A avaliação Wicked traaz que o filme é muito mais que um conto sobre magia. É uma metáfora perfeita sobre o poder, a manipulação e a fabricação de inimigos. Portanto, trata-se de uma história política profundamente atual, mas contada de uma forma mais lúdica.
Isso porque enquanto o Mágico de Oz é voltado para a jornada de Dorothy, Wicked vira a lente e mostra o outro lado da história: a versão da Bruxa Má.
Quando o poder escolhe quem é o vilão
Elphaba, a “bruxa má do oeste”, não nasce má.
Ela nasce diferente. Verde. E, num mundo que venera a aparência e o conformismo, ser diferente já é crime.
Desde cedo, ela descobre que o sistema não teme o mal e sim o pensamento próprio. Ela é inteligente, questionadora, e recusa-se a aplaudir a injustiça. Isso basta para que o poder decida que ela é o problema.
Assim funciona também a política: os que desafiam o poder não são derrotados apenas por força e sim são destruídos pela narrativa. E antes de o sistema silenciar alguém, ele precisa fazer o povo odiar essa pessoa.Transformar o dissidente em vilão. E nisso o governo de Oz é mestre.
O mágico como metáfora do populismo
O “grande e poderoso Mágico de Oz” não tem poder algum. É apenas um homem comum escondido atrás de cortinas, controlando máquinas de fumaça e microfones. Seu poder é o da ilusão, a política do espetáculo.
Ele cria inimigos imaginários, narrativas e inventa ameaças. Em seguida promete segurança e soluções para um monstro que ele mesmo criou. Desta forma, manipula o medo coletivo e mantém todos obedientes. Qualquer semelhança com a política contemporânea não é coincidência. O que mais tem por aí é charlatão.
O nascimento de uma narrativa oficial
Quando Elphaba descobre as mentiras do governo — o aprisionamento de animais falantes, a manipulação da imprensa e a supressão da liberdade —, ela tenta denunciar.
Mas o sistema já tem o roteiro pronto: “Cuidado com a bruxa!”
É assim que governos autoritários e associações que tentam manter seu público fiel funcionam. Mentem e inventam um inimigo.
O povo, alimentado pelo medo, acredita em tudo. De repente, Elphaba, que lutava contra a injustiça, vira a encarnação do mal. E o povo, que um dia poderia tê-la ouvido e ter prosperado, agora grita pedindo a sua caça. Seguindo aos interesses de quem vive os privilégios do poder.
Glinda, a “bruxa boa”, representa o caminho da conveniência. Ela se adapta, sorri para as câmeras, repete os discursos oficiais. É recompensada com fama, status e aceitação.
Elphaba, ao contrário, recusa a mentira. E paga o preço por isso: o isolamento, a perseguição e o ódio. Ser coerente, em um mundo de aparências, é ser perigoso.
O teatro político e o controle das emoções
A força do Mágico de Oz não está na repressão física, mas no controle emocional. O povo acredita na versão oficial porque quer acreditar. Quer se sentir do lado certo, quer um vilão para culpar, quer o conforto da resposta fácil.
O sistema oferece isso: um enredo fácil, heróis claros, inimigos definidos. E qualquer um que tente complexificar — como Elphaba — é eliminado.
Na política real, acontece o mesmo: a elite e os meios de comunicação constroem narrativas que transformam problemas estruturais em dramas morais. Desigualdade vira falta de mérito. Corrupção é culpa de uma pessoa ou grupo e não da estrutura. E os que desafiam o sistema são tratados como “radicais”, “perigosos”, “antipatriotas.”
A moral invertida e o espelho da realidade
O que Wicked faz é inverter a lente. Nos mostra que o “mal” é, na verdade, o ponto de vista de quem perdeu o microfone. A bruxa só é má porque o poder disse que ela é.
Essa inversão é a mesma que a história oficial tenta evitar o tempo todo. Ela nos obriga a perguntar quem controla a narrativa do que você acredita? Essa pessoa ou grupo detém ou não privilégios?
E talvez a crítica mais dolorosa da obra é que a mentira só sobrevive porque as pessoas a desejam. A maioria prefere não ver, não ouvir, não pensar.
Prefere o conforto de acreditar que bruxa é má do que refletir sobre os fatos. No fim, Wicked não é uma história sobre magia, mas sobre hegemonia.
Mostra como o poder cria seus próprios mitos, heróis e inimigos para se sustentar.
E como a verdade — quando dita por quem não tem poder — precisa se disfarçar para sobreviver.
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