Conhecer a origem das favelas cariocas traz muitas surpresas. Isso porque em 2022, o Censo Demográfico do IBGE revelou que 16,4 milhões de pessoas vivem em favelas no Brasil. Só no Rio de Janeiro, são mais de 2,1 milhões – 13,3% de toda a população do estado.
A maior favela do país e a Rocinha, na Zona Sul carioca, com mais de 72 mil moradores espremidos entre São Conrado e a Gavea — dois dos bairros mais caros do país. Esse contraste não e acidente. Ele e o resultado de mais de um século de escolhas políticas muito conscientes.
A favela não surgiu por preguica ou descuido de quem la mora. Ela foi construída pela exclusão — por políticas que expulsaram os pobres do centro, demoliram suas moradias sem oferecer alternativas, transferiram comunidades para regiões remotas e usaram o morro como depósito humano para uma cidade que queria modernidade sem pagar o custo social dela.
Este texto conta essa história. Do primeiro soldado que subiu um morro no Rio de Janeiro em 1897 até as remoções olimpicas de 2016. Do cortiço derrubado a machadadas em 1893 até as comunidades que cresceram na Barra da Tijuca enquanto o capital imobiliário avançava. Uma história que começa no século XIX e ainda não acabou.
Leia também: História da Desigualdade no Brasil: causas, origens e reflexos atuais – o contexto estrutural que explica por que a favela nunca foi apenas um problema de moradia.
Linha do tempo: da primeira favela as remoções olimpicas
| Ano | Evento |
| 1893 | Cortiço Cabeca de Porco, com 2.000 moradores, e demolido no centro do Rio. Parte dos moradores sobe o Morro da Providencia. |
| 1897 | Soldados voltam da Guerra de Canudos e ocupam o Morro da Providencia — batizado de “Favela” em referencia ao morro da batalha final de Canudos. |
| 1902-1906 | Reforma Pereira Passos, o “Bota-Abaixo”: centenas de cortiços demolidos, população pobre expulsa para os morros e subúrbios. |
| 1904 | Revolta da Vacina: população pobre reage contra vacinação compulsória e as demolições sem alternativa habitacional. |
| 1950 | Primeiro Censo que mede favelas: 7,2% da população do entao Distrito Federal já vivia em favelas (cerca de 170 mil pessoas). |
| 1960 | Favelas abrigam 335 mil pessoas no Rio – o número dobrou em 10 anos. Carlos Lacerda inicia campanha de remoção. |
| 1962-1974 | Era das remoções: 80 favelas removidas, 26.193 barracos destruidos, 139.218 pessoas transferidas para periferias distantes. |
| 1977 | Comunidade do Vidigal resiste a remoção em plena ditadura — vitoria que se tornou símbolo da resistência popular. |
| Anos 1980 | Expansao das favelas na Barra da Tijuca acompanha a especulação imobiliária na região. |
| 1988 | Constituição reconhece o direito a moradia e abre caminho para políticas de urbanização de favelas. |
| 2010-2016 | Remoções olimpicas: estimativa de 22 mil famílias removidas para obras da Copa e Olimpiadas. Vila Autodromo vira símbolo de resistência. |
| 2022 | Censo 2022: 16,4 milhões vivem em favelas no Brasil. Rio tem 2,1 milhões – 13,3% da população. |
1. O ponto de partida: quem subiu os morros e por que
Para entender a favela, e preciso entender o Rio de Janeiro do final do século XIX. Era uma cidade em transformação rápida e violenta, que queria se parecer com Paris – mas não sabia o que fazer com sua população pobre.
Dois grupos chegaram aos morros quase ao mesmo tempo, no final dos anos 1890, e juntos criaram o que viria a ser a primeira favela do Brasil: os soldados que voltaram da Guerra de Canudos e os ex-escravizados que haviam sido libertados em 1888 sem nenhuma política de inserção social. Os dois grupos tinham em comum uma coisa: o Estado não ofereceu moradia a nenhum dos dois.
