfumades — tribos inteiras eram levadas para cavernas e sufocadas com fumaça. Estima-se que entre 500 mil e 1 milhão de argelinos morreram nas primeiras décadas da ocupação. A independência chegou em 1962 depois de oito anos de guerra. A França ainda não pediu desculpas formais.

Áustria

A Áustria produziu Mozart, Freud, Klimt e Wittgenstein. Também produziu Adolf Hitler — nascido em Braunau am Inn, em solo austríaco, em 1889. Por décadas, a narrativa oficial austríaca apresentou o país como “primeira vítima” do nazismo. Essa versão conveniente ignorou que multidões em Viena receberam Hitler com euforia em 1938. A Áustria demorou décadas para começar a acertar as contas com essa memória.

A dinastia Habsburgo governou a Áustria a partir do século XIII e foi construindo um império por meio de casamentos estratégicos. O Império Austro-Húngaro reunia alemães, húngaros, tchecos, poloneses, eslovacos, croatas, eslovenos, romenos, italianos e dezenas de outras etnias. Era uma máquina burocrática enorme, multicultural por necessidade. Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Franz Ferdinand foi assassinado em Sarajevo pelo jovem sérvio Gavrilo Princip. A Áustria-Hungria aproveitou o pretexto para emitir um ultimato à Sérvia — calculando uma guerra rápida e localizada. O resultado foi a Primeira Guerra Mundial.

Jordânia

A Jordânia não tem petróleo, tem pouca água e faz fronteira com Israel, a Palestina, a Síria, o Iraque e a Arábia Saudita — uma vizinhança de conflitos permanentes. Por direito, deveria ter implodido várias vezes. Não implodiu. É o país que mais refugiados recebeu per capita no mundo nas últimas décadas — palestinos, iraquianos, sírios. Continua de pé, exausta e resiliente.

O território jordaniano foi habitado há mais de 10 mil anos. É aqui que ficava parte das rotas de comércio mais antigas da humanidade. Os nabateus construíram Petra — a cidade esculpida na rocha avermelhada do deserto — e controlaram as rotas de especiarias entre a Arábia e o Mediterrâneo por séculos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os britânicos fizeram promessas contraditórias. Ao Xerife Hussein de Meca, prometeram um grande Estado árabe independente. Ao mesmo tempo, pelo Acordo Sykes-Picot (1916), britânicos e franceses já haviam dividido secretamente o Oriente Médio. Em 1921, Winston Churchill — então ministro das Colônias — criou a Transjordânia num fim de semana, basicamente desenhando fronteiras no mapa. O mesmo território havia sido prometido a três atores diferentes.

Portugal

Portugal é um país pequeno que fez algo enorme — e devastador. Com menos de um milhão de habitantes no século XV, lançou-se ao mar e mapeou a costa africana, chegou à Índia, ao Brasil, ao Japão. O resultado foi o primeiro império global da história. E também um dos sistemas de exploração e tráfico de escravizados mais longos e letais já operados por uma nação.

A Península Ibérica foi habitada por iberos, celtas, fenícios, gregos e cartagineses antes de Roma. Os muçulmanos mouros cruzaram o Estreito de Gibraltar e conquistaram quase toda a península em anos. A presença árabe durou 800 anos — e deixou marcas indeléveis na língua portuguesa, na arquitetura, na matemática, na agricultura. O Condado Portucalense emergiu desse processo e em 1143 foi reconhecido como reino independente.

Com o Atlântico à frente e a Espanha bloqueando a expansão terrestre, Portugal foi para o mar. Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança. Depois em 1498, Vasco da Gama chegou à Índia. Em 1500, Pedro Álvares Cabral pisou no Brasil. Por fim, em 1974, os militares cansados da guerra colonial derrubaram a ditadura na Revolução dos Cravos — cravos vermelhos nos fuzis. Foi a única revolução do século XX que libertou simultaneamente o colonizador e os colonizados.

República Democrática do Congo

A RDC é o país mais rico em recursos naturais do mundo — e um dos mais pobres em tudo que importa para viver. O subsolo congolês guarda cobalto, coltan, ouro, diamantes, urânio e madeira em quantidades que fariam qualquer país rico por gerações. O Congo não é pobre apesar de seus recursos — é pobre por causa deles. Cada mineral que sai do chão congolês financiou, em algum momento, um colonizador, um ditador, uma empresa multinacional ou um exército estrangeiro. Sempre em troca de nada, ou de bala.

