O berço do Samba no Rio de Janeiro foi a Praça Onze, localizada na região conhecida como Cidade Nova, no centro do Rio de Janeiro. Um espaço de forte presença negra e que funcionou como um verdadeiro epicentro da cultura afro-carioca.
A Cidade Nova e a formação de um território negro
No final do século XIX e início do XX, o Rio de Janeiro passou por profundas transformações urbanas. As reformas promovidas pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX, destruíram cortiços no centro da cidade.
A medida expulsava milhares de pessoas pobres de áreas valorizadas da cidade. Sem políticas habitacionais, essa população foi empurrada para regiões periféricas ou para espaços urbanos desvalorizados, como a Cidade Nova.
A Praça Onze tornou-se um ponto de convergência desses deslocamentos forçados. Ali se encontravam ex-escravizados, trabalhadores pobres, migrantes baianos e descendentes de africanos que, excluídos da cidadania plena após a abolição, reconstruíram formas de sociabilidade, religiosidade e expressão cultural.
Mais do que um bairro, a Praça Onze foi um espaço de reconstrução da vida negra após a escravidão, em um contexto de racismo estrutural e repressão cultural.
O samba, portanto, não surgiu como produto espontâneo, mas como resposta coletiva à marginalização social e racial imposta à população negra no pós-Abolição.

As “tias baianas” e o nascimento do samba urbano
Figura central nesse processo foram as chamadas tias baianas, mulheres negras que lideravam casas de culto, festas e encontros musicais. Entre elas, destacou-se Tia Ciata, cuja casa tornou-se ponto de encontro de músicos, compositores e praticantes de religiões afro-brasileiras.
Foi nesses quintais, protegidos do olhar policial, que o samba começou a ganhar forma. Instrumentos de origem africana, cantos coletivos, improvisação e ritmos trazidos da Bahia se misturaram às experiências urbanas do Rio de Janeiro.
Durante as primeiras décadas do século XX, tocar samba em espaços públicos podia resultar em prisões, apreensão de instrumentos e violência policial. Ainda assim, a Praça Onze resistiu como território cultural vivo.
Carnaval, samba e centralidade cultural
A Praça Onze também foi o coração do carnaval popular carioca antes da oficialização e da mercantilização da festa. Ranchos, blocos e escolas de samba desfilavam pela região, transformando o espaço em palco de afirmação cultural negra e popular.
Escolas de samba históricas, como a Deixa Falar, considerada por muitos a primeira escola de samba do Rio, surgiram nesse ambiente. O samba, antes marginalizado, começou a ganhar visibilidade, mas essa aceitação foi seletiva. Valorizava-se a música, enquanto se mantinha a exclusão social de seus criadores.
A destruição da Praça Onze e o apagamento da memória negra
Ao mesmo tempo que o samba ganhava aceitação, a Praça Onze era atacada. Na década de 1940, durante o governo de Getúlio Vargas, sob o discurso da modernização urbana, foi construída a Avenida Presidente Vargas, varrendo a Praça Onze do mapa.
Milhares de moradores foram removidos sem consulta, indenização adequada ou alternativas dignas de moradia. Casas, terreiros, bares, salões e espaços culturais desapareceram.
Essa destruição não foi neutra nem inevitável. Ela seguiu uma lógica recorrente no urbanismo brasileiro: modernizar a cidade significava eliminar territórios populares e negros considerados obstáculos ao “progresso”.

Para onde foram os moradores da Praça Onze após a destruição
Sem políticas públicas de reassentamento ou garantia de moradia digna, os antigos moradores foram empurrados para áreas cada vez mais distantes do centro da cidade, aprofundando processos de segregação racial e social já existentes no Rio de Janeiro.
Uma parcela significativa dessa população foi para os subúrbios ferroviários, especialmente ao longo das linhas da Central do Brasil, como Madureira, Oswaldo Cruz, Cascadura e Irajá.
Não, por acaso, que foi justamente nesses locais que o samba se manteve vivo. Madureira, por exemplo, se tornou um dos principais polos do samba carioca, abrigando escolas como Portela e Império Serrano, herdeiras diretas da tradição da Praça Onze. Outro destino recorrente foram as favelas, que cresceram rapidamente nas encostas dos morros e em áreas negligenciadas pelo poder público.
Morros como o São Carlos, o Estácio e regiões próximas ao Mangueira receberam parte dessa população deslocada. Esse movimento contribuiu para a consolidação das favelas como espaços de moradia da classe trabalhadora negra, resultado direto da exclusão urbana promovida pelo Estado.