Os soldados de Canudos e o nome “favela”
Entre 1896 e 1897, o governo brasileiro travou uma guerra brutal no interior da Bahia contra a comunidade de Canudos, liderada pelo beato Antonio Conselheiro. Foram quatro batalhas. Na terceira e na quarta, o exército brasileiro trouxe reforços – e muitos dos soldados que lutaram ali eram cariocas ou foram alojados no Rio após o conflito.
Quando voltaram, esses soldados tinham uma promessa: o governo pagaria seus salarios atrasados e lhes daria moradia. A promessa não foi cumprida. Sem terem para onde ir e sem o dinheiro que lhes era devido, um grupo desses soldados subiu o Morro da Providencia, no centro do Rio, e montou um acampamento.
O nome do morro mudou logo depois. Os soldados chamavam aquelas encostas de “Morro da Favela” — em referencia ao morro homônimo em Canudos, coberto de uma planta espinhosa chamada favela (Cnidoscolus quercifolius). O nome grudou. E se espalhou para todos os assentamentos parecidos que vieram depois.
O nome veio da guerra: A palavra “favela” não e um termo técnico criado por urbanistas. E o nome de um morro no sertão da Bahia, onde o exército brasileiro massacrou uma comunidade de pobres e místicos. Soldados que sobreviveram a esse massacre — e foram abandonados pelo governo ao voltar — levaram o nome para o Rio. Há uma ironia amarga nisso: a favela nasce batizada pelo nome de uma guerra contra os pobres.
Os ex-escravizados: libertos sem terra, sem teto, sem futuro
Ao mesmo tempo em que os soldados chegavam aos morros, outro grupo já estava la – ou chegava sem fazer barulho: os ex-escravizados e seus filhos.
A Abolição da Escravidão em 1888 foi, como detalhamos em outro texto, uma libertação sem estrutura. Não houve indenização, não houve acesso a terra, não houve política de moradia. As mais de 700 mil pessoas libertas naquele dia saiam das senzalas sem dinheiro, sem documentos e sem perspectiva.
No Rio de Janeiro, muitos desses ex-escravizados se aglomeraram nos cortiços do centro da cidade – habitações coletivas superlotadas, com um quarto para famílias inteiras, banheiros coletivos, sem ventilação. Era uma vida miserável, mas era perto do trabalho: os mercados, os portos, os serviços domésticos nas casas ricas ficavam no centro.
Quando os cortiços começaram a ser demolidos – e voltaremos a isso no próximo capítulo -, esses trabalhadores não tinham para onde ir além dos morros. Os aluguéis no centro subiram. O subúrbio ficava longe demais do emprego. O morro estava ali, de graça, sem dono que cobrasse.
O Cortiço Cabeca de Porco: a demolição que antecede tudo
Antes mesmo dos soldados de Canudos, houve um evento que muitos históriadores apontam como o ato inaugural das favelas cariocas: a demolição do Cortiço Cabeca de Porco, em 1893.
O Cabeça de Porco ficava na Rua Barões, no centro do Rio. Era um dos maiores cortiços da cidade, com cerca de 2.000 moradores – famílias inteiras vivendo em cubículos apertados. Em Janeiro de 1893, o prefeito Barata Ribeiro ordenou a demolição do cortiço sob o argumento de insalubridade.
O cortiço foi abaixo. Mas os moradores não foram. Parte deles – especialmente os que não tinham dinheiro para aluguel em nenhum outro lugar – subiu o Morro da Providencia, que ficava a poucos quarteirões. Levaram madeira e telhas dos próprios escombros do Cabeça de Porco. E começaram a construir.
Quatro anos depois, os soldados de Canudos chegaram ao mesmo morro. E a favela estava fundada.
Leia também: Escravidão no Brasil: história, abolição e discriminação racial – a raiz mais profunda da população que subiu os morros.