O Reino do Congo, fundado no século XIV, foi um dos maiores e mais organizados Estados da África pré-colonial. Tinha capital (Mbanza Kongo), moeda própria, sistema jurídico, diplomacia e comércio com Portugal desde o século XV. Em 1885, na Conferência de Berlim, o rei belga Leopoldo II convenceu as grandes nações a lhe dar o Congo como propriedade pessoal. Entre 1885 e 1908, o regime de Leopoldo matou entre 8 e 10 milhões de congoleses. As mãos eram entregues como prova de punição. Em 1960, a independência chegou. Seis meses depois, Patrice Lumumba foi assassinado com apoio da CIA. Seu corpo foi dissolvido em ácido.

Uzbequistão

O Uzbequistão não tem litoral, não tem petróleo em abundância e não aparece no noticiário ocidental. Mas tem Samarcanda — uma das cidades mais antigas do mundo. Tem a história de Tamerlão, de Ibn Sina e de mil anos de comércio na encruzilhada entre Oriente e Ocidente. E tem o Mar de Aral, que a União Soviética secou em cinquenta anos numa das maiores catástrofes ambientais da história.

Por séculos, o território uzbeque foi o coração da Rota da Seda — o corredor comercial que ligava a China ao Mediterrâneo. Cidades como Samarcanda, Bukhara e Khiva eram centros de ciência e cultura islâmica que faziam Paris e Londres parecerem vilarejos. O médico e filósofo Ibn Sina (Avicena), cujo Cânon da Medicina foi o texto base da medicina europeia por séculos, nasceu perto de Bukhara.

Em 1220, Gengis Khan destruiu Samarcanda — uma das maiores cidades do mundo na época. Em 1370, Tamerlão transformou Samarcanda na capital de um império que ia da Índia à Turquia. Patronou arquitetura, ciência e arte — e massacrou cidades inteiras com frieza absoluta. Em 1991, com a dissolução da União Soviética, o Uzbequistão tornou-se independente por decreto — sem revolução, sem guerra.

Colômbia

A Colômbia tem dois oceanos, a maior biodiversidade por quilômetro quadrado do planeta, 65 línguas indígenas ativas, a melhor música tropical da América do Sul e mais de 60 anos de conflito armado interno. É um país que sobreviveu a coisas que destruiriam qualquer outro — e que ainda assim dança, canta e resiste com uma vitalidade desconcertante.

O território colombiano era habitado por centenas de povos. Os Muiscas, no altiplano andino, formavam uma confederação sofisticada — com comércio, astronomia e um ritual que deu origem ao mito do El Dorado: o líder se cobria de ouro em pó e mergulhava no lago Guatavita como oferenda. Os espanhóis transformaram esse ritual em febre do ouro e varreram o continente à procura de uma cidade imaginária.

A independência veio em 1819, depois da épica travessia dos Andes por Simón Bolívar — uma das campanhas militares mais audaciosas da história militar. A Grande Colômbia unificou Venezuela, Equador e Panamá sob um só Estado. Mas as rivalidades regionais e os interesses das elites locais a destroçaram em menos de uma década. Em 1903, quando os EUA apoiaram a separação do Panamá para construir o canal, Bogotá recebeu 25 milhões de dólares de indenização. Uma ilha por 25 milhões.

Inglaterra

A Inglaterra nunca foi invadida com sucesso desde 1066. Esse fato moldou uma psicologia nacional de insulamento e superioridade que atravessou séculos — e que ainda explica muita coisa, do Brexit ao relacionamento da torcida inglesa com árbitros estrangeiros. Em algum momento, a ilha que cabia numa fração da Europa governou 57 países.

Os celtas britânicos habitavam a ilha quando os romanos chegaram em 43 d.C. Roma ficou quase 400 anos — construiu estradas, muralhas e a proto-cidade de Londinium. Depois dos romanos, vieram os anglos e saxões da atual Alemanha. Em seguida os vikings dinamarqueses. Depois os normandos franceses em 1066, com Guilherme, o Conquistador.

A Companhia das Índias Orientais, fundada em 1600, foi o modelo: uma corporação privada com exército próprio que governava territórios soberanos em nome do lucro. A Índia foi administrada por acionistas antes de virar colônia oficial da Coroa. A escravidão transatlântica britânica transportou 3,1 milhões de africanos entre 1640 e 1807. Quando a abolição veio, o governo britânico pagou indenização — não aos escravizados, mas aos proprietários de escravos. Essa dívida foi paga pelos contribuintes britânicos só em 2015.

Croácia

A Croácia tem menos habitantes que São Paulo. Mas nas últimas três décadas viveu mais história do que a maioria dos países em um século: dissolução de um Estado, guerra civil, limpeza étnica, julgamentos por crimes de guerra e reconstrução completa de uma identidade nacional. Tudo isso enquanto construía uma seleção de futebol que chegou à final de uma Copa do Mundo.

