O Bembé do Mercado é uma das mais importantes celebrações religiosas afro-brasileiras do país. Realizado em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, o ritual simboliza fé, liberdade e resistência do povo negro. Sua existência está diretamente ligada à luta pela ocupação do espaço público, à afirmação religiosa e ao enfrentamento da ordem racial construída no Brasil pós-abolição.
O que é o Bembé do Mercado e onde acontece
O Bembé do Mercado acontece em Santo Amaro da Purificação, cidade marcada pela forte presença histórica do povo negro. Segundo pesquisadores e lideranças religiosas, o ritual é considerado o maior Candomblé de rua do mundo.
Há registros de sua realização contínua desde o final do século XIX, especialmente a partir de 1889. O Bembé reúne dezenas de terreiros de Candomblé e outras tradições de matriz africana em pleno espaço público, ocupando ruas e a área do mercado municipal, um local historicamente associado ao controle econômico e social da cidade.
A origem do Bembé do Mercado no pós-abolição
O Bembé do Mercado surgiu no contexto imediato da abolição da escravidão no Brasil. Para a população negra de Santo Amaro, a celebração simbolizou a vivência coletiva da liberdade recém-conquistada, em um país que aboliu a escravidão sem garantir cidadania plena aos libertos.
Mais do que uma festa, o ritual marcou a ocupação consciente das ruas por práticas religiosas que haviam sido historicamente perseguidas. Realizar um Candomblé em espaço aberto significava afirmar publicamente a fé, a cultura e a autonomia negra diante de um Estado que buscava empurrar essas manifestações para a invisibilidade.
A programação religiosa e os rituais do Bembé
Ao longo de vários dias, o Bembé do Mercado promove uma intensa programação religiosa e cultural. De acordo com as organizações do evento, mais de 60 terreiros participam das atividades.
O ponto central da celebração é o xirê, ritual dedicado aos orixás. Em seguida, ocorrem o cortejo e a entrega de oferendas a divindades como Iemanjá e Oxum, reafirmando a centralidade da ancestralidade africana.
Repressão concreta às religiões afro-brasileiras
A permanência do Bembé do Mercado deve ser compreendida à luz da repressão sistemática sofrida pelas religiões afro-brasileiras no período republicano. O Código Penal da República enquadrava práticas associadas ao Candomblé como curandeirismo, feitiçaria ou perturbação da ordem, fornecendo base legal para perseguições.
No Recôncavo Baiano, ações da polícia local incluíam batidas em terreiros, interrupção de rituais, apreensão de objetos sagrados e intimidação de lideranças religiosas. O espaço público era alvo constante de vigilância, e qualquer manifestação negra que escapasse ao controle estatal era tratada como ameaça à ordem urbana.
Nesse contexto, o Bembé do Mercado representava uma afronta direta às tentativas de controle do espaço público. Ao levar o Candomblé para o centro da cidade, a celebração desafiava o poder policial e a lógica que reservava às religiões afro-brasileiras a clandestinidade.
Projeto nacional, ordem racial e colonialismo interno
O Bembé do Mercado confronta o projeto nacional construído no Brasil pós-abolição, marcado por ideais republicanos e por uma política de branqueamento racial. Esse projeto tolerava a presença negra apenas fora dos espaços de poder e visibilidade, relegando suas práticas culturais e religiosas à marginalidade.
Ao ocupar ruas, praças e o mercado, o Bembé rompe com a ideia de que a religião negra deve permanecer restrita ao espaço privado. A celebração afirma o direito à cidade e à visibilidade pública, desafiando a ordem racial brasileira e o colonialismo interno que historicamente subalternizou culturas de matriz africana.
O mercado como espaço simbólico de disputa
O mercado municipal não é apenas cenário do Bembé. Historicamente, esses espaços estiveram ligados à economia colonial, à fiscalização urbana e à vigilância dos corpos negros, especialmente no período escravista e no pós-abolição.
Ao transformar o mercado em território sagrado, o Bembé do Mercado ressignifica um espaço de controle em espaço de culto, memória e resistência. Essa inversão simbólica reforça o caráter político do ritual e sua centralidade na história negra do Recôncavo Baiano.
Reconhecimento como patrimônio cultural e o carnaval
O Bembé do Mercado foi reconhecido como Patrimônio Imaterial da Bahia em 2012 e, em 2019, recebeu o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Esses reconhecimentos representam avanços institucionais, embora não apaguem o histórico de repressão e marginalização.
Em 2026, o Bembé do Mercado chega ao Carnaval carioca como enredo da Beija-Flor.