2. O Bota-Abaixo: como a reforma urbana de Pereira Passos criou as favelas
Se a demolição do Cabeca de Porco foi o primeiro ato, a Reforma Pereira Passos entre 1902 e 1906 foi o que transformou o morro num fenomeno urbano em massa.
Francisco Pereira Passos era engenheiro, tinha estudado em Paris e admirava a obra de Haussmann — o urbanista que redesenhou a capital francesa no século XIX, derrubando bairros medievais para abrir grandes avenidas. Passos queria fazer o mesmo no Rio. E quando o presidente Rodrigues Alves lhe deu poderes quase absolutos para reformar a cidade, ele foi fundo.
O que foi demolido e por que
Entre 1903 e 1906, a reforma derrubou centenas de edificações no centro do Rio. O objetivo declarado era modernizar a cidade, abrir avenidas largas, criar um Rio que pudesse competir com as capitais europeias. A Avenida Central – hoje Avenida Rio Branco – foi o projeto principal: uma avenida monumental rasgada no coração do centro antigo.
Para construi-la, 600 edificações foram demolidas. Nos arredores, cortiços, estalagens e casas de cômodos tombaram sob a justificativa da “higiene” – o argumento da época para o que hoje chamaríamos de sanitarismo autoritário. A cidade estava sofrendo surtos de febre amarela, malária e varíola. A solução proposta era derrubar as habitações coletivas onde os pobres moravam.
O argumento da higiene escondia o da classe: A justificativa oficial das demolições era a saúde pública. Mas, como analisa a Fiocruz em seu acervo histórico, o que estava em jogo era a expulsão da população pobre de uma área central que a elite queria para si. Os palacetes e jardins que substituíram os cortiços não tinham nada de sanitário – tinham tudo de especulação imobiliária.
O povo que resistiu: a Revolta da Vacina de 1904
A população pobre do Rio não aceitou passivamente. Em novembro de 1904, uma combinação explosiva de fatores gerou uma das maiores revoltas urbanas da história brasileira: a Revolta da Vacina. O estopim foi a vacinação obrigatória contra a varíola, determinada por Oswaldo Cruz. Mas o combustível era a raiva acumulada pelas demolições, pelos despejos, pela transformação da cidade que expulsava os pobres sem lhes oferecer nada.
Por cinco dias, o Rio entrou em colapso. Bondes foram virados, lampoes quebrados, batalhas de rua entre populares e policia. O governo recuou na vacina. Mas não nas demolições.
A população que perdeu sua moradia foi empurrada para dois destinos: os subúrbios – para quem tinha alguma renda e conseguia pagar aluguel mais distante – e os morros – para quem não tinha nada. Como a biblioteca histórica da Fiocruz registra, os mais pobres “foram habitar as encostas dos morros, engrossando o contingente populacional das favelas que começavam a surgir”.
Leia também: Revolta da Balaiada: a resistência popular que o Brasil esqueceu – outra resposta popular violenta a exclusão sistemática.
3. A favela cresce – e o Estado finge que não vê
Do inicio do século XX até os anos 1940, as favelas do Rio cresceram em silêncio. O poder público as ignorava oficialmente – mas as tolerava na prática, porque precisava da mão de obra barata que elas forneciam.
Em 1950, o primeiro Censo brasileiro a medir as favelas revelou um número que surpreendeu até mesmo os que já as viam crescer: 7,2% da população do então Distrito Federal – cerca de 170 mil pessoas – já vivia em favelas. A cidade que queria ser Paris tinha, na verdade, construído seus morros.
Em 1960, esse número havia dobrado: 335 mil pessoas, 10% da população total. E o crescimento não dava sinais de parar.
Por que as favelas cresciam tao rápido nos anos 1950 e 60
O crescimento acelerado nesse período tinha uma causa clara: a migração interna. O Brasil estava se industrializando. As fabricas se concentravam nas grandes cidades – especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. Milhões de trabalhadores do Nordeste e do interior vieram para o Sudeste em busca de emprego.