Os eslavos croatas migraram para os Bálcãs no século VII. Em 925, o rei Tomislav unificou as tribos e criou o primeiro Reino da Croácia — um dos primeiros Estados medievais eslavos. Em 1102, a Croácia entrou em união pessoal com a Hungria — mantendo autonomia formal, mas perdendo independência real. Por séculos, o território ficou entre impérios: húngaro, otomano, habsburgo.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Croácia foi incorporada ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos — que depois se tornou Iugoslávia. Sob Josip Broz Tito, a Iugoslávia tornou-se um modelo de socialismo independente. Quando Tito morreu em 1980, o equilíbrio foi junto. A Croácia declarou independência em 1991 — depois de uma guerra que sitiou Vukovar, bombardeou Dubrovnik e matou 20 mil pessoas. Em 2018, com Luka Modrić — eleito melhor jogador do torneio e do mundo naquele ano —, chegou à final da Copa do Mundo.

Gana

Gana foi chamada de Costa do Ouro pelos portugueses — porque dali saiu o ouro que financiou a Europa por séculos. Depois saíram escravizados. Depois cacau. Em 1957, foi o primeiro país da África Subsaariana a se libertar do domínio colonial. Kwame Nkrumah disse que a independência de Gana não fazia sentido se o restante da África continuasse subjugado. Ele estava certo — e pagou com o exílio.

Antes dos europeus, o território era habitado por dezenas de povos. O mais poderoso era o Império Ashanti, fundado no final do século XVII. Os Ashanti construíram um Estado centralizado e sofisticado — com um trono sagrado, o Banquinho de Ouro, símbolo da alma da nação, e um sistema jurídico, militar e comercial que impressionou até os próprios britânicos.

Os portugueses chegaram em 1471 — construíram o Forte São Jorge da Mina, em Elmina, o primeiro edifício europeu permanente na África Subsaariana. Por dois séculos, dali saíram escravizados para as Américas. Os britânicos tomaram o controle no século XIX e lutaram quatro guerras contra os Ashanti entre 1823 e 1901. Em 2010, Gana foi eliminada nas quartas de final da Copa da África do Sul quando Luis Suárez defendeu com a mão na linha do gol, foi expulso, mas o pênalti foi perdido. O continente inteiro chorou.

Panamá

O Panamá é um istmo — uma faixa estreita de terra que conecta dois continentes e dois oceanos. Essa posição geográfica definiu tudo: quem quis controlar o comércio mundial quis controlar o Panamá. Os espanhóis foram os primeiros — e mais eficientes. O Canal é a espinha dorsal do país. E durante a maior parte do século XX, ele pertencia a outro.

O território panamenho era habitado há pelo menos 11 mil anos. Os povos Guna, Ngäbe, Buglé, Emberá e Wounaan, entre outros, desenvolveram culturas distintas ao longo das costas e florestas. Quando Vasco Núñez de Balboa cruzou o istmo em 1513 e avistou o Pacífico, proclamou as terras para Castela. Os povos que já viviam ali não foram consultados.

Em 1903, os EUA apoiaram a separação do Panamá da Colômbia em três dias — para garantir o controle da construção do Canal. Em quinze dias, assinaram o tratado que dava controle perpétuo da Zona do Canal aos americanos. O Panamá nasceu sem soberania sobre seu território mais valioso. Em 1989, os EUA invadiram o próprio Panamá na Operação Causa Justa para prender o ditador Manuel Noriega, ex-aliado da CIA. Entre 500 e 3 mil civis panamenhos morreram. O Panamá não foi consultado sobre nada disso.

Se você quer mergulhar fundo na história de cada um desses países — com a linha do tempo completa, os dados, os grandes temas e as rivalidades histórias —, o PDF completo da Revista Copa do Mundo do Outro Lado da História está disponível para leitura. São 112 páginas com tudo que está em campo além da bola.

Douglas Nunes

Quem sou eu: Douglas Nunes, Jornalista e Historiador

Sou Douglas Nunes, jornalista formado em 2010 e historiador formado em 2019, criador do Outro Lado da História. Há mais de 15 anos produzo conteúdo sobre história, política e sociedade — e nesse tempo publiquei mais de 400 artigos e vídeos no youtube, e alcancei mais de 1,6 milhão de visualizações com análises críticas sobre o Brasil e o mundo.
Meu trabalho parte de uma premissa simples: a história oficial raramente conta tudo. Há interesses, silêncios e perspectivas apagadas que mudam completamente a leitura dos acontecimentos — e é exatamente isso que busco revelar aqui.

Formação Acadêmica
Jornalismo — concluído em 2010
História — concluído em 2019
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0819713762694430

Trajetória Profissional
Ao longo da carreira, passei por redações e projetos de comunicação de grande relevância:

Jornal O Dia — Reportér
Brasil Econômico — Repórter
Escola Zico 10 — Assistente de Comunicação

Essa trajetória diversificada me deu uma visão ampla sobre como narrativas são construídas — e como podem ser questionadas.

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