Quando chegavam, encontravam uma cidade sem política habitacional. O mercado imobiliário formal era inacessível para quem ganhava salario mínimo. Os conjuntos habitacionais eram escassos e mal localizados. A única opção acessível era o morro – perto do emprego, de graça, sem burocracia.
Como aponta o professor Carlos Vainer, da UFRJ, “desde a sua fundação, os pobres sao removidos para dar lugar aos ricos”. A favela não e um problema de falta de planejamento. E o resultado de um planejamento que nunca incluiu os pobres.
4. A era das remoções: quando o Estado foi de negligente a agressor
Se até os anos 1950 o Estado ignorava as favelas, a partir dos anos 1960 ele passou a agir ativamente contra elas. E a ação não foi de urbanização – foi de remoção força. Dessa vez, o Estado não era negligente. Era agressor.
Carlos Lacerda e a guerra contra as favelas
Quando Carlos Lacerda assumiu como primeiro governador do estado da Guanabara em 1960, as favelas concentravam mais de 330 mil pessoas – e ficavam em locais estratégicos: perto das fabricas da Zona Norte e dos serviços da Zona Sul. Lacerda já havia feito campanha contra as favelas como jornalista. Como governador, passou da palavra a ação.
Seu programa de remoção retirava moradores das favelas – especialmente as da Zona Sul – e os transferia para conjuntos habitacionais construídos em regiões distantes, como Bangu, Campo Grande e Jacarepagua. A justificativa era oferecer “habitação digna”. A realidade era diferente.
Os conjuntos eram mal construídos, mal localizados, sem comércio, sem transporte adequado, sem escola nem posto de saúde. Moradores perdiam suas comunidades, seus laços de vizinhança, seu acesso ao emprego. E muitas vezes eram transferidos para locais que ficavam a dezenas de quilômetros do trabalho que tinham no centro.
Mais revelador ainda: as areas de onde as favelas foram removidas na Zona Sul foram rápidamente ocupadas por empreendimentos imobiliários de alto luxo. Isso deixava claro o que estava em jogo: não era higiene, não era urbanismo. Era especulação imobiliária usando o Estado como instrumento.
A ditadura militar e a era das remoções em massa (1964-1974)
Com o Golpe de 1964 e a instalacao da ditadura militar, as remoções de favelas ganharam uma escala nunca vista. O regime repressivo eliminava a possibilidade de resistência organizada. Liderancas comunitarias eram presas ou silenciadas. E a política de remoção podia ser executada com força total.
O órgão responsável era a CHISAM – Coordenação de Habitação de Interesse Social da Area Metropolitana do Grande Rio. Sua meta era erradicar as favelas da cidade, especialmente as da Zona Sul, e transferir os moradores para a periferia.
Os números sao contundentes: entre 1962 e 1974, 80 favelas foram envolvidas em programas de remoção, resultando em 26.193 barracos destruidos e 139.218 habitantes removidos. Quase 140 mil pessoas deslocadas em 12 anos.
O que foi prometido x o que aconteceu: Em 1969, o documento oficial “Rio: Operaçao Favela” anunciava que até o fim do mandato do governador Negrão de Lima, em 1971, “pelo menos 250 mil moradores de diversas favelas cariocas, incluindo práticamente todas as da Zona Sul, passarao a morar em habitações de pedra e cal.” A promessa não foi cumprida. O que foi cumprido foi a remoção. A habitação digna ficou no papel.
O Vidigal resiste: quando a comunidade ganhou
Em 1977, em plena ditadura, a comunidade do Vidigal – entre o Leblon e São Conrado, na Zona Sul – recebeu a ordem de remoção. O prefeito Marcos Tamoyo queria o terreno para um hotel de luxo.
O que aconteceu a seguir foi inesperado. Os moradores se organizaram. Foram até o terreno oferecido pelo prefeito como alternativa, em Antares, Zona Oeste. E voltaram com um relato devastador: “Antares parecia um campo de concentração”, disse um dos líderes da epoca, Carlos Duque, segundo o relato do RioOnWatch. Sem escola, sem hospital, sem estrutura nenhuma.
A comunidade recusou a remoção. Contou com apoio de estudantes, medicos, advogados, arquitetos e jornalistas. A resistência virou notícia nacional. E a remoção não aconteceu.
O Vidigal permanece na Zona Sul até hoje. E sua resistência abriu precedente para outras comunidades que viriam depois.
Leia também: A Sabinada: a revolucao na Bahia que o Brasil esqueceu – outra história de resistência popular contra o poder do Estado.
5. A expansao na Zona Sul: quando o morro virou vizinho do asfalto rico
Apesar das remoções, as favelas da Zona Sul não desapareceram. Pelo contrario: com o fim das políticas de erradicação e o retorno progressivo da democracia, elas cresceram. E ficaram no lugar.
A explicação e simples: as favelas da Zona Sul ficam perto do emprego. Copacabana, Ipanema, Leblon, Gavea, Botafogo — sao bairros com altíssima concentração de serviços, comércio, empregos domésticos, construção civil. Morar no morro próximo significa gastar zero de condução e ter flexibilidade de horario que o morador do subúrbio distante não tem.
Assim, ao lado dos bairros mais caros do Rio – e do Brasil -, cresceram comunidades como:
| Comunidade / Favela | Localizacao | Caracteristica |
| Rocinha | Entre Gavea e São Conrado | Maior favela do país: 72.021 moradores (Censo 2022) |
| Vidigal | Entre Leblon e São Conrado | Resistiu a remoção em 1977; hoje com acesso a vista privilegiada |
| Pavao-Pavãozinho/Cantagalo | Entre Copacabana e Ipanema | Comunidade no morro entre dois dos bairros mais nobres do mundo |
| Chapeu-Mangueira/Babilonia | Leme / Botafogo | Favela com vista para o Pao de Açúcar e para Copacabana |
| Santa Marta | Botafogo | Primeira favela a receber UPP em 2008 |
| Complexo do Alemao | Zona Norte / Penha | Grande complexo de comunidades, símbolo das disputas por território |
O contraste e visivel a olho nu: a Rocinha fica entre a Gavea e São Conrado. Do morro, ve-se o condomínio de luxo São Conrado Fashion Mall de um lado e o Country Club do outro. O metro quadrado na Gavea e um dos mais caros da cidade. O morador da Rocinha não tem titulação de terra, não tem esgoto adequado e paga mais caro pelo botijao de gas do que o morador do asfalto.
Esse contraste não e tolerado pelo mercado imobiliário – ele e necessário para ele. A Zona Sul precisa de uma massa de trabalhadores próximos. A favela e a solução que o mercado não paga e o Estado nunca quis assumir.
6. A Barra da Tijuca: como a especulação imobiliária criou novas favelas
A Zona Sul fica cheia, o capital imobiliário expande a fronteira. Essa e a lógica que, a partir dos anos 1970 e 1980, levou ao crescimento acelerado da Barra da Tijuca – e ao surgimento de novas favelas nessa região.
A Barra foi projetada nos anos 1960 pelo urbanista Lucio Costa como uma cidade planejada, com amplos espacos, avenidas largas e condomínios afastados. Era o sonho modernista de uma cidade para carros — e para ricos.
Mas onde ricos constroem mansões e condomínios, alguem precisa construir essas mansões, limpar esses condomínios, trabalhar nos supermercados, nos postos de gasolina, nos restaurantes. Essa mão de obra precisava de um lugar para morar. E a Barra, planejada para o carro e para o condomínio fechado, não planejou moradia popular.
As favelas que o capital imobiliário não queria ver
O resultado foi previsível. Ao longo dos anos 1980, favelas começaram a surgir nos interstícios da Barra — nas areas de mangue, nas encostas, nos lotes não valorizados que ficavam entre os empreendimentos de luxo.
O jornal O Globo notíciava em 1968, com “certo alarde”, segundo pesquisa do Observatorio das Metropoles: “De Vigario Geral até a Barra da Tijuca, não ha quem não saiba que as favelas estao crescendo.” O mesmo processo que criara os morros da Zona Sul no século XX se repetia na Zona Oeste.
Com a chegada dos empreendimentos comerciais – o BarraShopping em 1981, o Shopping Downtown – a pressão sobre as comunidades próximas aumentou. Favelas como a Via Park e a Vila Marapendi foram removidas na década de 1980 para liberar terreno para os shoppings e condomínios. Os moradores foram mandados para alhures.
As remoções olimpicas: o último grande ciclo de expulsão
O capítulo mais recente e mais documentado desse ciclo de especulação e expulsão aconteceu entre 2010 e 2016, quando o Rio sediou a Copa do Mundo e as Olimpiadas.
Sob o argumento das obras de infraestrutura — especialmente as vias de BRT (ônibus rápido) e os equipamentos olímpicos em Jacarepagua e na Barra -, a prefeitura removeu um número estimado de 22 mil famílias. A Zona Oeste – Barra, Jacarepagua, adjacências – foi o epicentro das remoções, segundo pesquisa do Dicionário de Favelas Marielle Franco.
O caso mais emblemático foi o da Vila Autodromo: uma comunidade de pescadores as margens da Lagoa de Jacarepagua, com mais de 500 famílias que viviam lá há décadas. A prefeitura queria o terreno para o Parque Olímpico. Os moradores resistiram, apresentaram planos alternativos, ganharam prêmios internacionais de urbanismo. No final, a maioria foi removida. Algumas famílias ficaram – e viraram símbolo.
O fluxo das remoções tinha uma direção clara: das áreas valorizadas para a periferia. Moradores saiam da Barra e de Jacarepagua e eram reassentados em bairros ainda mais distantes do centro – reproduzindo, cem anos depois, a mesma lógica da Reforma Pereira Passos.
7. O que o Censo 2022 revela: a favela e um fenomeno urbano estrutural
Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE públicados em 2024 sao reveladores.
| Dado | Número |
| Total de pessoas em favelas no Brasil | 16,4 milhoes (8,1% da população) |
| População em favelas no Rio de Janeiro | 2,1 milhoes — 13,3% do estado |
| Maior favela do país | Rocinha (RJ): 72.021 moradores |
| Favelas com até 500 domicilios | 72,5% do total — a maioria e pequena |
| Domicilios em favelas no Brasil | 6,56 milhoes — 7,2% dos lares do país |
| Cor/raça dos moradores de favelas no RJ | 49,45% pardos, 21% pretos, 29% brancos |
| População das favelas e maioria | Negra (preta + parda): 70,45% no RJ |
| Esgoto inadequado nas favelas do RJ | 20,95% dos domicilios sem esgoto correto |
| Taxa de alfabetização nas favelas do RJ | 93,8% — apenas 2,9% abaixo da media estadual |
Um dado se destaca: 70% dos moradores de favelas no Rio de Janeiro sao negros (pretos e pardos). Isso não e coincidencia. E a continuacao direta de uma história que começou em 1888, quando africanos foram libertados sem terra, sem dinheiro e sem política de inserção. A favela, em boa medida, e a senzala que o mercado imobiliário e o Estado encontraram para substituir a que existia.
Outro dado importante: a taxa de alfabetização de 93,8% mostra que a imagem do morador de favela como alguem “sem estudo” e um estereótipo. A população das favelas e educada, trabalhadora e contribui para a economia da cidade. O que falta não e mérito — e política pública.
8. O que nunca mudou: a favela como solução que o Estado se recusou a oferecer
Mais de um século depois do Morro da Providencia, a lógica fundamental não mudou.
A cidade precisa de trabalhadores. Os trabalhadores precisam de moradia perto do trabalho. O mercado imobiliário torna essa moradia inacessível. E o Estado, sistematicamente, se recusa a fazer o que faria para resolver o problema: construir habitação popular bem localizada. Em vez disso, tolera a favela quando ela e util e a remove quando o terreno fica valioso.
Essa lógica se repete em ciclos:
- População pobre chega a uma area próxima do trabalho e funda uma comunidade
- O bairro se valoriza ao redor da comunidade
- O capital imobiliário cobiça o terreno
- O Estado usa alguma justificativa — saúde, obras, seguranca — para remover
- A população e transferida para a periferia
- No novo lugar, o ciclo recomeça
Esse ciclo aconteceu com os cortiços do centro em 1903. Aconteceu com as favelas da Zona Sul na década de 1960. Aconteceu com as favelas da Barra na década de 1980. Aconteceu com a Vila Autodromo em 2016.
O que muda e o argumento. O que não muda e a direcao: os pobres sempre vao para mais longe. E o terreno sempre fica para o capital.
Urbanização ou remoção? O debate que o Brasil nunca resolveu: A alternativa a remoção existe e foi testada com sucesso: a urbanização da favela. Projetos como o Favela-Bairro (Rio, anos 1990) e o Minha Casa Minha Vida Urbanização (anos 2000) mostraram que e possivel levar água, esgoto, calçamento e regularização fundiária para as comunidades onde as pessoas já vivem. O custo e menor do que remover e reconstruir. O resultado social e melhor. Mas exige uma escolha política que colide com os interesses do mercado imobiliário.
A favela e uma pergunta que o Brasil precisa responder
A favela não surgiu porque os pobres invadiram a cidade. Surgiu porque a cidade foi construída sem os pobres. Sem moradia para quem trabalha nos serviços, sem política habitacional para quem ganha salario minimo, sem respeito pelo direito humano a ter um lugar para viver.
Cada favela no Rio de Janeiro e o resultado de uma escolha. A escolha de demolir o cortiço sem oferecer alternativa. A escolha de remover a comunidade para dar lugar ao hotel de luxo. A escolha de construir o parque olimpico sem pensar nos vizinhos. A escolha, repetida por mais de cem anos, de que os pobres podem morar onde sobrar espaco — mas precisam sair quando o espaco se valorizar.
Entender isso não e romantizar a pobreza. E reconhecer que 16,4 milhoes de pessoas vivem em favelas no Brasil não porque escolheram assim, mas porque o país nunca escolheu fazer diferente.
Compartilhe esse texto. Essa e uma história que todo brasileiro precisa conhecer.
Leia também no Outro Lado da História:
-> Escravidão no Brasil: história, abolição e discriminação racial
-> História da Desigualdade no Brasil
-> O Ciclo do Açúcar e a Formação do Latifundio
-> A Vinda da Família Real (1808)
-> Intolerancia religiosa e o racismo andam juntos
Fontes e referencias externas:
-> IBGE — Favelas e Comunidades Urbanas: Censo Demográfico 2022
-> Agencia Brasil — Quase 16,4 milhoes de pessoas moram em favelas no Brasil (2024)
-> CEPERJ/RJ — Panorama das Favelas do Estado do Rio de Janeiro (IBGE 2024)
-> Fiocruz — Reforma Pereira Passos (acervo histórico)
-> Observatorio das Metropoles — Ditadura militar e favelas
-> Dicionario de Favelas Marielle Franco — Remoções de favelas no Rio de Janeiro
-> RioOnWatch — Ha 45 anos, em plena ditadura, o Vidigal resistiu as remoções
-> MultiRio — Rio de Janeiro: entre remoções e conjuntos habitacionais
-> PUC-Rio/O Social em Questão — Favelas e remocionismo ontem e hoje
-> ComCiencia/Únicamp — Motivações e consequências sociais das reformas urbanas no Rio
